Fogo na Amazônia queima futuro do Brasil

"O fogo que queima a floresta Amazônica provocou queimaduras de 3º grau no governo como um todo, resultando em danos globais irreparáveis", escreve o colunista Aldo Fornazieri. "Ao colaborar com a destruição da Amazônia, Bolsonaro e os que o secundam nessa empreitada se mostram falsos patriotas e vendilhões da soberania", continua. "Somente a sociedade nas ruas pode detê-lo"

O fogo que queima a floresta Amazônica provocou queimaduras de 3º grau no governo como um todo, resultando em danos globais irreparáveis. A imagem do Brasil no mundo é, sem dúvida, a pior de toda a sua história. Mas, de forma menos danosa, as chamas chamuscaram significativamente outros atores: o Ministério Público, os governos estaduais da região e os partidos de centro e de esquerda. Todos foram pegos de surpresa pela gravidade da crise que vinha se anunciando desde o início do governo Bolsonaro, mas que ganhou intensidade nos últimos meses pelos desatinos destrutivos e declaratórios do presidente e de seu ministro Ricardo Salles. 

Bolsonaro e Salles foram os artífices do desmonte dos frágeis mecanismos de monitoramento, fiscalização e controle ambientais, tais como o Ibama, o ICMBio, o INPE etc. Além da destruição dessa estrutura ambiental, as declarações dos dois foram autorizativas para a derrubada da floresta e para os incêndios criminosos. Assim, a floresta se viu em meio a duas frentes de fogo: uma circunstancial, típica da época do ano, porém, agravada pela falta de ações de prevenção e controle; e, outra, criminosa, estimulada pelo presidente e pelo ministro e por outras autoridades governamentais. 

O Ministério Público se omitiu criminosa e covardemente em face do desastre que se anunciava e se construía. Os partidos de oposição e de esquerda, na sua costumeira dormência, sequer adotaram atitudes de denúncia antes que a crise internacional explodisse. Ressalvas sejam feitas a alguns parlamentares da Rede e do PSol, que vinham denunciando os desmandos do governo.

A crise ambiental mergulhou o Brasil na maior crise diplomática desde a Segunda Guerra Mundial. Nenhum partido de oposição e de esquerda se posicionou oficialmente sobre o assunto. O PSol apenas incluiu o tema do meio ambiente como uma prioridade do segundo semestre por força dos acontecimentos. O fato é que as esquerdas nunca entenderam a gravidade e a importância da questão ambiental e sempre trataram o assunto com descaso e negligência. Neste ponto faça-se justiça à Rede Sustentabilidade de Marina Silva que desde sua origem percebeu a dimensão estratégica que o tema tem no presente e no futuro, para a sociedade brasileira e para a humanidade. 

Nas reações contra os desatinos criminosos do governo Bolsonaro e da queima da floresta os partidos de esquerda foram a reboque das ações espontâneas de setores sociais, que convocaram manifestações e o panelaço. Trata-se de uma inversão completa de papeis: a função dos partidos seria a de dar direção e sentido aos movimentos e setores sociais. Mas aqui, tal como no tema da educação, os partidos são dirigidos pelas lutas espontâneas, pois são partidos sem força, sem vitalidade, sem estratégia, acomodados nas suas burocracias, nos seus cargos e nos seus gabinetes. 

Que o Brasil é um país sem futuro se sabe há bastante tempo. O sintoma mais grave dessa evidência é o fato de ter na presidência um homem moralmente degenerado, dotado de uma personalidade doentia, criminosa, delinquencial.  A contraface dessa figura mórbida é a ausência de lideranças, de propostas, de projetos e sequer de debate público relevante nas oposições. Nenhum partido tem projeto estratégico para a Amazônia – um projeto que desenvolva a região e que melhore a vida das pessoas que lá vivem preservando a floresta e a biodiversidade. 

A floresta Amazônica não é o pulmão do mundo. Mas ela tem um papel crucial para a absorção de CO2 (dióxido de carbono), fator importantíssimo para atenuar os efeitos do aquecimento global. A destruição da floresta provocará desastres ambientais em vários lugares do Brasil e da América do Sul, alterando, entre outros fatores, o regime das chuvas. O Sudeste poderá ter secas prolongadas, com o agravamento das crises hídricas num futuro próximo. A produção agrícola do país poderá sofrer graves crises em várias regiões.

O único projeto que existe para a Amazônia é aquele que provém da ditadura militar e que encontra ressonância forte no atual governo: projetos agropecuários, extrativismo por madeireiros, mineração, industrialização e grandes obras como usinas hidroelétricas. A Transamazônica e a Usina de Belo Monte, implementada no governo Dilma, são os símbolos do projeto de ocupação e desenvolvimento da Amazônia elaborado pelos generais da ditadura. É este projeto, que vai dizimando índios e ribeirinhos, que ainda povoa a cabeça de Bolsonaro, de Augusto Heleno, de Villas Boas e de outros militares. A necessidade de manutenção da floresta e de um projeto que explore suas potencialidades inerentes, nunca foi pensado. 

É evidente que existem fortes interesses estrangeiros nas imensas riquezas biológicas, minerais e hídricas da Amazônia. Mas, neste ponto, a esquerda não pode dar as mãos ao nacionalismo tosco da direita. Quanto mais a floresta for ameaçada, quanto menos o Brasil tiver capacidade de desenvolver a região de forma sustentável, mais as ameaças se farão sentir. A única forma de conter as ameaças consiste em desenvolver a região sem destruir a floresta, sem agredir a biodiversidade e sem poluir as águas.

A equação que explica a Amazônia hoje é que ela é brasileira e dos demais países que a abarcam, mas, ao mesmo tempo, ela é um bem da humanidade. A humanidade tem o direito de exigir que este bem seja preservado, pois é um bem planetário, um bem do futuro da vida e das espécies, incluindo a espécie humana. É esta consciência que se espalha hoje pelo mundo e pela sociedade brasileira e é por isso que o assunto tem alta sensibilidade social e alto potencial de mobilização. 

O Brasil pode e deve constituir um grande poder de barganha estratégica se for capaz de construir um projeto sustentável de desenvolvimento da Amazônia, preservando as florestas, os recursos hídricos e a biodiversidade, exercendo sua soberania em consonância com os interesses da humanidade. Para isto terá que ser mais eficaz do que vem sendo até agora e, tarefa difícil, terá que superar a disposição deliberadamente destrutiva do atual governo. 

Ao colaborar com a destruição da Amazônia, Bolsonaro e os que o secundam nessa empreitada se mostram falsos patriotas e vendilhões da soberania. Conter Bolsonaro e este grupo não será uma tarefa fácil. Vozes da sociedade começam a levantar a bandeira do impeachment. Trata-se de um processo traumático, como foi evidenciando com o golpe contra Dilma. Ademais, um impeachment sem a sociedade nas ruas não é uma saída. Mas parece que Bolsonaro quer chamar o impeachment sobre si. De qualquer forma não serão os tribunais quem vai conter Bolsonaro. Nem a pálida oposição que ele sofre no Congresso. Somente a sociedade nas ruas pode detê-lo. 

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