Golpe contra Evo é aviso aos navegantes

"A queda de Evo Morales mostra que o império e seus aliados não descansam, mantendo-se sempre à espreita para agir contra aquelas lideranças que representam os interesses do povo", diz o colunista Paulo Moreira Leite

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No dominó sul-americano, a Bolívia era a única peça que permanecia de pé, inabalável, após o vendaval imperialista que em pouco mais de  cinco anos modificou a paisagem política da região.  

Pela ordem cronológica. Em 2013, com a morte de Hugo Chávez, teve início a fase mais dura do bloqueio à revolução bolivariana, um garrote cada vez mais apertado no pescoço da Venezuela, que resiste, apesar de tudo, apoiada por um Exército que sustenta o governo Nicolas Maduro com uma fidelidade única na região. 

Em 2015, grandes escândalos midiáticos ajudaram derrotar o peronismo na Argentina, abrindo caminho para a  vitória de Maurício Macri. Em 2016, o projeto Lula-Dilma foi derrubado através de um golpe parlamentar, consolidado pela prisão de Lula em 2018. Em 2017, numa sórdida trama palaciana, Lenin Moreno desfez as conquistas de Rafael Correa para reconectar o Equador ao comando de Washinton. 

O golpe que forçou a renúncia de Evo Morales, presidente desde 2006, reeleito pela quarta vez, mostra que a selvageria política continua liberada na América do Sul.

Apoiado pelo Exército e pelas forças policiais encarregadas da segurança interna, o ataque final a um presidente que jamais foi derrotado nas urnas é um aviso aos navegantes da democracia e da soberania de povos e países dessa parte do mundo. A América do Sul segue como alvo de cobiça do império e seus ajudantes, capazes de empregar métodos implacáveis para conservá-la sob  seus domínios.

Não vamos nos iludir. O que está em jogo, no Chile de Pinochet-Pinera, no Brasil de Temer-Bolsonaro. na Argentina de Macri, não é o bem-estar do povo, nem o reforço das garantias democráticas, nem qualquer conceito mais evoluído sobre a condição humana. Apenas a submissão de uma região inteira, rica em minérios estratégicos e em recursos naturais, aos interesses e domínios de Washington. 

O golpe que derrubou Evo é a versão bem sucedida da operação liderada por Aécio Neves para impedir a posse de Dilma em 2015. Paralisada inicialmente, a manobra seria bem sucedida um ano e quatro meses depois. 

Tanto a vitória de Augusto Fernandez-Cristina Kirschner na Argentina, como a rebelião popular contra Pinera, no Chile e  a libertação de Lula,  no Brasil, mostram que a região não evolui de uma mesma maneira, nem numa única direção. Há uma imensa vontade de mudanças a favor dos explorados e excluídos, que tem feito girar a roda de mudanças numa direção favorável.   

A luta por uma Assembléia Constituinte ganha força e consistência no Chile. A liberdade de Lula é o ponto de partida para dar nova musculatura à oposição a Bolsonaro, até hoje desarticulada e sem uma voz capaz de falar pelas grandes camadas do povo brasileiro.

Mas a queda de Evo Morales mostra que o império e seus aliados não descansam, mantendo-se sempre à espreita para agir contra aquelas lideranças que representam os interesses do povo.

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