Garantia da paz é efeito da paridade, não do desarmamento

É muito conveniente para os neoconservadores norte-americanos desarmar os outros países enquanto entopem de bombas nucleares e de hidrogênio seus arsenais estratégicos, que a qualquer momento podem ser usados contra países não nuclearizados

É muito conveniente para os neoconservadores norte-americanos desarmar os outros países enquanto entopem de bombas nucleares e de hidrogênio seus arsenais estratégicos, que a qualquer momento podem ser usados contra países não nuclearizados
É muito conveniente para os neoconservadores norte-americanos desarmar os outros países enquanto entopem de bombas nucleares e de hidrogênio seus arsenais estratégicos, que a qualquer momento podem ser usados contra países não nuclearizados (Foto: Jose Carlos de Assis)
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Os neoconservadores norte-americanos, embora privados recentemente de seu principal formulador belicista, Zbigniew Brzezinski, devem estar se divertindo com a assinatura do tratado para banir armas nucleares anunciado ontem. É um compromisso juramentado de centenas de países, inclusive o Brasil de Temer, que partilham entre si uma única característica comum, a saber, não ter armas nucleares nem intenção aparente de fabricá-las.

É muito conveniente para os neoconservadores norte-americanos desarmar os outros países enquanto entopem de bombas nucleares e de hidrogênio seus arsenais estratégicos, que a qualquer momento podem ser usados contra países não nuclearizados. Em face do tratado assinado ontem, não houve sequer um gesto simbólico dos Estados Unidos de se comprometerem a não usar armas atômicas contra países que não as tem.

Não fosse o arsenal da Rússia e da China, o mundo estaria escravizado de forma absoluta pelos norte-americanos. Verificou-se, no reinado de Hillary Clinton, a ampla difusão da chamada primavera árabe pela África e Oriente Médio, impulsionada por ONGs estimuladas pelo Departamento de Estado. A Síria teria o mesmo destino da Líbia, dividida entre centenas de milícias, não fora a intervenção da Rússia, uma superpotência nuclear, em favor de Assad.

Paradoxalmente, a única situação em quem o armamento nuclear é nocivo ocorre quando é a expressão de um poder unilateral. Por exemplo, quando do lançamento da bomba em Hiroshima e Nagasaki, com o Japão não podendo reagir na mesma moeda. Ali houve alguma justificativa pois as Forças Armadas japonesas se recusavam terminantemente a capitular. Desde então, graças ao cavaleiro Stalin, não houve guerra entre as superpotências.

Um aspecto particular do poder atômico é que ele é basicamente qualitativo. Ter uma bomba ou cinco, ter cinco bombas ou cinqüenta, ter 8 mil como parece ter os Estados Unidos tem uma efeito dissuasório semelhante. Daí o incômodo provocado pela Coréia do Norte: quantas bombas, quantos foguetes tem? Na dúvida seria melhor negociar. Mas Donald Trump certamente procurará seguir a linha dos neoconservadores, querendo o impossível – a saber, a destruição da Coréia do Norte sem retaliação chinesa ou russa.

A paridade atômica qualitativa é a única situação que permite ao mundo respirar, livre dos tentáculos de poder econômico, financeiro, e político norte-americana, sob seu guarda chuva nuclear. Não é uma questão de teoria, mas de realpolitik. Muitos dos eventos de grande risco para a humanidade ocorridos ao longo do século XX se resolveram sem guerras, graças à paridade nuclear das forças oponentes.

Sem armas nucleares do lado russo, os Estados Unidos teriam bombardeado e destruído Cuba no início dos 60 e entrado em guerra contra Moscou;

Sem armas nucleares do lado russo e sem o apoio chinês, os Estados Unidos teriam destruído a Coréia do Norte no início dos 50;

Sem armas nucleares do lado russo, os Estados Unidos teriam invadido e subjugado o Vietnã do Norte;

Sem armas nucleares dos dois lados, Índia e Paquistão já teriam ido para sua quarta guerra de fronteiras;

Sem arma nuclear, Israel poderia ser submetido a uma quarta guerra com os árabes, o que, infelizmente, lhe dá o monopólio do poder na região ao ponto de pressionar ferozmente os Estados Unidos para romper o acordo nuclear com o Irã.

Diante desse quadro, é mais justo do ponto de vista político ampliar o espectro de países nuclearizados do que fazer um tratado de banimento que só serve para quem não tem a arma. Ademais, diante da hipótese remota de banimento total das armas nucleares, o que seria feito das outras armas? Acaso são menos catastróficas as armas eletrônicas, químicas, sônicas, as grandes esquadrilhas de supersônicos, os submarinos nucleares, os grandes porta-aviões, hoje felizmente equilibrados entre Estados Unidos, Rússia e China? O dirigente de Pyongyang, que se revela um louco com suas bravatas, seria mais louco que Trump, com as suas?

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