França: impressões e consequências de seu 1º de maio

Em Paris, nem a estratégia do caos implementada pelo governo arrogante do presidente dos ricos conseguiu neutralizar uma nova confluência que pode ser o ponto chave para que as reivindicações populares vençam a má vontade "Macroniana" relativa à sociedade francesa

França: impressões e consequências de seu 1º de maio
França: impressões e consequências de seu 1º de maio (Foto: REUTERS/Vincent Kessler)

Em Paris, nem a estratégia do caos implementada pelo governo arrogante do presidente dos ricos conseguiu neutralizar uma nova confluência que pode ser o ponto chave para que as reivindicações populares vençam a má vontade "Macroniana" relativa à sociedade francesa.

Como bem evidenciou o jornal L'Humanité, através de preciso artigo publicado um dia depois das manifestações, este primeiro de maio francês restará nos anais, não somente por causa dos graves incidentes entre a polícia e os Black Blocks em Paris, mas também – e o mais importante - por conta da união inédita entre os Coletes Amarelos e diversos sindicatos de importância nacional (CGT, FO, Solidaires, FSU, Unef e UNL) em todas as 240 manifestações que aconteceram pelo país.

O receio deste que vos escreve em relação à cooptação, pela extrema direita de Le Pen, deste movimento que parece infatigável, começa a esvanecer. De suma importância a união das organizações de esquerda, incarnadas pelos sindicatos, com os Gilets Jaunes. Para a boa ventura dos tempos futuros, é preciso lutar para a manutenção desta concórdia. O mundo não precisa de uma cópia igualmente perigosa do que foram as consequências da jornada de junho de 2013 no Brasil.Sabemos onde isso desembocou. Vemos o monstro tupiniquim à solta e à espreita.

Pois bem, apesar de um efetivo policial desproporcional e da proibição do direito de manifestar imprimido em certas cidades, não há relatos de violência nos cortejos realizados na província, ou seja, fora do perímetro parisiense; o clima foi festivo, de confraria. Crianças, aposentados, estudantes, coletes amarelos, sindicalistas, anarquistas, comunistas. Todos juntos.

Voltemos a Paris: "a polícia atacou a CGT!", afirmou categoricamente o secretário nacional da Confederação Geral do Trabalho. O que parece ter explodido os nervos autoritários da tropa de choque parisiense foi a quebra de protocolo dos Coletes Amarelos quanto à hora de início da manifestação. Os Gilets Jaunes, sem esperar o momento acordado, tomaram a frente do cortejo e iniciaram o desfile uma hora antes do horário previsto pelas forças intersindicais, deixando atrás deles os outros manifestantes (80000 pessoas segundo a CGT).

A tropa de choque, então, tentou separar o cortejo, lançando, sem qualquer discernimento, uma chuva de gás lacrimogênio. Os manifestantes tiveram que recuar, criando surtos de pânico numa multidão densa. Vale lembrar que as ruas adjacentes tinham sido bloqueadas por outros policiais. As lojas e restaurantes, aliás, a mando da prefeitura de Paris, não puderam servir de refúgio, já que estavam fechados ao longo de todo o percurso.

Sindicalistas, manifestantes defensores do clima, coletes amarelos e todas estas vozes contestadoras se juntaram para denunciar quase unanimemente a instrumentalização, pelo governo, dois dias antes do primeiro de maio, de anúncios radicais publicados nas redes sociais, os quais evocavam a ameaça de um "1º de maio negro" ou a transformação de Paris em "capital do motim". O ministro do Interior não parou de anunciar a chegada de "mil a dois mil ativistas radicais" para a manifestação na capital, e prometeu "enorme vigilância", inventando o conceito de "Ultra Amarelos" a fim de assimilar Coletes Amarelos e extremistas de esquerda.

Nesse sentido, o efetivo policial implementado em Paris foi assustador: 7400 policiais. Em relação ao ano passado, esse número é maior em cinco vezes. Por volta das 15 horas, 148 pessoas já tinham sido detidas. "Os que tentaram nos roubar este primeiro de maio não foram nem os Coletes Amarelos nem os que são chamados de radicais, mas sim o governo, empregando essa repressão policial louca", denunciou o porta-voz do sindicato Solidaires, Éric Beynel.

O que se sente e se anuncia, após esta última quarta-feira – já considerada histórica -, é a junção dos grupos contestadores do governo burguês de Macron, ainda que de maneira um pouco desconfiada de uns para com os outros. De qualquer forma, os diálogos de antes, de durante e os subsequentes às manifestações mostram que o processo de união das lutas e dos movimentos progressistas franceses são um novo capítulo neste cenário de acirrada disputa pelo domínio do discurso político de la République.

Eu andava sentido e sentindo, paulatinamente, os ventos fascistas do que sobrou das manifestações brasileiras de 2013 soprarem no hexágono. O que se sente da consequência do dia do trabalhador, porém, pelo menos neste instante, é que o neoliberal do banco Rothschild, Monsieur Emmanuel Macron, percebe suas estruturas burguesas, sustentadas por pilares de arrogância e desprezo para com seu povo, abaladas pelos ventos de um tempo de progresso ensolarado. O verão está chegando na França, e aqui já se vive a primavera.

 

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