Geografia humana e Covid-19

O coronavírus no Brasil escancarou diversos problemas sociais e déficits de infraestrutura, a exemplo das condições de precariedade de espaços e territórios, fato que a geografia de Milton Santos – ainda hoje – pode nos ajudar a refletir um possível planejamento territorial no que diz respeito ao sistema de saúde

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Ano de 1994, França. Época em que o geógrafo Milton Santos foi laureado com o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud – espécie de Nobel dessa ciência. Foi professor emérito da Universidade de São Paulo, USP, e se dedicou aos estudos de urbanização do Terceiro Mundo. Sua produção acadêmica não permitia modéstia, pois chegou a marca de 40 livros, com 13 títulos de doutor honoris causa, mundo afora. No período da ditadura brasileira, pagou o preço pela inteligência rara, pela originalidade de seu pensamento e independência intelectual.

Quem transita pelo centro de uma metrópole brasileira entende porque o geógrafo é uma sólida referência no (re)pensar o conceito de território e espaço. Milton Santos introduziu importantes discussões na geografia, voltadas ao aspecto humano e a questões urbanas. 

Alertou-nos, em sua teoria espacial, sobre a tecnificação do território e a organização do espaço. Se em geografia o conceito de território leva em conta seu uso, para além da base física, também existem expedientes impostos pelo homem (modernização tecnológica), o que permite analisar a cidade não como um todo maciço, mas sim um organismo cindido em dois circuitos econômicos. Esses ângulos, conjeturados por Milton Santos, possibilita analisar dois mundos em um só, sendo que o território que é desprovido do peso da tecnologia, serve principalmente à população pobre.

Passo ao contexto da doença infecciona cuja denominação – Covid-19 –, agudizou contradições no Brasil, país que que chegou ao obsceno patamar de mil mortes por dia, quadro, que, com algumas exceções, vem se mantendo desde meados de maio a julho. 

A enfermidade viral pesou em dobro sobre os brasileiros mais pobres, não só pela desaceleração da economia, mas também porque a população de baixa renda ficou mais exposta ao vírus no transporte público e em casas com muitos moradores, o que dificultou a prevenção da Covi-19. E aí as cogitações de “lockdown” voltadas a cercar bairros periféricos ou favelas com alto índice de transmissão do vírus, jamais condomínios de alto padrão.

Em texto intitulado “Nada disso é normal”, publicado pelo TAB – projeto editorial interativo do UOL (aqui) –, que reuniu pessoas muito variadas dentro das ciências humanas para refletir a crise da Covid-19, o cientista político Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UnB), destacou que a pandemia agudizou as contradições do capitalismo e tornou “mais difícil ignorá-las”. Outro, o sociólogo Jessé Souza, autor de “A classe média no espelho”, apontou que “no Brasil, o grande problema é que nossa sociedade ‘naturalizou’ a desigualdade”.
Nesse deslinde, para o sociólogo Ricardo Antunes, professor titular de sociologia do trabalho da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a questão é que a pandemia refletiu “como as classes trabalhadoras são historicamente afetadas nas periferias, nas favelas e nos bolsões de pobreza” (aqui).
Enquanto a pandemia se espalhava a passo rápido numa realidade de abissal desigualdade das condições de vida de tantos brasileiros, celebridades tentavam mostrar que eram gente comum nas redes sociais, mas só escancaravam ainda mais o contraste entre a abundância e a miséria, como mostrou artigo da Folha de S. Paulo – Caderno Ilustríssima (aqui).

E como quarentena é basicamente “coisa de rico”, como se diz na linguagem comum, o que se viu foram algumas celebridades correndo para o perfil do Instagram a fim de dar dicas para sair do tédio, ora fazendo máscaras faciais, ora fazendo pipocas fitness ou ensinando a organizar o closet em um único dia (!). 

E nesse cenário de contrastes entre classes altas, médias e baixas, enquanto uns cuidavam da pele e reclamavam do tédio durante a quarentena, outros milhares de trabalhadores informais angustiavam-se em busca de sobrevivência, esperando o auxílio emergencial de R$600 do governo.

Se o mundo a que voltaremos, depois de superado o coronavírus, será o de antes, não dá para saber, muito menos se vai ser melhor. Arrisco dizer que vai piorar, infelizmente! É preciso muita luta para projetar avanços. O coronavírus no Brasil escancarou diversos problemas sociais e déficits de infraestrutura, a exemplo das condições de precariedade de espaços e territórios, fato que a geografia de Milton Santos – ainda hoje – pode nos ajudar a refletir um possível planejamento territorial no que diz respeito ao sistema de saúde.

É que, no pós-pandemia, teremos que enfrentar a dura discussão da importância de políticas públicas e o respeito que se deve ter ao Sistema Único de Saúde (SUS), ambicioso projeto criado pela Constituição de 1988, e que dependem dele 75% dos brasileiros, aproximadamente três quartos da população, cerca de 150 milhões de pessoas, e que teve a responsabilidade de atender à imensa maioria das vítimas do vírus. 

Vê-se, pois, que a necessidade de haver sociedades mais igualitárias como forma de que todos tenham comida, proteção social e saúde como direitos da população, ainda é um tema que não mais está à beira do lugar-comum. 

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