Fingindo que nada aconteceu na ONU, Trump tenta novo ataque à Venezuela

"O bloqueio das receitas de exportação de petróleo venezuelano rompe um dos últimos vestígios de normalidade nas relações entre Washington e Caracas, confirmando a disposição de Trump de seguir em frente num confronto acima dos princípios essenciais ao convívio entre países soberanos, a começar pela auto-determinação dos povos", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247.  Para PML, "a opção por uma medida de ruptura mostra que a Casa Branca tem enfrentado dificuldades maiores do que seus aliados eram capazes de calcular até aqui, como o apoio das Forças Armadas ao governo Maduro e a firmeza da Russia e da China em repelir, na ONU, uma moção de apoio ao 'presidente interino' Juan Guaidó"

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Setenta e duas horas depois do revés diplomático no Conselho de Segurança da ONU, quando Russia e China impediram que se aprovasse uma moção de apoio ao "presidente interino" Juan Guaidó,  Donald Trump retomou a ofensiva contra Nicolas Maduro pelo método clássico -- a guerra econômica.

O plano é tentar provocar a morte por asfixia da economia venezuelana com ajuda de duas a medidas anunciadas ontem, que vem se somar a uma imensa coleção de atos de manipulação com o câmbio e atos de sabotagem em geral, num processo de anos. Uma das medidas anunciadas é o  bloqueio de U$ 7 bilhões em ativos da estatal venezuelana de petróleo, PDVSA, nos Estados Unidos. A outra é um calote anunciado.

A partir de agora o governo venezuelano  não irá mais receber o devido pagamento pelo petróleo importado de seu país e processado em três refinarias -- de propriedade venezuelana -- que operam nos EUA, onde dominam uma fatia importante do mercado local. A decisão é congelar os recursos numa conta especial, que só será movimentada quando o dinheiro puder ser desviado para Guaidó.

Não se trata de uma pequena mudança, mas uma decisão que pode gerar sacrifícios que terão impacto direto sobre a parcela de venezuelanos que se mantém fiel as conquistas do chavismo. 

Até agora, as preciosas receitas de exportação e refino de petróleo venezuelano para os Estados Unidos estavam de fora dos bloqueios e  sanções que atingem o conjunto da economia do país sul-americano. Representavam um dos últimos vestígios de normalidade nas relações entre os dois países. 

Em regra, as pressões e medidas punitivas contra a Venezuela envolviam  papéis relativos aos compromissos financeiros, além de  altos funcionários do governo, em particular da área econômica, que tiveram até contas pessoais bloqueadas. As bilionárias exportações para EUA, no entanto, estavam de fora. 

A explicação para esse tratamento  diferenciado era técnica.  Várias empresas norte-americanas, e mesmo grandes refinaria, têm um alto grau de dependência de um  tipo raro de petróleo produzido pela Venezuela e teriam uma imensa dificuldade para encontrar uma oferta similar no mercado internacional, com prazo de entrega de apenas 3 dias. (A Arábia Saudita, que produz o mesmo petróleo, leva 45 dias para transportá-lo do Oriente Médio para os Estados Unidos).

As medidas recém-anunciadas se explicam  por razões políticas. No estágio mais avançado da ofensiva contra Maduro, já não faz sentido para os EUA alimentar um mecanismo que, de uma forma ou de outra, irriga a economia venezuelana com os dólares tão necessários aos país, inclusive para importação de remédios e bens de primeira necessidade, evitando o colapso de um adversário que Washington pretende derrubar de qualquer maneira.

A opção por uma medida extrema de ruptura, quebrando os últimos vasos comunicantes entre Caracas e Washington,  confirma a disposição dos EUA de seguir em frente num projeto acima dos valores essenciais ao convívio entre países soberanos, a começar pela auto-determinação dos povos.

Mas também mostra que Washington tem enfrentando dificuldades maiores do que seus aliados eram capazes de calcular até aqui.  Num ponto crucial da situação interna da Venezuela, as Forças Armadas continuam unidas no apoio a Maduro e ao chavismo, sem sinais de dissidências importantes à vista.

O Conselho de Segurança da ONU também sinalizou para mudança que não pode ser desprezada. 

Ao vetar a resolução anti-Maduro apresentada pelos Estados Unidos, Rússia e China apontaram para uma mudança de vulto  -- o fim de uma ordem mundial  unilateral, com pólo  único, que obedecia, sem levantar a cabeça, ordens recebidas de  Washington.

Entre os outros membros permanentes do Conselho de Segurança, que têm poder de mando sobre a instituição, encontra-se a estropiada Thereza May do Brexit, e os coletes amarelos de Emanoel Macron. Sem falar no comandante-em-chefe, assombrado por investigações sem fim, agora marcado pela derrota num conflito memorável pela construção de um Muro da Vergonha contra os povos abaixo do Rio Grande -- universo que inclui mexicanos, guatemaltecos, hondurenhos, panamenhos e muitos outros, inclusive venezuelanos. Este é o horizonte, agora e aqui. 

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