Fazedores de democracia

É necessário resgatar o que fora perdido; é preciso recompor urgentemente, a democracia brasileira e torná-la uma constante nos espíritos do povo brasileiro, em suas manifestações e horizontes

A frágil democracia brasileira fora o resultado de muita luta social; não nasceu pronta; não surgiu da benevolência das elites ou; foi uma unção da igreja aos seus fieis. Sem esforços seculares a envolver trabalhadores do campo e da cidade; sem muita resistência e teimosia não teríamos, sob qualquer aspecto, a incipiente democracia e que, aos trancos e barrancos, nos serviu; como se bem sabe, até ao golpeamento da presidente Dilma Rousseff.

É necessário resgatar o que fora perdido; é preciso recompor urgentemente, a democracia brasileira e torná-la uma constante nos espíritos do povo brasileiro, em suas manifestações e horizontes.

Essa necessidade é vital porque, de outra forma, o próprio conceito de direito é absolutamente relativizado; é no ambiente democrático que se dá, a partir de outro padrão e nível civilizacional, a luta pela construção de direitos, por sua afirmação e manutenção no cotidiano de homens e mulheres.

Em ambientes não democráticos, essas lutas ganham outros contornos e sentidos. É aí que tudo se torna mais complexo e difícil para reformadores sociais. Um manifestante torna-se, a partir da pedagogia dualista dos regimes de exceção, um perigoso terrorista; ocupações populares viram invasões; assembleias de trabalhadores, ensaios de desobediência civil; manifestações de camponeses são, como que por passe de mágicas, convertidas em sublevações desordeiras de uma "gente bárbara" contra a própria civilização.

Na democracia, no entanto, o Estado tem de ser democrático; e Estado democrático não é fim em si mesmo, mas é o funcionamento de conjunto de instituições que, de fato, opera para promover o cidadão/cidadã e que resguardando-os são, da mesma forma, resguardados.

É nessa conformidade que as narrativas acerca do poder, da sua lógica de acontecimento e utilização são alteradas porque, concomitantemente, sentidos humanos são alterados; daí e por conseguinte, as relações com eventos ou acontecimentos de caráter social e popular, eventos, por sinal, da própria natureza da democracia e que, de outra feita, não admite que eles não aconteçam são, da mesma maneira, alteradas.

Mas é impossível que cidadãos brasileiros que se manifestam pacificamente nas praças e ruas de seu próprio país sejam tratados como se bandidos ou ameaças sociais fossem. Diferentemente do que crê e apregoa o pensamento conservador, democracia é barulho, movimento e disputa; disputa de ideias, de conceitos e de projetos sociais a gerirem a vida nacional. Na democracia, o equilíbrio possível só com muito movimento.

Definitivamente, não pode haver democracia se cidadãos e concidadãos, seres políticos e que se vinculam e integram por meio de múltiplas formas de política, não disputarem seus conteúdos sociais, políticos, econômicos, culturais e simbólicos.

Essa infame tormenta política irá passar; os que a sustentam, mirando em únicos e exclusivos interesses comezinhos e pessoais serão ferozmente absorvidos pelos lúgubres vazios do tempo e inexoravelmente, cairão em eterno esquecimento. Aos que resistirem restará a substância insuperável da verdade histórica e que os tornará e celebrará como fazedores de um povo novo, forte, superior e livre. Ainda há muito sentido em uma democracia para o Brasil.

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