George Floyd, neofascismo, Covid-19 e a crise do Ocidente

"George Floyd em Minneapolis, assim como o menino negro João Pedro, assassinado pela polícia no Rio de Janeiro, são o reflexo da decadência do ocidente e de seus valores deturpados", escreve Reynaldo José Gonçalves, jornalista e publicitário, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

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Os protestos em Minneapolis, motivados pela a revolta com o assassinato brutal de George Floyd, foram a faísca que faltava para a tensão com a crise econômica e sanitária nos EUA, fazendo com que os conflitos sociais tomassem a ruas. O movimento de rua, gerado a partir de um ato de covardia de um policial branco contra um cidadão afro-americano imobilizado, gerou revolta popular. Esse fato reflete bem como as política de segurança nos EUA são parecidas com as praticadas no Brasil, por exemplo. Esse modelo de opressão em nome do Estado segue um padrão definido com o passar dos séculos. Mais precisamente nos últimos 300 anos, onde os preceitos iluministas foram exaltados como a forma mais “evoluída” para a gestão civilizatória ocidental.

O ocidente, pretensioso em suas políticas agressivas de comércio e posteriormente de globalização (séc. XX), operou no pensamento iluminista a justificativa perfeita para a expansão de sua influência. Valores como a razão e os saberes científicos foram fundamentais para a evolução tecnológica que marcou nosso tempo. O liberalismo possibilitou uma arte mais pujante, contestadora, militante e universal. Afinal de contas, o ocidente se tornara moderno e ditava novas tendências por todo o mundo. Por outro lado, o liberalismo econômico permitia a burguesia, antes subjugada pela nobreza e pelo Estado absolutista, expandir sua influência, o que era justificado por outro preceito iluminista, a igualdade. Mas será que isso funcionou?

A burguesia ocidental que nos últimos séculos conquistou o mundo com sua cultura, comércio, relações diplomáticas e políticas, cometeu um grande erro calculado por seus operadores, mas fatal a longo prazo. Os ensinamentos iluministas, há muito é sabido, tornaram-se a estrutura retórica que modelaram os discursos da sociedade moderna em nome do controle da sociedade que garantiriam os interesses de suas elites. A ideia de igualdade e liberdade, um valor iluminista, ou seja, moderno, observado historicamente, soa a nós como uma anedota de péssimo gosto que demonstra como todos os valores, que se propõe como sólidos pelo establishment, se desmancham no ar.

O que falar então do liberalismo econômico? Assim como da revolução industrial e tecnológica, que nos trouxeram avanços notáveis, mas serviu também para transformar as relações de trabalho, fomentar a diferença entre classes e construir uma sociedade baseado no consumo e no individualismo? O que isso nos ensina é que tais valores, por mais que sejam basilares para que tenhamos justiça e democracia, foram utilizados apenas como valores semânticos dentro dos discursos promovidos pelas elites, que na prática, contrariava todo o ethos iluminista.

George Floyd em Minneapolis, assim como o menino negro João Pedro, assassinado pela polícia no Rio de Janeiro, além de milhares de pessoas que estão morrendo todos os dias por falta de assistência médica em plena crise sanitária, tanto no Brasil quanto EUA e Europa, são o reflexo da decadência do ocidente e de seus valores deturpados. Manifestações de rua representando toda a revolta do cidadão simples e trabalhador, com o modelo social construído nos últimos séculos, agora começam a tomar conta das ruas nos EUA, Brasil e Europa. Esse movimento representa o final de um ciclo, o ápice de um processo que vem aos poucos transformando em ruínas o projeto da modernidade. Ciclo este que sempre nos oferece muitos subsídios históricos para construirmos a sociedade do futuro, onde a justiça, a igualdade e a consciência não sejam valores apropriados por aqueles que hoje são os responsáveis pela crise do ocidente.

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