Gleisi Hoffmann sabe que a eleição do legislativo é o nó da restauração democrática nacional

"A legislatura de 2019-2023 será a legislatura mais importante da história do Brasil. Ela terá a responsabilidade de restaurar o tecido político social que foi incendiado pela ala dos contumazes perdedores históricos da cena politica brasileira D.L. (Depois de Lula)", diz o linguista Gustavo Conde sobre a articulação da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, na construção de uma frente ampla progressista e qualificada com vistas ao legislativo  

Gleisi Hoffmann sabe que a eleição do legislativo é o nó da restauração democrática nacional
Gleisi Hoffmann sabe que a eleição do legislativo é o nó da restauração democrática nacional (Foto: Ricardo Stuckert)

A realização plena e soberana das eleições de 2018 se impõe como um dos maiores desafios da história brasileira. Não foi apenas a constituição que foi rasgada por uma legislatura comprometida apenas consigo mesma: o próprio tecido político e social foi rasgado com inédita violência institucional.

O processo de derretimento de país, desencadeado por uma série de fatores estruturais, culturais e econômicos, numa conjunção tóxica de elementos políticos e de interesses classistas, deixou claro que o ciclo virtuoso da democracia, tão delicado e tão difícil de construir, estava indelevelmente interrompido.

Os fatores são muitos e as análises do período já fazem volume para superar toda a historiografia política brasileira desde o império - sic. Somadas a inflexão brusca da história, o rescaldo intelectual que se manteve fiel à tradição democrática e o fenômeno da redes digitais, a massa de textos que narram o período já é mais densa e poderosa do que tudo o que foi escrito sobre o Brasil durante todo século 20.

Esse substrato narrativo histórico, embora pouco eficiente para definir o presente político e social do país – repleto de transversalidades disciplinares como a leitura econômica, sociológica, antropológica, ensaística, jornalística e a novidade do relato soberano livre das amarras acadêmicas, que é a massa de textos produzida pelos usuários de internet – impõe-se com furiosa autoridade na cena do comentário histórico brasileiro e demarca desde já sua dimensão épica de nação interrompida.  

A esquerda e as forças democráticas têm predileção estrutural pela produção de conteúdo, diferentemente de sua adversária histórica, a direita conservadora comportamental, que faz valer senão somente um regime de negações e uma trágica dicção ‘especular’, invertida e deformada pelas suas próprias limitações de leitura e de percepção.

É essa densidade narrativa que assusta a direita golpista brasileira. Por isso, ela corre para vender o patrimônio público, por isso ela corre para votar o fim dos direitos do trabalhador, por isso ela opera na calada da noite, nas visitas intramuros, nas cenas grotescas de políticos investigados tapando a própria boca para que não se faça leitura labial de suas negociatas inconfessáveis, próceres dos cargos lamentavelmente públicos que ocupam por usurpação de ofício.

Eles sabem que perderam essa dimensão da realidade, na seara precisa dos registros leitores, a dimensão histórica. É falso o mito de que a história é escrita por ‘quem vence’. A história é escrita por ‘quem sabe escrever’. Fosse verdade a falácia, não teríamos Jesus Cristo, Nelson Mandela, Martin Luther King, Mahatma Gandhi e tantos outros agentes da democratização dos sentidos e do direito à vida que obtiveram senão pequenas vitórias em suas passagens pelo mundo da política e do ativismo.

A rigor, todos ‘perderam’ e essa é a grande ‘aporia’ que nos domina a leitura do tempo: aqueles que parasitam o poder sempre ‘vencem’, porque o tempo para eles é curto. Os que resistem à parasitagem ‘perdem’ e caminham cuidando do coletivo e dos sentidos de humanidade. A história escrita acaba por lhes conceder sempre as honras da razão e da chama insurrecional dos líderes que se transformam em ideias.

O sentido de vencer e perder estão, portanto, claramente em disputa narrativa perene. Maus perdedores se alastram na mesma proporção em que bons vencedores lhes atropelam a malignidade atávica.

O sentimento de verdade, no entanto, baseado em valores como caráter, honra e solidariedade, ainda é muito forte e faz prevalecer seu regime narrativo e semiótico nos interstícios da luta pela dignidade. É desta percepção empírica do regime dos discursos que provém a máxima: o bem sempre vence. Esse enunciado atravessa os séculos, não como um falso bálsamo de esperança, mas como um desdobramento concreto da atividade intelectual humana.

A elite brasileira, tão bem encarnada nesse nicho parasitário que faz a história se movimentar com sua vilania e desumanidade, teme profundamente a força da palavra e a força da narrativa que está sendo construída neste momento. Ela sabe que não tem forças para disputar a batalha real do sentido, porque o que a define, a rigor, é justamente a falta de sentido.

Não admira que tantos cursos sobre o golpe foram gestados e realizados nas universidades públicas do país, imediatamente após sua deflagração. Muitos falsos intelectuais se espantaram com isso, claramente assustados e acuados por uma força muito mais poderosa do que suas convicções compradas pela mídia hegemônica.

A profusão de cursos sobre o golpe anuncia essa pujança da narrativa democrática que já veio, mas que irá se adensar cada vez mais como um tsunami verbi-voco-visual – como Haroldo de Campos gostava de definir sua produção poética plena de significações laterais semióticas. O volume de imagens que se somam a esta ‘ilíada’ contragolpista é qualquer coisa de monumental.

Só o trabalho do fotógrafo Ricardo Stuckert já é um documento histórico sem precedentes, tomado pela sensibilidade assaz humana de sua lente e de sua percepção dos sentidos visuais. Stuckert é o Sebastião Salgado que faz o registro arrebatador da violência persecutória que aprisiona Lula se transformar numa explosão visual e estética extremamente tocante e contundente, além de revelar a delicadeza profunda dos afetos que Lula recebe do povo.

Muito vem a calhar, portanto, movimentações estratégicas na cena política polarizada brasileira, realizadas pelos agentes enunciadores desta narrativa poderosa e já vencedora. Não basta garantir o direito de Lula ser candidato e o direito de ele ter o seu corpo livre, uma vez que ele possui o mais livre dos espíritos, soberano e profundamente conectado com seu país e com seus familiares e amigos. Lealdade, amizade e companheirismo também são valores que nosso adversário político desconhece e ignora.

Este é um ponto sem volta: Lula é o candidato livre da democracia. Mas o partido criado por Lula há quase 40 anos é, hoje, muito maior do que uma célula de insurreição revolucionária. Lula e o PT são maiores que suas próprias imagens diante de si e diante da história. Por isso, a estratégia política deste momento deve extrapolar o afunilamento afetuoso que sua imagem produz, também de maneira tática e deliberada.

Falo, obviamente, das eleições de 2018 em sua totalidade, não apenas no pleito presidencial. Teremos eleições para deputados estaduais, deputados federais, senadores e governadores. É muito importante que o lado da história que está de posse do sentido de verdade e da luta pela justiça social e política, imponha-se com toda a força que emana e toda a credibilidade que transpira.

O efeito colateral do golpe – terrível para o golpe – foi atualizar a credibilidade da esquerda e dos segmentos progressistas. É uma chance única de obter uma vitória espetacular nas eleições de 2018, sobretudo no legislativo. É mais que uma oportunidade, diga-se, é um dever histórico e moral, preencher a maioria absoluta daquelas cadeiras tão mal tratadas nessa dramática legislatura de turno.

Na linha desse raciocínio, trago boas novas e felicito a corajosa presidente do Partido dos Trabalhadores por uma iniciativa poderosa: articular e participar de um encontro e de um manifesto para que uma frente ampla de candidatos aos cargos legislativos revertam esse quadro de horror institucional que se apoderou do Brasil.

A legislatura de 2019-2023 será a legislatura mais importante da história do Brasil. Ela terá a responsabilidade de restaurar o tecido político social que foi incendiado pela ala dos contumazes perdedores históricos da cena politica brasileira D.L. (Depois de Lula).  

Teremos de ter pactos, teremos de ter respeito, teremos de ter projeto em comum, teremos de ter lealdade (ao povo, ao país, aos partidos, às ideias), teremos de ter diálogo, teremos de reestabelecer um sem-número de valores perdidos em meio à devastação do golpe.

É um trabalho hercúleo, que exige disciplina, inteligência e muita organização. Exige também a superação dos ressentimentos. Não da imensa ferida de sofrer um impeachment sem crime que jamais será cicatrizada, mas dos ressentimentos comezinhos, os sub projetos pessoais de protagonismo que ainda se alastram com tanta desenvoltura em certos segmentos do progressismo brasileiro.

A iniciativa desta discussão partiu de cinco grandes e respeitadas fundações brasileiras: Fundação João Mangabeira, Fundação Lauro Campos, Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, Fundação Perseu Abramo e Fundação Maurício Grabois.

Seus diretores-presidentes lançaram um manifesto extremamente importante que foi lido em Brasília, juntamente com os debates e a concertação em torno da causa da unidade concreta para a batalha da eleição legislativa, respectivamente: Alexandre Navarro, Francisvaldo Mendes de Souza, Manoel Dias, Marcio Pochmann e Renato Rabelo.

O manifesto é denso e é preciso: é necessário restaurar o projeto de país e isso só sera possível se compartilharmos todo o segmento progressista de um projeto comum e investido da historicidade que requer o momento. O manifesto começa definindo seu conceito fundamental:

“(...) [O] objetivo é desencadear desde já um movimento que contribua para a eleição de um conjunto de parlamentares compromissados com a alternativa de um projeto nacional de desenvolvimento. Uma vez eleitos, esses deputados, deputadas, senadores, senadoras poderão protagonizar a constituição de uma Frente Parlamentar cujos integrantes terão como referência de atuação a defesa de um projeto pela reconstrução e o desenvolvimento do Brasil. Um projeto justo e avançado para a Nação e o povo irá contribuir para a eleição e a formação de uma forte frente progressista no parlamento brasileiro.”

Em conversa via Whatsapp com a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, pude entender a seriedade e o alto grau de compreensão estratégica da ação e do manifesto. Gleisi postula que todos os partidos verdadeiramente do campo progressista se unam na tarefa de construir uma legislatura digna do mais alto grau de qualidade política, para expurgar os fantasmas de uma legislatura fisiológica e carente de toda e qualquer conexão com a realidade do país.

Gleisi se coloca à disposição para o diálogo na complexa composição político-partidária ora vigente no Brasil. Ela sabe, como muitos eleitores que já acusam essa percepção mais acurada do cenário eleitoral, que a composição do legislativo é, talvez, a dimensão mais importante dessas eleições históricas.

A senadora afirmou que não adiantará eleger um presidente do campo progressista e ‘não-golpista’ se o congresso for novamente tomado por interesses corporativistas e de auto proteção.

Gleisi concordou com este missivista de que o momento é o melhor possível para esta empreitada. O eleitor está farto do discurso da direita conservadora. Ele mesmo a repudia com todas as letras e traços e deixa isso claro nas aferições periódicas dos institutos de pesquisa.

O momento é, por assim dizer, espetacular para o campo progressista, que aglutina para si o papel de resistir a um golpe brutalizado (e isso é eleitoralmente eficiente) e o discurso de restauração nacional, diante de tanto desinvestimento e tanta dissolução de patrimônio público.

Este escriba comemorou a visão inteligente da presidente do PT e dos signatários do manifesto. É assim que se constrói uma resposta contundente e à altura para acelerar o processo de re-significação urgente do Brasil, pela qual todo o povo trabalhador clama e aguarda.

O manifesto das fundações em nome de uma frente ampla para o parlamento avança e alerta para o papel a que se propõe desempenhar e a via de mobilização política que pretende pôr em prática:

“Ou o país se reencontra com o caminho da democracia, da soberania nacional, do desenvolvimento e do progresso social, ou seguirá na rota – que lhe impôs o fracassado governo Temer – do entreguismo, do autoritarismo e do corte crescente dos direitos do povo e da classe trabalhadora.”

Esses movimentos do PT e da sociedade civil brasileira estão em pleno curso e ambas as instâncias vão reforçando e demonstrando seu imenso caráter e comprometimento com um projeto de país. A preocupação com a compexidade e com a violência dos artífices do golpe é legítima e necessária, mas certo é que o campo progressista brasileiro não se acovarda e costura alianças concretas com as ideias, com os partidos dignos do nome e com a sociedade civil, sem se esconder e sem se omitir. Isso é motivo de orgulho para um país que aprendeu a ter que lidar com as humilhações diárias provocadas por um golpe obscuro e violento.

Gleisi está de posse da construção desse momento eleitoral. Ela é forte, corajosa e inteligente. Não foi à toa que Lula projetou nela sua palavra extramuros, liberta do cativeiro infame de Sergio Moro. Gleisi significa isso neste momento: a palavra livre de Lula.

O processo é virtuoso e molda uma outra imensa e grande líder para as próximas décadas no Brasil. Investida da palavra presente de Lula, Gleisi será o substrato para a palavra política do futuro que deverá exercer a função de reconduzir o país a uma nova realidade democrática possível.  

Com Lula preso, a cena política se derrete um pouco mais, porque se perde a referência política máxima do país nos últimos 40 anos. Mas, ao mesmo tempo, as lideranças do campo progressista vão se consolidando e tomando um corpo discursivo antes inédito, ocupando o espaço deixado por Lula nas discussões diárias que atravessam a nossa cultura política mais à esquerda.

Claro está que o presidente que for eleito em outubro, pouco ou nada poderá fazer sem um legislativo digno e qualificado. Nem mesmo Lula pode lutar contra essa realidade assaz democrática que é o respeito e a negociação transparente com os 513 deputados e os 81 senadores.

Aliás, diga-se: se Lula não estiver nesta cédula eleitoral, como esteve nas últimas cinco cédulas – sem contar a eleição e reeleição de Dilma Rousseff –, o país continuará sem presidente. Não há possibilidade de se haver ‘vencedor’ nestas eleições sem que Lula, o líder das pesquisas, esteja devidamente inscrito e estampado na campanha legítima ao cargo máximo do país. Todos sabem disso, até seus inimigos.

Tão logo comece a campanha, o clima vai esquentar muito. Seguros podemos estar que o PT está mais forte do que nunca e que o campo progressista –  embora muitos tenham dificuldade leitora para identificar isso – está coeso e é favorito ao seu eterno papel histórico de botar ordem na casa desarrumada pelos maus perdedores de sempre.

A iniciativa das fundações com a chancela e a participação da presidente do maior partido político do Brasil só pode significar uma excelente notícia para o eleitor que busca dar o seu recado nestas eleições históricas de 2018. Não basta acreditar numa ideia, é preciso pô-la em prática.

É isto que o PT e a sociedade civil brasileira estão tentando fazer neste momento. E a julgar pelo histórico de vitórias seguidas que o PT – em situação normal de temperatura e pressão – pôde conquistar, convém não subestimar. O horizonte pode estar reservando uma grata e imensa surpresa para essa complexa eleição que começa a arregaçar as mangas.

Celebração antecipada, nunca. Mobilização assertiva, sempre.

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