Governador de Minas pede equilíbrio e moderação ao país

(Foto: Carlos Lindenberg)

Estava demorando, mas aconteceu no dia 30. O vice-governador de Minas, Antônio Andrade, anunciou o que já se sabia: o rompimento com o governador Fernando Pimentel, após um longo período de esgarçamento das relações que começou por ocasião do impeachment da presidente Dilma Rousseff, quando o vice, que é também presidente regional do PMDB, levou a bancada federal a votar pelo impedimento da presidente, rompendo um acordo que fizera com o governador Fernando Pimentel. De lá pra cá, as coisas entre o vice e o governador começaram a desandar, para desaguar há pouco mais de três semanas, quando Fernando Pimentel exonerou da presidência da Gasmig, uma empresa do grupo Cemig, o filho do vice-governador, Eduardo Andrade, não sem antes demitir ao longo desse tempo todos os indicados ou apadrinhados de Antônio “Toninho” Andrade, ex-ministro da Agricultura de Dilma, do governo mineiro.

Já no ano passado, num gesto surpreendente, mas certamente provocador, até por que a tensão entre o titular e o vice já ia longe, logo na virada das eleições municipais, Antônio Andrade levou o candidato do PMDB à prefeitura de Belo Horizonte, Rodrigo Pacheco, que ficara em terceiro lugar, a apoiar o candidato tucano, João Leite, com direito a fotos e tudo o mais, sob as bênçãos do senador Aécio Neves. A atitude causou nova reação do governador, que se sentiu insultado pelo seu vice, uma vez que Pimentel debaixo dos panos passava a apoiar o “outsider” Alexandre Kalil, que fora para o segundo turno já à frente de João Leite.

Novas exonerações na turma de Toninho Andrade, maior tensão entre os dois. Pimentel, contudo, mantinha na presidência da Gasmig o filho do vice, Eduardo, quem sabe ainda como uma porta aberta para a retomada da boa relação entre os dois. O que era, portanto, interpretado como um sinal de que as coisas poderiam voltar às boas, não aconteceu. Toninho passou a frequentar a antessala de Michel Temer e Pimentel a se ver às voltas com a dívida do Estado com a União sem que o vice, sendo um quadro do PMDB, o auxiliasse nas negociações reservadas que o governador mantinha com a presidência da República ou com técnicos do Ministério da Fazenda. Até que há coisa de três semanas o caldo entornou e Pimentel demitiu o filho de Toninho da presidência da Gasmig.

Na verdade, ao anunciar ontem o rompimento, o vice não surpreendeu. Já era esperado. Tanto que o governador Pimentel já vinha solidificando sua aliança, desde o início do governo, com o presidente da Assembleia Legislativa, o também pemedebista Adalclever Lopes, talvez já esperando alguma coisa partindo do vice, que, no entanto, vinha se mantendo pelo menos sem fazer críticas ao governo. Ontem, no entanto, ele não apenas anunciou o rompimento como criticou o que chamou de falta de ação do governo para justificar sua decisão. O que virá por aí, não parece muito.

O vice tem boa parte das bases do partido nas mãos, mas não tem a maioria do diretório e talvez não resista a uma convenção, tanto assim que busca uma fórmula na alquimia da política mineira para evitar a disputa junto aos convencionais. Nesse caso, se o governador Pimentel for tentar a reeleição, como parece que vai tentar, certamente deverá escolher como vice o deputado Adalclever Lopes, o poderoso, porém, discreto presidente da Assembleia Legislativa, a essa altura com boa parte do PMDB na mão.

Adalclever, por sinal, comprou a briga do governador Pimentel com o governo federal por conta da dívida do Estado com a União. Arregimentou a Assembleia, fez uma forte campanha publicitária em defesa do encontro das contas do Estado com as da União, mostrou a razão da necessidade desse confronto e acabou fazendo mais nessa área do que o próprio Executivo.

Por essas contas, Minas deve R$ 85 bi ao governo federal, mas tem um crédito de R$ 135 bi, sendo que desse montante R$ 35 bi são dos municípios, tudo isso por conta da desoneração das exportações como resultado da Lei Kandir, com sentença já transitado em julgado no Supremo Tribunal Federal.  Esse pleito do governo mineiro tem uma explicação, além desse desequilíbrio entre dever e haver.

O governador Fernando Pimentel, com problemas de caixa, se comprometeu a não onerar os servidores do Estado e de não vender empresas estatais, como quer o Ministério da Fazenda. Portanto, Minas não vai aderir automaticamente, como outros Estados, ao programa aprovado no Congresso de iniciativa do governo federal. Para se precaver, Minas fez uma minirreforma administrativa, racionalizou custos e mandou para a Assembleia Legislativa um ambicioso programa de incentivos tributários em que não apenas perdoa parte das dívidas dos inadimplentes como bonifica os que adimplentes para que continuem pagando em dia ao fisco estadual.

Ao mesmo tempo, o projeto de lei cria fundos públicos para aquisição de imóveis do Estado, entre eles a icônica Cidade Administrativa, criada pelo governador Aécio Neves e que também leva o nome do avô, Tancredo Neves, que continuaria alojando a burocracia do Estado mediante o pagamento de aluguel, com o que o governo pretende amealhar algo em torno de R$ 20 bilhões para investir na retomada do desenvolvimento de Minas, segundo Fernando Pimentel.

Que, por sinal, resolveu deixar os problemas jurídicos que enfrenta de lado e partir para o ataque, percorrendo o interior, aumentando sua interlocução com os caciques regionais e advertindo, em todos os seus discursos, que o país atravessa uma fase delicada e que Minas está atenta à consciência política dos mineiros, pautada sempre na prudência, no equilíbrio e na serenidade. Não foi assim por acaso, que numa cerimônia dessas, o governador recitou Guimarães Rosa: - Minas, a gente olha, se lembra, sente, pensa. Minas – a gente não sabe.

 

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