Denise Assis avatar

Denise Assis

Jornalista e mestra em Comunicação pela UFJF. Trabalhou nos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" , "Imaculada" e "Claudio Guerra: Matar e Queimar".

954 artigos

HOME > blog

General Villas Bôas relança livro sobre Amazônia em ano eleitoral

Colunista Denise Assis associa o novo lançamento de Villas Bôas a antigos episódios de articulação militar contra Dilma, Lula e o STF

Livro do general Villas B (Foto: Reprodução)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

“Preencha esse formulário para confirmar sua presença no evento de lançamento do livro “Coração da Selva: Memórias de uma vida na Amazônia”.

O enunciado encabeça o convite para a noite de autógrafos daquele que pode ser o derradeiro livro de “memórias” do general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, a ser lançado amanhã (09/06), na livraria do Congresso Nacional.

Incapacitado, preso a uma cadeira de rodas e mais outros equipamentos necessários ao seu deslocamento, devido à evolução da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), o convite faz constar que a escrita de mais essa fase de sua vida – em 2021 ele lançou um depoimento feito ao acadêmico Celso de Castro, da FGV, “Conversas com o Comandante” -, foi redigida com movimento dos olhos.

Naquele, o general tratou de suas motivações para conspirar a favor do golpe contra a ex-presidente Dilma Rousseff e comenta também sobre o tuíte (postado no Twitter, hoje X), que disparou contra a concessão de um habeas corpus a favor de Luiz Inácio Lula da Silva, então preso numa sala especial na Polícia Federal, em Curitiba.

Villas Bôas escolheu, tanto para o livro de memórias quanto para o atual, “sobre a Amazônia”, coincidentemente, períodos de clima eleitoral. Talvez uma forma dos militares (que andam corretamente afastados em seus quartéis), se meterem nas discussões políticas. E, em seu caso, conspiratórias, sempre. Villas Bôas não dá ponto sem nó, como dizem os antigos.

Em setembro de 2025, o site Sainamídia.com.br, registrava em sua página: “General Villas Bôas publica livro sobre a Amazônia em meio a debates políticos – 18/09/2025 – Painel”.

A julgar pela sinopse que seguia a manchete de 2025, trata-se do mesmo livro, posto à venda lá atrás, discretamente. O texto da época diz: “O ex-comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, lançou um livro sobre a Amazônia, onde compartilha suas vivências como militar na região e defende o seu desenvolvimento”.

Não são apenas inocentes reminiscências. O conteúdo promete “trazer uma visão pessoal e crítica sobre a atuação de ONGs estrangeiras e a militância ambientalista, que, segundo Villas Bôas, atrapalham o crescimento dos estados amazônicos.”. 

Tido como “grande estrategista” nas fileiras militares, é bem provável que o general esteja apenas requentando o mesmo livro, para “causar”, em ano de eleição. Como sabemos, militares de sua natureza – conspiratória -, não sossegam, e dentro de tudo o que já está movimentado no cenário deste ano, nada como dar uma chacoalhada nos quartéis, para esquentar ainda mais o ambiente político. Observem que o convite chama para a “Livraria do Senado – Congresso Nacional”, às 18h30, em traje “esporte fino”. É cerimônia para atrair a atenção.

Lá em “Conversas com o Comandante”, o de 2021, ele fala de forma desabrida de como trabalhou para a queda da presidente Dilma e revela os bastidores do seu famoso “tuíte”, com a ajuda – e, portanto, com a anuência de todo o Alto Comando -, para coagir o Supremo Tribunal Federal (STF), a fim de não permitir que Lula fosse libertado. No texto de apresentação de “Coração da Selva: Memórias de uma vida na Amazônia”, a ser lançado amanhã, volta a provocar:

“Este momento também simboliza a força da família diante das adversidades. Ao lado de sua esposa, Dona Cida, e de seus três filhos, o General Villas Bôas viveu cada etapa dessa jornada cercado de amor, cuidado e união — transformando desafios em legado, memória e exemplo de coragem”.

De que “adversidades” fala o general, de forma ambígua, em ano eleitoral? E destaca que o faz “Ao lado de Cida”. Para os esquecidos, Cida foi motivo do deslocamento de blindados na noite de 8 de janeiro, sob ordens do general Júlio César de Arruda, ex-comandante do Exército (entre 30 de dezembro de 2022), a fim de permitir que ela fugisse, na calada da noite, do acampamento de onde partiram os golpistas para depredar os palácios. Tanta harmonia e conjunção de ideias em um casal chega a ser enternecedor.

O que chama a atenção é o fato de em 2023 o comandante da Força, Marcos Freire Gomes, que chegou a frequentar cinco reuniões para a discussão da “minuta do golpe”, tenha recuado ante o aviso estadunidense de que Biden não daria sustentação ao “rebento” nascido da conspiração liderada por Bolsonaro. Desta vez, eles saem do silêncio obsequioso mantido até então, justamente depois de os Estados Unidos decretarem um tarifaço e classificar o CV e o PCC como “narcoterroristas”. 

Estaríamos vendo pelo em ovo? Talvez, mas é interessante observar o quão incansáveis são esses senhores “empijamados”, em busca do golpe perdido...

Há quem goste de jogo de sinuca, outros jogam xadrez, ou dama. Esses, têm como esporte preferido a conspiração, a movimentação fora de hora, os ajuntamentos provocadores. Parecem aqueles tios que amedrontam os sobrinhos, nas férias, com fantasmas de lençol e, nas próximas férias, sem se darem conta de que os meninos cresceram, tentam o mesmo truque, caindo no ridículo.

Francamente, general. Requentar lançamento de livro para balançar o pé de golpistas novamente é tão gasto quanto a cena acima. Vá cuidar da sua saúde, que é o melhor que o senhor faz.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados