Fora dos eixos

De um lado, mostramos que não nos falta energia. Que nos arriscamos até em ir às ruas para protestar. Por outro lado, na própria vontade de dizer não, valorizamos um passado que não se deixou soterrar e ainda pode obcecar arremedos de dirigentes com a tenacidade necessária para que riam de nossas esperanças. Ainda estamos fora dos eixos, mas nos preparamos para não largar o leme



As manifestações do último dia 19, no Brasil, além de uma resposta à “motociata” de Bolsonaro (calculada em cerca de seis mil pessoas), transmitiram a impressão de uma grande festa cívica, disciplinada e organizada. As pessoas foram às ruas munidas de máscaras e álcool gel para se proteger contra a Covid-19 e sua presença assassina. No Rio de Janeiro, a multidão se fez acompanhar de um minuto de silêncio enquanto se ouvia a composição do italiano Nini Rosso, composta ao final da Segunda Guerra contra o sofrimento imposto ao povo pelos fascistas. Aqui, com o coronavírus, atingíamos a cifra de 500 mil óbitos, depois de uma sucessão de políticas equivocadas por parte do governo. Ninguém se equivoca mais quanto ao certo e ao errado com relação aos nossos dirigentes, adeptos da cloroquina, da “teoria do rebanho” e dos boicotes à vacinação que resultaram em delongas e contaminações de vítimas. 

As manifestações demonstraram o que até então só existia como carência: a reserva de energia para lutar politicamente e fazer face a uma nação que há muito saíra dos eixos com uma teia de propostas estapafúrdias. Andávamos disputando o primeiro lugar do atraso entre dirigentes retrógrados e direitistas, sem perspectivas de sair dessa, como se uma cortina de inação nos houvesse contaminado e nos houvesse roubado a respiração. Felizmente, a história da humanidade surpreende quando menos se espera. As desculpas para a expressiva derrota do governo, se compararmos as aglomerações de Norte a Sul, parecem ridículas. Nem merecem ser mencionadas. No centro do poder, os que ainda se expressam têm dificuldade de afinar a voz com algum discurso que funcione, se equiparado às antigas versões raivosas que um dia tomaram conta de algumas ruas de Copacabana e entusiasmam cada vez menos. Até os mais bem dispostos se cansam ao verificar que os estoques de paciência se esgotam ou se repetem sempre com as mesmas desculpas em seus posicionamentos, enquanto caminhamos para trás sem esperanças e sem propostas concretas para nos tirar do buraco. Como Donald Trump havia consumido as suas fórmulas mágicas antes de perder as eleições, cada vez soa mais evidente que a política das propostas em vigor se aproxima de seu esgotamento. Ofensas contra jornalistas e palavras de baixo calão cumpriram o papel de novidade da época em que os nossos dirigentes se esmeravam em usar comportamentos compatíveis com seus altos cargos. O linguajar da sujeira conservava um tom de irreverência que talvez admirasse alguns. Agora, além de um grupo de motoqueiros, que querem ainda exibir suas grosserias, interessam cada vez menos e não servem nem para conversas de botequim quando a língua se solta.

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Manifestações como as que ocorreram dia 19 alargam nossos leques de possibilidades, enquanto as revelações da CPI do Senado revelam cada vez mais os bastidores da situação e suas idiossincrasias. De um lado, mostramos que não nos falta energia. Que nos arriscamos até em ir às ruas para protestar. Por outro lado, na própria vontade de dizer não, valorizamos um passado que não se deixou soterrar e ainda pode obcecar arremedos de dirigentes com a tenacidade necessária para que riam de nossas esperanças. Ainda estamos fora dos eixos, mas nos preparamos para não largar o leme.

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