Frateschi: “violência mostra que governadores não respeitam o povo”

Atingido por uma pedrada que esmagou o lóbulo da orelha esquerda, Paulo Frateschi, coordenador da caravana de Lula, diz em entrevista ao 247 que "durante a ditadura de 64 você tinha a ação direta dos militares, que a elite civil apoiava de longe. Agora, a elite age na rua, com ajuda de empregados, como o peão da fazenda, o motorista de trator, o segurança de uma empresa privada, para nos agredir". Ele define os agressores como "milicianos, que procuram se impor pela violência". Afirma que nesta região do pais "não tem PSDB nem MDB. Tem Bolsonaro". Lembrando que as caravanas tornaram-se eventos políticos importantes, conta que "vários governadores fazem questão de receber a comitiva que tem um ex-presidente da República, senadores, deputados e prefeitos. No Sul, nenhum nos recebeu"

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frateschi (Foto: Paulo Moreira Leite)

Quarenta anos depois que Paulo Frateschi construiu uma liderança importante entre professores da rede pública de São Paulo, no esforço de uma geração que enfrentou cassetadas e bombas da Polícia Militar para afirmar direitos e vontade de liberdade contra a ditadura dos generais, sabemos que o Brasil mudou e ele também.

Aos 68 anos, coordenador da caravana de Lula nos Estados do Sul, na noite de sábado, 24, Frateschi se encontrava no centro de Chapecó, a 545 quilometros de Florianópolis, na saída do hotel onde o ex-presidente se hospedara. Procurando localizar-se no inferno de violência, covardia e omissão policial que acompanha a caravana desde o início, Frateschi ora acompanhava os movimentos do automóvel de Lula deixando a garagem,  ora vigiava o que acontecia na rua, aonde percebeu uma sequência estranha.

Primeiro, os policiais que faziam a segurança do lugar, e pareciam escalados  para cumprir o deve de evitar atos agressivos e ameaças já previsíveis, simplesmente sumiram.  "Evadiram-se", diria Frateschi, mais tarde, para empregar o vocabulário em geral usado pela própria política para descrever  criminosos que fogem do local de um crime para não provocar suspeitas.

Em seguida, na área em frente a garagem do hotel que ficou liberada, um cidadão que empunhava uma pedra retirada do batente de uma janela avançou em direção ao carro do presidente. Num reflexo,  Frateschi avançou sobre ele, segurando seu braço, para impedir que a pedra fosse arremessada.

Em vez disso, a pedra atingiu sua orelha esquerda, esmagando o lóbulo e abrindo uma ferida que o levou para uma cirurgia de duas horas, deixando a orelha com "tantos pontos como se fosse uma colcha de crochê", diz.

"Eu achei que a pedra podia atingir o Lula", diz Frateschi.

Expressão de uma violência inaceitável que foi um dos traços particulares da caravana nos Estados do Sul, o ato criminoso mereceu um repúdio magistral por parte do ator e militante Celso Franteschi, irmão de Paulo, que no dia seguinte divulgou uma mensagem pelas redes sociais na qual apontava o ataque a Lula e prestava solidariedade ao irmão. Escreveu: "Nos dois últimos anos tivemos um líder morto por semana em nosso país. Querem a morte de nosso líder maior. Minha resposta são os versos de Maiakovski: Come ananás/Arrota perdiz/Teu fim está próximo, burguês. Um beijo". 

Para Frateschi, "o apoio a Lula da maioria da população do Sul ficou claro na caravana, confirmando sua condição de líder nas pesquisas também nesta região do país." Essa postura da maioria é coerente com o fato de que o  PT já assumiu o governo gaúcho em duas ocasiões e teve passagens marcantes pela prefeitura de Porto Alegre e outras cidades. Paulistano de nascimento, Paulo Frateschi resolveu homenagear a população gaúcha com uma foto que você pode ver nesta página -- com uma cuia de chimarrão. 

"Estamos falando de uma ação de minorias agressivas e bem organizadas", diz Frateschi.  Os atos de violência costumam reunir em torno de uma ou duas dezenas de pessoas. Exemplo estatístico. Chapecó, cidade da pedrada, tem 213 000 habitantes. O protesto reunia perto de 150 -- e foi um dos maiores da viagem.

Este comportamento que o Brasil inteiro já aprendeu a identificar como fascista -- e que não era visto nem em 1955,   quando o integralista Plínio Salgado concorreu a presidência da República -- tem uma natureza particular.  

     Antigo militante da Ação Nacional Libertadora, a organização armada fundada por Carlos Marighella, ele faz uma comparação entre as décadas anos que separam dois momentos históricos:

"Durante a ditadura, você tinha uma ação direta dos militares. A elite civil apoiava, mas de longe. Agora, nós temos o velho caldo de cultura do fascismo: uma elite capenga, agentes do Estado e a escória social", diz.

Ele recorda que no fim do regime militar, o extremo do Rio Grande do Sul -- onde as agressões contra a caravana tiveram início e deram o tom para o que veio depois --  foi um dos berços duros e mais violentos da União Democrática Ruralista (UDR), organização que armava fazendeiros e encurralou a Constituinte de 1988, bloqueando os projetos mais ambiciosos de reforma agrária. Após um longo recesso, seus remanescentes gaúchos voltaram as ruas para apoiar o impeachment que afastou Dilma sem crime de responsabilidade -- e não aceitam o retorno de Lula, seja como for.

Frateschi descreve: "a elite está na rua, agindo. E quando não são pessoas da elite, são empregados, como o peão de cavalos da fazenda, o motorista do trator, o funcionário musculoso da academia de ginástica. Ainda se mobilizam agentes penitenciários e funcionários de empresas de segurança e policiais a paisana. Todas são pessoas com vínculos diretos com gente da elite, que lhes dá emprego e pode abrir caminhos na vida".

Ele revela que tem encontrado adolescentes em movimentos agressivos, de pedra na mão. "Doi no coração," diz. "Eles nem tem idade para saber como era o país antes do Lula chegar ao governo. Não podem saber o que mudou". 

Referindo-se a imagem vergonhosa de um estudante sendo chicoteado em Santa Maria, Frateschi registra: "o normal seria que esse comportamento fosse criticado, mesmo por nossos adversários. É um tratamento indigno. Mas não. Foi elogiado por uma senadora, a Ana Amélia. Não sei o que uma pessoa dessas, uma parlamentar, quer da vida. Nos atos seguintes, quando se aproximavam de nós, em outras cidades, muitas pessoas  traziam um chicote dobrado e faziam questão de mostrar, como uma ameaça."

Quando perguntei a Frateschi como se pode designar esse comportamento ele define: "são milicianos. Mesmo quando não estão armados, se impõem pela violência", acrescenta, numa referência a grupos militarizados que impõem o terror nas regiões pobres do Rio de Janeiro.

Há uma questão essencial para responder. A Constituição diz em seu artigo 5 XVI que  "todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização". Isso quer dizer que ninguém pode impedir as caravanas e os comícios de Lula, que os governos estaduais tem o dever constitucional de proteger.

Seria fácil enfrentá-los de as autoridades responsáveis pelo cumprimento das leis em vigor tivessem disposição real para cumprir seu papel.

Membro da coordenação das caravanas não apenas do Sul, mas também do Nordeste, Minas e Sudeste, Frateschi registra um tratamento diferenciado no Sul. "Reunindo um ex-presidente da Republica, senadores, governadores e políticos locais importantes, uma caravana é um evento político em todos os lugares por onde passa. Com frequência, somos recebidos por governadores, que fazem questão de nos ouvir para garantir um tratamento adequado," diz. "No Sul, nenhum governador nos recebeu".

Na verdade, esse era só o primeiro sinal de outro tratamento, que ficaria claro na decisão de fechar os olhos para as agressões. "Quando não pareciam agir de forma combinada, fechavam os olhos e até tentavam justificar sua passividade".

Sempre que, no calor da hora, solicitava-se um reforço na segurança, os coordenadores da caravana ouviam das autoridades policiais uma explicação esdrúxula, segundo a qual os adversários também tinham o direito de fazer seu protesto -- e deveriam ser tão respeitados em seus direitos quanto os aliados de Lula. Na verdade, a legislação diz outra coisa. De um lado, permite que as manifestações ocorram sem que seja preciso pedir autorização. De outro, determina que duas manifestações não devem ocorrer no mesmo lugar, no mesmo dia e hora -- exatamente para evitar conflitos -- cabendo ao Estado a organização de datas e locais para evitar choques entre forças contrárias.    

"Os governadores do Sul estão falidos: administram estados quebrados, não tem  apoio popular nem autoridade", diz Frateschi. "Parecem acreditar que nada têm a fazer para mudar a situação e preferem não encarar a realidade com medo de novos problemas. Estão politicamente perdidos e perderam todo respeito pela população de seus Estados."

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