Golpe militar: o perigoso fracasso na construção do anti-Lula

"O ovo da serpente do fascismo da ditadura militar está sendo chocado em pleno ano eleitoral e o pior, sob a batuta de um governo ilegítimo e extremamente impopular. A incômoda insistência petista de vencer as quatro últimas eleições e liderar com folga essa quinta, parece forçar a aristocracia brasileira a aplicar golpe atrás de golpe. A democracia está realmente em risco no Brasil. E o golpe, em curso incessante desde 2016, pode apresentar sua face mais cruel: os tanques nas ruas", diz o colunista Guilherme Coutinho

Rio de Janeiro - Militares fazem operação na favela da Rocinha após guerra entre quadrilhas rivais de traficantes pelo controle da área (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Rio de Janeiro - Militares fazem operação na favela da Rocinha após guerra entre quadrilhas rivais de traficantes pelo controle da área (Fernando Frazão/Agência Brasil) (Foto: Guilherme Coutinho)

Há oito meses, uma das revistas de maior circulação no país, apontava, em sua capa, o tucano João Dória como o anti-Lula. O prefeito paulista era, à época, o nome que – ao menos na visão dos golpistas – poderia vencer Lula em um embate democrático. A máscara de Dória, no entanto, não tardou a cair e sua campanha naufragou antes de desaportar. Huck e Flávio Rocha, novos candidatos ao posto, desistiram por conta própria, e os postulantes a anti-Lula emergiram do submundo da velha política aristocrática. No entanto, a aprovação dos candidatos do partido do golpe é ínfima e se demonstram eleitoralmente inviáveis. Entre manter o golpe e promover a democracia, Temer, cada vez mais próximo das FAs, pode colocar a soberania popular em risco.

Lula não é apenas o líder nas pesquisas de intenção de voto, que apontam uma possível vitória em primeiro turno. Sua aprovação popular é quase duas vezes maior do que a do segundo candidato melhor avaliado, de acordo com dados do instituto IPSOS e do Estadão. Enquanto a aprovação dos "presidenciáveis" Rodrigo Maia, Henrique Meireles e, pasmem, Michel Temer – que teve a insensatez de cogitar reeleição – não passa de 5 %, o que os faz renunciar tacitamente ao posto de anti-Lula, Geraldo Alkimin, com 20% de aprovação, não chega à metade dos 42% do prestígio que Lula goza com o eleitorado. Terceira via, como todo bom fascista, Bolsonaro possui 24%, mas sem apoio da mídia ou de partidos políticos, deve sair do páreo mais brevemente do que se imagina.

Mesmo com a condenação de Lula e seu possível impedimento de ser, de fato, candidato, sua força junto ao eleitorado brasileiro será indubitavelmente decisiva. Cabo eleitoral, Lula tem capital político para colocar o PT no segundo turno com excelentes chances de vitória sobre o candidato do golpe que, desde já, não emplaca e não convence a população. E como golpe e democracia não combinam mesmo, os golpistas já apresentaram sua sórdida opção ao processo eleitoral. Os sinais não podem mais ser ignorados.

Temer parece ter colocado uma – perigosa – carta na manga ao decretar a intervenção federal no RJ. Se como manobra eleitoreira, não o fez decolar na aprovação popular, a ingerência militar pode ser presságio de algo muito mais grave. O governo começa a dar cada vez mais espaço aos generais na esplanada e a política militar-intervencionista está em plana expansão. O Ministério da Defesa, pasta tradicionalmente ocupada por civis, teve o primeiro militar nomeado para o posto, em toda jovem história de nossa república. A nomeação do General Luna e Silva foi um agrado de Temer às Forças Armadas que possuem cada vez mais influência no governo.

Outro General, o interventor Braga Neto, falou pública e abertamente que a intervenção no RJ é um laboratório para o Brasil e o comandante das Forças Armadas condenou a possibilidade de haver uma nova Comissão da Verdade, tudo isso em nome de maior liberdade de atuação dos soldados. Nas próximas semanas, outros estados terão seus governadores eleitos relegados a uma função decorativa para que um general assuma as funções de fato. Com um anti-Lula forte, consolidado e apoiado pelo golpe, esse cenário não estaria acontecendo, certamente. As Forças Armadas são o novo anti-Lula.

O ovo da serpente do fascismo da ditadura militar está sendo chocado em pleno ano eleitoral e o pior, sob a batuta de um governo ilegítimo e extremamente impopular. A incômoda insistência petista de vencer as quatro últimas eleições e liderar com folga essa quinta, parece forçar a aristocracia brasileira a aplicar golpe atrás de golpe. A democracia está realmente em risco no Brasil. E o golpe, em curso incessante desde 2016, pode apresentar sua face mais cruel: os tanques nas ruas.

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