Gleisi defendeu a paz

"A ida de Gleisi à Venezuela deve ser entendida como uma visita de apoio não propriamente a Maduro, mas à paz e ao diálogo. Ela fez um contraponto à atitude irresponsável e belicista do governo Bolsonaro, que, em obediência cega ao Império, quer incendiar a Venezuela, com consequências desastrosas para o povo venezuelano e para os interesses objetivos do Brasil", avalia o sociólogo Marcelo Zero; "A direita não está preocupada com democracia. Está preocupada com o petróleo e os lucros que ele pode trazer"

Gleisi defendeu a paz
Gleisi defendeu a paz (Foto: Ricardo Stuckert)

É tocante ver a preocupação da mídia oligopolizada e da direita brasileira com a democracia .........na Venezuela.

Segundo tais forças, Maduro seria um "terrível ditador", mesmo tendo sido eleito em pleito limpo, porque o judiciário daquele país seria parcial e teria prendido o principal opositor político ao governo.

Isso me soa vagamente familiar. Não sei bem o porquê.

Mas voltemos à Venezuela.

Antes da chegada dos "terríveis bolivarianos" ao poder, não havia democracia alguma na Venezuela. O que havia era mero simulacro de democracia.

O que havia era o Pacto de Punto Fijo. Um pacto oligárquico articulado pelos EUA, pelo qual os partidos tradicionais e conservadores aceitaram alternar-se no poder, sem permitir a entrada de novos partidos. O objetivo, para os EUA, era garantir alguma estabilidade política na Venezuela, diante de sua importância como fornecedora de petróleo.

A realização de eleições presidenciais periódicas apenas entre os dois partidos conservadores (Ação Democrática-AD, de orientação socialdemocrata, e o Comitê de Organização Política Eleitoral Independente-COPEI, de tendência democrata-cristã), fez com que a Venezuela fosse apresentada como um exemplo raro de "democracia na América do Sul".

Tratava-se, é claro, de uma grosseira falácia. A bem da verdade, o sistema político gerado pelo Pacto de Punto Fijo era muito semelhante à política do "café-com-leite" da República Velha brasileira: por trás de uma fachada de democracia, escondia-se um sistema fortemente oligárquico e excludente.

Avalia-se que cerca de 50% da população teria sido excluída do exercício do voto desde os anos 60. Como o registro eleitoral era facultativo e como as zonas de inscrição estavam situadas apenas nas zonas mais prósperas do país, a população mais pobre não participava, na prática, de quaisquer decisões eleitorais. Além disso, o federalismo venezuelano era profundamente autoritário. Cabia ao Presidente da República nomear todos os governadores e prefeitos biônicos, muitos dos quais hoje militam na oposição venezuelana. Apenas em 1989 foram realizadas as primeiras eleições para prefeitos e governadores. Não bastasse, eram comuns as prisões de jornalistas, em razão da publicação de matérias que desgostassem o governo de plantão.

À exclusão política, somava-se a exclusão social e econômica da maior parte da população.

Antes do "cruel e ditatorial" governo bolivariano, a Venezuela, o país com a maior reserva de óleo do mundo, tinha 70% de sua população abaixo da linha da pobreza e 40% do seu povo na pobreza extrema. Isso diz tudo sobre os governos anteriores.

Antes do governo de Chávez, em 1998, 21% da população estavam subnutridos. É isso mesmo. No país que, como Celso Furtado escreveu em 1974, tinha tudo para se tornar a primeira nação latino-americana realmente desenvolvida, 1 em cada 5 habitantes passava fome. Essa era a Venezuela dos "capriles", dos "lópez" e da "oposição democrática".

O principal mérito do chavismo foi ter implodido o conservador e excludente modelo político venezuelano, baseado no Pacto de Punto Fijo. Com Chávez, assim como com Lula, Morales, Rafael Correa e outros, aqueles que não tinham voz e vez passaram a se fazer ouvir e a se fazer cidadãos. Passaram a comer, a se educar, a morar. Deixaram de ser invisíveis, miseráveis anônimos, e passaram a ser sujeitos de direitos.

Para a ONU, a Venezuela passou a ser modelo no cumprimento dos Objetivos do Milênio.

O chavismo, entretanto, foi além e organizou e mobilizou as massas destituídas da Venezuela, bem como passou a dominar setores importantes do aparelho de Estado, como as Forças Armadas e o poder judiciário. Isso acabou privando as oligarquias venezuelanas de seus principais instrumentos de intervenção política. São esses fatores que ajudam explicar a radicalidade do atual processo político venezuelano.

No entanto, o principal fator que induz a radicalidade do conflito da Venezuela é geopolítico.

A Venezuela está sentada na maior reserva provada de petróleo do mundo. São 298,3 bilhões de barris, ou 17,5% de todo o petróleo do mundo. Este petróleo está a apenas 4 ou 5 dias de navio das grandes refinarias do Texas. Em comparação, o petróleo do Oriente Médio está entre 35 a 40 dias de navio dos EUA, maior consumidor de óleo do planeta.

A própria formação do Estado venezuelano deu-se num contexto de estreita dependência econômica e política dos EUA. Com efeito, a consolidação do Estado Nacional venezuelano embasou-se na exportação de petróleo para o mercado norte-americano, o que levou à Venezuela a desenvolver "relações privilegiadas" com os EUA. Tal dependência estreita econômica e política marcou profundamente a política externa da Venezuela, bem como sua política interna.

Durante praticamente toda história venezuelana pré-Chávez, a Venezuela praticou uma política externa fortemente isolacionista, concentrada nas relações bilaterais com os EUA.

Esse isolacionismo da Venezuela, que privilegiava somente suas relações bilaterais com os EUA, fez até que aquele país aderisse tardiamente ao GATT, à Comunidade Andina e a outros organismos regionais e multilaterais, numa demonstração de total falta de iniciativa própria no cenário mundial.

Pois bem, Chávez implodiu não apenas o Pacto de Punto Fijo. Implodiu também essa política externa extremamente dependente.

De fato, no campo da política externa, Chávez rompeu com o paradigma anterior de país periférico e dependente e investiu na integração regional e no eixo estratégico da geoeconomia e geopolítica Sul-Sul, com destaque para as relações bilaterais com o Brasil, o que acabou conduzindo à adesão da Venezuela como membro pleno do Mercosul, algo que nos beneficia muito.

Ademais, Chávez estabeleceu relações próximas com Rússia, China e Cuba e passou a apoiar experiências políticas que divergiam da ordem mundial dominada pelos interesses dos EUA. Em contraste com o isolacionismo anterior, Chávez fundou a ALBA e criou a Petrocaribe, objetivando fornecer petróleo a preços convidativos para os países daquela região.

Mais recentemente, a Venezuela bolivariana, até mesmo em função do terrível bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos EUA, está passando a exportar mais óleo para a China que para o mercado norte-americano.

Assim, no primeiro semestre do ano passado a Venezuela exportou, em média, 566 mil barris por dia para os EUA, a mais baixa exportação média dos últimos 60 anos, ao passo que as exportações para a China, no mesmo período, se situaram em 640 mil barris/dia.

Observe-se que o governo Maduro já acertou com a China um empréstimo de US$ 5 bilhões para aumentar sua exportação em 500 mil barris /dia. Na realidade, a Venezuela, em razão de seguidos empréstimo tomados à China e à Rússia, está comprometendo as sua reservas de óleo àqueles países.

Os EUA, que substituíram o terrorismo pela grande luta pelo "poder mundial" com a China e a Rússia como sua grande prioridade geoestratégica, não estão gostando nada desse cenário que ameaça privá-los da maior fonte de energia do planeta, situada em seu "quintal".

É dentro desse contexto geopolítico que deve ser entendida a hipócrita "preocupação" dos EUA, do Grupo de Lima e do grande democrata Bolsonaro com a democracia venezuelana.

Essa "preocupação com a democracia" levou os EUA a apoiarem o golpe de Estado contra Chávez, em 2002, que quase resultou em sua execução sumária, o "paro petrolero" do período 2002-2003, que, com a suspensão das atividades da PDVSA, controlada então pelas oligarquias venezuelanas, resultou numa contração do PIB de 18%, o processo violento do "la salida", que levou a oposição venezuelana a introduzir uma guerra civil surda na Venezuela e, mais recentemente, um bloqueio econômico e financeiro brutal, somado à promessa de uma intervenção militar naquele país. Tudo muito democrático.

Na realidade, os EUA, seus aliados e a direita latino-americana de um modo geral nunca tiveram e não têm qualquer compromisso histórico com a democracia. Sempre que quiseram, jogaram às favas todos os seus supostos "compromissos" democráticos e promoveram quarteladas e golpes à larga. Apoiaram e apoiam as piores ditaduras, desde que atendam a seus interesses.

Em tempos recentes, tais forças vêm se empenhando na desestabilização de todos os governos e regimes progressistas da região, mediante guerras híbridas, que muitas vezes resultam em "golpes brancos", tal como aconteceu no Brasil.

Nesse cenário, não resulta difícil entender porque a Venezuela não está em situação de normalidade democrática, embora o governo atual esteja muito longe de ser uma ditadura, como apregoam os desinformados. Também não resulta difícil entender porque há uma crise econômica grave naquele país, que penaliza muito seu povo.

A situação, evidentemente, é séria.

Mas o que os EUA e aliados vêm fazendo é apostar no acirramento do conflito, com vistas à derrubada pela força do regime bolivariano.

Trata-se de aposta de alto risco.

O conflito venezuelano tem tudo para se internacionalizar, com os EUA e seus satélites apoiando uma oposição de extrema direita e China e Rússia apoiando os bolivarianos. Teríamos, assim, uma situação de instabilidade crônica muito parecida como a que se desenvolve, há décadas, no Oriente Médio.

Obviamente, isso não é do interesse do Brasil, principal beneficiário da integração regional e do entorno de paz e prosperidade que ela trouxe.

Muitos reclamam da imigração de venezuelanos. Mas tal imigração seria multiplicada, caso ocorra um conflito mais sério.

Por isso, os governos do PT vinham investindo no estímulo à negociação e à solução pacífica das controvérsias, até mesmo em obediência aos princípios constitucionais da nossa política externa. Atuávamos, na Venezuela, como mediadores e facilitadores do diálogo. O próprio Capriles, principal líder da oposição, reconhecia o papel positivo do Brasil, na época. Dizia que só participava das negociações por causa do Brasil.

Nesse sentido, a ida de Gleisi à Venezuela deve ser entendida como uma visita de apoio não propriamente a Maduro, mas à paz e ao diálogo. Ela fez um contraponto à atitude irresponsável e belicista do governo Bolsonaro, que, em obediência cega ao Império, quer incendiar a Venezuela, com consequências desastrosas para o povo venezuelano e para os interesses objetivos do Brasil.

A direita não está preocupada com democracia. Também não está preocupada com o povo venezuelano. Está preocupada com o petróleo e os lucros que ele pode trazer. Se, para isso, tiver que destruir a democracia e provocar uma guerra, que seja.

É muito difícil defender a paz e o diálogo nesse cenário de belicismo e desinformação. Mas Gleisi Hoffmann teve a coragem de fazê-lo.

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