Forças Armadas modernas dependem de uma indústria produtiva vigorosa

Sem uma base industrial nacional potente, moderna, flexível, diversificada e com relevante capacidade de P&D, as Forças Armadas brasileiras jamais atingirão um padrão de relevância mundial. Por isso preocupa a acelerada desindustrialização do Brasil

Forças Armadas modernas dependem de uma indústria produtiva vigorosa
Forças Armadas modernas dependem de uma indústria produtiva vigorosa

Causam espanto as declarações de altas patentes militares brasileiros, quando se dizem nacionalistas, porém adeptos dos pressupostos neoliberais e privatistas. Estes oficiais, que estão ocupando altos postos no novo governo, não veem problemas na desindustrialização do país e na submissão à ordem unipolar inspirada pela geopolítica dos Estados Unidos, na qual cada país de sua esfera de influência deve se adaptar a uma especialização na economia global, controlada pelo sistema financeiro.

Ao Brasil é reservada a função de exportador de commodities primários biológicos e minerais, além dos carboidratos (petróleo e gás). Ou seja, comida e recursos naturais.

Isso significa deixar em segundo plano a indústria nacional, que cresceu desde Getúlio Vargas, até se tornar uma das mais potentes, diversificadas e modernas do planeta.  

Desde Temer, o Brasil vem passando por um acelerado processo de desindustrialização e tudo indica que na próxima esquina já está a postos um violento esquema de privatização, que inclui a desnacionalização de diversas indústrias. A corrosão acelerada do mercado interno já impõe uma enorme capacidade ociosa para o parque fabril e muitas empresas avaliam retirar do país suas plantas produtivas, ou desistem de novos investimentos. 

Um exemplo é o abandono da nova siderúrgica que a CSN pretendia instalar em Minas Gerais, para a produção de tubos de aço para a cadeia produtiva, que seria gerada pelo pré-sal. Com o empreendimento quase pronto, depois de investir bilhões, a empresa abandonou o projeto, que seria localizado nas proximidades das imensas jazidas de minério de ferro, situadas no coração de Minas Gerais.

Este cenário de desindustrialização é estranhamente aceito com naturalidade pelos militares brasileiros. Isso é surpreendente porque é de se supor que a formação dos oficiais brasileiros seja de alto nível. 

Se esta suposição for verdadeira, eles provavelmente aprendem que as guerras modernas entre países desenvolvidos ou em desenvolvimento são empreendimentos industriais. Sem contar uma base industrial nacional potente, moderna e diversificada, não há forças armadas de de primeira linha em lugar algum do planeta.

Esta constatação vem dos estudos feitos sobre as Primeira e Segunda guerras mundiais e a Guerra Fria.

O EXEMPLO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Segundo o historiador e economista britânico Adam Tooze, que deu aulas em Cambridge e hoje leciona na Universidade de Columbia, a Alemanha já entrou na Segunda Guerra Mundial praticamente derrotada. Ele expõe sua tese no livro "O preço da destruição", no qual demonstra, através de um extenso estudo dos dados econômicos comparativos, que a economia industrial germânica era mais fraca do que a de seus principais adversários. Segundo Tooze, as projeções indicavam que a vantagem favorável aos aliados tendia a aumentar com o tempo, o que de fato ocorreu.

As primeiras vitórias dos exércitos nazistas ocorreram em função de um superior treinamento, maior disponibilidade de equipamentos modernos no início do conflito e de táticas revolucionárias, que vieram a ser conhecidas como a Blitzkrieg. Curiosamente os alemães aprenderam essas táticas com o Exército Vermelho, no período entre guerras, quando a República de Weimar estabeleceu um acordo com os soviéticos, para treinar seus exércitos e testar novos equipamentos no território russo, para burlar o Tratado de Versalhes. Lá conheceram os princípios das Operações em Profundidade, concebidas pelo Marechal Tucatchevski. Mas isto é assunto para um outro texto.

Desde a Primeira Grande Guerra, o conflito entre potências do mesmo nível tende a ser longo (exceto no caso de uma guerra nuclear, que pode ser resolvida em poucos minutos).

Foi o que ocorreu na Segunda Guerra. A Alemanha derrotou a França, que estranhamente se rendeu, quando ainda possuía enorme potencial para prosseguir lutando (o grande historiador francês, Marc Bloch, que lutou como oficial no conflito, defende essa ideia no último livro que escreveu: "A estranha derrota").

De qualquer forma, derrotada a França, não foi possível obter a rendição do Reino Unido, que colocou sua indústria funcionando a pleno vapor, contando com a ajuda do Império e da Comunidade Britânica, além de uma aliança informal com os Estados Unidos. 

A essa altura do conflito, em 1940 e 1941, o cenário já era bastante desfavorável à Alemanha, que passou a depender de fornecimentos da União Soviética, nos termos do Pacto Molotov–Ribbentrop, para manter sua indústria em funcionamento.

O Reino Unido se fortalecia e aumentava a sua produção, enquanto os níveis da indústria alemã se mantinham estáveis.

O ataque contra a União Soviética foi um suicídio, desde o início. 

A única possibilidade de vitória seria infligir uma derrota contundente e rápida ao exército vermelho, logo nos primeiros meses da guerra. O Estado Maior alemão esperava a conclusão da operação antes do começo do inverno, tanto que não previu o uso de uniformes e equipamentos para o clima frio.

Como a história registra, tal expectativa não se cumpriu. Diferente do que o senso comum imagina, os historiadores de assuntos militares determinam que a derrota germânica ocorreu na batalha de Moscou, no primeiro ano do conflito; e não no corrosivo embate de Stalingrado. 

A derrota dos exércitos comandados pelo general von Bock, há poucos quilômetros da capital russa fez com que a guerra prosseguisse e, então, o peso da indústria passou a contar.

Em todos os fronts, os exércitos germânicos passaram a ser esmagados pelos números dos adversários. 

No Norte da África, começaram a proliferar os sofríveis Shermans vindos das oficinas norte-americanas. Cada Panzer 4 ou os primeiros Panteras eram capazes de abater quatro ou cinco tanques adversários. Porém a indústria dos Estados Unidos conseguia colocar 10 ou 12 Shermans, para cada tanque alemão. O mesmo ocorria na frente oriental, a partir da segunda metade de 1942. Os russos lançaram enormes quantidades do magnífico blindado T 34. Eles eram superiores a qualquer equipamento alemão, porém suas tripulações careciam de treinamento naquele período do conflito. Assim os alemães podiam abater três ou quatro tanques inimigos. Mas os soviéticos colocavam na batalha mais de 10 veículos, para cada carro de combate germânico.

No ar era registrado o mesmo padrão. As aeronaves britânicas, norte-americanas e russas que iniciaram o conflito, como o P 40, eram inferiores tecnicamente, comparadas com as alemãs. Mas foram construídos em quantidades muito superiores e, no decorrer do conflito, melhoraram a performance de seus projetos, que continuaram saindo das fábricas aliadas em quantidades imensas. A indústria germânica nunca conseguiu acompanhar essa escalada dos números.

Portanto, o que definiu o resultado na Segunda Guerra foi a indústria dos países beligerantes.

O mesmo ocorreu na Guerra Fria. O conflito entre os impérios dos EUA e da União Soviética foi decidido sem que as forças armadas dos dois países disparassem um único tiro. O que houve foi a incapacidade da economia soviética de manter um esforço industrial, capaz de acompanhar a produção norte-americana na década de 1980. 

DIFERENÇA ENTRE PAÍSES E PROTETORADOS

Nenhuma força armada moderna possui capacidade de enfrentar os conflitos da atualidade, de forma independente, sem contar com uma retaguarda industrial. Isso pode até ocorrer com pequenos países, que são na prática protetorados de potências maiores. É o caso de Israel, país que é totalmente dependente de fornecimento de equipamentos dos Estados Unidos e, em menor escala, da Alemanha e França. Para manter os exemplos na mesma região, a Síria também se rendeu a uma situação de protetorado da Rússia.

Outros países, como a Venezuela e os demais latino-americanos, além dos africanos, com exceção da África do Sul, possuem uma base industrial muito atrasada e são obrigados a entrar na esfera de influência das grandes potencias.  

Por outro lado, há países, que mesmo mantendo boas relações com as potências hegemônicas, preferem ser senhores dos seus destinos e escolhem fincar as bases da soberania. Neste último grupo estão: Suécia, França, Alemanha, China, Índia, Turquia, Coréia do Sul, Japão, Rússia, Índia e Irã.

Os países que prezam sua soberania, mesmo quando compram equipamentos no estrangeiro, se esforçam para manter um parque industrial moderno e diversificado, capaz de produzir armamento no estado da arte, e que pode ser rapidamente girado para a produção bélica, como ocorreu nos EUA, na Segunda Guerra Mundial. Na época, fábricas de automóveis, passaram a produzir tanques, empreiteiras fabricaram navios e indústrias de eletrodomésticos passaram a se dedicar aos mais diferentes produtos.

O exemplo dos EUA na Segunda Guerra, ensina que não basta ter uma indústria de defesa. Isso a Alemanha tinha e não bastou. A força está no tamanho da indústria, sua flexibilidade, modernidade e diversificação.

Que tipo de país os militares brasileiros preferem?

 

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