Guedes é granadeiro, não ministro

As forças semi-escondidas do capital predatório escolheram Paulo Guedes como protagonista principal para promover desencontros e espalhar irracionalidades

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Primeira parte: do desvio de função 

As forças semi-escondidas do capital predatório escolheram Paulo Guedes como protagonista principal para promover desencontros e espalhar irracionalidades, tendo como meta a entropia. O protagonista escolhido é, em si mesmo, a medida da desordem e da imprevisibilidade, que provoca o autoconsumo dos aspectos humanitários (antropofagia) de todos com quem se relaciona, em nome do triunfo de um poder incompreensível e saturado de auto-referência.

A entropia refere-se ao sentido de desordem de um sistema que se volta para si mesmo, isto é, que se satura em cadeias reiteradas e irracionais de auto-referências. Aos que anseiam por soluções racionais, são oferecidos sentimentos de vertigem, alienação e impotência. Estão expostas à luz do dia as tentativas frustradas do protagonista, falsas ou verdadeiras (nunca se sabe), de inserir-se no cenário para minimamente compreender a sua posição e suas atribuições nas estruturas administrativas que comandam a vida pública e privada do entorno do palácio.

Numa das conversas com a comissão representante do capital predatório, o protagonista foi informado acerca de um equívoco por ocasião da promessa de sua contratação. Na verdade, não havia necessidade de um ministro da economia no planalto, pois todos os limites do que havia para ser saqueado já haviam sido decididos e demarcados. O inquilino a serviço no planalto, posto lá por meticuloso trabalho da comissão que prometera o cargo ao protagonista principal, deu-se conta do erro e tentou repará-lo, realocando o protagonista para exercer outras funções. 

Mas os expedientes perderem-se no tempo, devido aos tramites burocráticos, de modo a resultar numa situação incoerente (nonsense).  

O protagonista escolhido, sob qualquer pretexto, recebe manifestações de apreço por parte da Comissão Agregada do Capital Predatório – CACAPREDA, que tem esse nome por ter agregado o protagonista aos serviços burocráticos no entorno do planalto: 

“Ao senhor ministro no entorno do planalto! Os trabalhos de economista que o senhor realizou até agora gozam do nosso reconhecimento. Os trabalhos dos ajudantes também são louváveis; o senhor sabe induzi-los bem ao serviço. Não ceda no seu zelo! Leve os trabalhos a um bom termo. Uma interrupção nos deixaria contrariados. De resto confie em que a questão dos honorários será decidida muito em breve. Nós não o perdemos de vista.”

As funções da CACAPREDA são extensas e não raro inacessíveis aos leigos. Mas no caso em questão emerge cristalina  a função especialíssima de “prospectar novos veios lucrativos para os seletos portadores da carteira premium de garantias securitized”, cuja expertise é a localização de  alvos financeiros vantajosos. 

Uma boa analogia, com vistas à compreensão dessa função especialíssima, seria dizer que a comissão tem, em relação aos círculos dos altos patrimônios,  o mesmo zelo que o escritório do crime  tem em relação aos alvos incômodos no mundo miliciano; aqui como função antípoda. Antinomia que poderia ser sintetizada pelo binômio salvar-matar.

Esse reconhecimento ao protagonista principal, emanado dos círculos predatórios, ocorre a despeito de ele ter sido, desde o primeiro momento, realocado para exercer as funções de granadeiro, não tendo, por nenhum instante, se inteirado da situação que caberia a um ministro da economia. Como todos sabem, a função de um granadeiro é lançar granadas, o que é muito distinto da função de ministro – mais nobre – prometida originalmente pela CACAPREDA. 

As manifestações de apreço ao protagonista,  de resto frequentes em todos os ambientes onde circulam as gentes endinheiradas, causam estranheza porque o personagem mais importante da trama – representada nessses eventos pela CACAPREDA  – é tido como um ser onisciente que supostamente teria conhecimento de tudo o que se passa. Assim, razoável supor que o clube do capital predatório tivesse plena ciência da situação de inércia do protagonista escolhido na seara econômica. Resulta disso uma sensação de alienação extraída dos diálogos entre os personagens, em que quase tudo no seu entorno é provável; onde tudo é possível, mas nada é certo.

Observadores colocados em posição privilegiada por ocasião da reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020, no palácio do planalto,  afirmam:

“É improvável que alguém que seja avistado de frente, com cotovelo na mesa e fumando um charuto, esteja de fato dormindo.”

Levantou-se tal objeção ante a notícia de que o personagem-inquilino estava dormindo sentado naquela posição, e por isso não teria ouvido os mitômanos invadir o salão principal do palácio em busca de cerveja, como se fossem gado na estrebaria.

O fato de convivas do palácio acreditarem firmemente que o personagem estava dormindo –  contrariando evidências visuais claríssimas – , transmite a sensação de que o conteúdo das falas dos personagens não está coerente com as situações narradas. É algo obscuro, podendo até ser visto como uma alegoria da inconsciência a partir da qual se desenvolve o ofício burocrático, como se fossem questões decididas em situação de sono.

Não se pode deixar de notar que vários desses aspectos funcionam como prenúncio da iminência de cenários totalitários, multifacetados, por mais que pareça, ao olhar ligeiro e desatento, que tudo não passa de desordem pura.

A inócua busca dos personagens por um sentido inalcançado incita um desgaste profundo. Pela desorientação narrada, provoca sensações de tensão, confusão e atordoamento.

O protagonista principal assimila o seu fracasso em dois momentos específicos: 

(i) ao aceitar a função de granadeiro quando lhe tinha sido prometida a de economista, e, (ii) de maneira mais definitiva, ao ceder à irracionalidade do sistema, deixando- se conduzir, pelo inquilino-preposto do capital predatório, através da escuridão, para desenvolver outra atividade para a qual também não tinha a menor experiência.

Ao invés de enfrentar o problema no seu cerne, a resposta dada provoca a multiplicação infinita do erro administrativo, dando a impressão de que mesmo que se vença a falta de transparência nas instâncias burocráticas, com a investigação laboriosa de documentos oficiais, ainda assim, a autoridade tenderá a resolver a questão de uma maneira arbitrária e, portanto, imprevisível, o que torna a suposta referência à normatividade algo caprichoso.

Assim a burocracia descamba para o burocratismo. São deixados de lado a previsibilidade, a tecnicidade e a meritocracia. O racionalismo burocrático é desvirtuado pela sua abstração, como forma de se encobrir arbítrios e caprichos concretos. Na alegoria de Goya: “o sono/sonho da razão produz monstros”.

Outra distorção é identificada na rede de relações pessoais que se travam no seio do entorno do palácio e que surte efeitos nas nomeações descabidas e nas atividades que deixam de ser praticadas por ausência de competências adequadas.

Como num espelho invertido, o protagonista escolhido – frustrado – e o inquilino-chefe do palácio funcionam como “profetas dos totalitarismos que assolam a modernidade: seus juízes alienados, seus comandantes tirânicos, seus advogados corruptos, suas administrações inumanas se tornaram os arquétipos da perversão da justiça.” 

Segunda parte: da atuação do granadeiro 

Realocado para a função de granadeiro, o inadequadamente denominado ministro da economia passou imediatamente a lançar granadas a torto e direito. 

Entre as suas novas atribuições estava a de destruir o Estado do bem-estar social, considerado muito custoso e funcionando a contragosto aos interesses do seleto clube que tinha agregado o protagonista aos serviços palacianos. De pronto ele lançou uma granada para derrubar a carga tributária de 33% para 20%, atendendo expressa recomendação.

A explosão do Estado do bem-estar social tem para esse seleto clube uma dupla vantagem: 

  1. reduzir os gastos tributários do capital predatório em 40%, sem que nenhuma atividade essencial a eles afeita fique prejudicada;  o dinheiro será subtraído – roubado – da educação, da saúde e do saneamento dos mais pobres, enquanto a CACAPREDA continuará tendo o orçamento necessário para garantir a segurança e o patrimônio dos seus sócios, com soldos majorados para polícias militares e generais antinacionalistas, todos empenhados na defesa dos capitalistas privilegiados;
  2. a economia de 40% em tributos  pode ser canalizada para os sócios da  CACAPREDA em forma de aumento de lucros, cuja distribuição aos sócios, isenta de impostos,  terá um efeito muito benéfico na alta da bolsa de valores, fazendo crescer o PIB dos sócios do clube (uma minoria de bilionários que representa  0,3% da população).

O granadeiro ainda não conseguiu concretizar a ideia por completo. Mas está se esforçando bastante. 

Sendo alertado de que os cofres estavam vazios, ele começou a enfiar granadas nos bolsos dos servidores públicos, tentando achatar ainda mais seus salários. 

Lançou granadas contra a classe média, ameaçando eliminar as deduções fiscais do imposto de renda da pessoa física. 

Lançou granadas ao mar, destroçando plataformas da Petrobras; os destroços foram entregues aos sócios do clube na bacia das almas.

Lançou granadas contra a economia popular, destruindo a soberania nacional.

Lançou granadas contra os consumidores mais pobres, ameaçando-os com mais impostos sobre o consumo.

Lançou granadas contra o general Braga Neto, destruindo em menos de cinco minutos a ficção do Plano Marschall dos militares.

Como Guedes ficou tão bom nisso? Enquanto a plateia se divertia discutindo o mofo no pulmão do Bolsonaro, assustando-se com os foguetórios da turba de fascistóides, Guedes fazia cursos avançados para lançamento de granadas, montagem de minas e bombas. Hoje ele é o maior especialista em destruir coisas que os outros construíram.

Ele lança granadas-disparate. “Tem 300 bilionários loucos para vir aplicar dinheiro no Brasil; estão só esperando a gente tirar o excesso de burocracia”; bilionários não gostam de controles. Todos sabem que é disparate.  Mas funciona por causa do deságio embutido na granada. Quem está esperando ganhar algum dinheiro fácil – e há os de sobra – pensa:  deve haver uma parcela de verdade nisso. Vá lá, se for apenas 10% verdade, já está de bom tamanho. É assim que funciona, eles sabem como fazer passar a boiada.

Terceira parte: dos resultados 

Índices em queda (negativos para o povo):

- queda do PIB até junho de2020:  6%;

- queda de arrecadação até junho 2020: 14,7%

- desemprego: metade das pessoas adultas estão sem trabalho formal.

Índices em alta (positivos para o capital especulativo e predatório):

- alta da bolsa de valores desde o início da pandemia: 58%

- aumento do desmatamento entre agosto de 2019 a junho de 2020: 64%

- mais de 100 mil mortos (mais que o triplo da meta perseguida pelo ocupante do palácio do planalto).

Guedes descansa carregando granadas e montando minas, porque a cobiça do patronato não conhece limites. Por isso ele não hesita sequer em lançar granadas contra o sacrossanto altar dos mitômanos, abrindo uma nova frente para o desfrute e o regozijo dos ricos. Enquanto outros dormem sentados com charutos acesos pendurados nos lábios, o granadeiro trabalha:

“Damares. Damares. O presidente, o presidente fala em liberdade. Deixa cada um se foder do jeito que quiser. Principalmente se o cara é maior, vacinado e bilionário. Deixa o cara se foder, pô!” [...] “Não entra [no prostíbulo de luxo] nenhum brasileirinho desprotegido. Entendeu?”

Os anúncios da CACAPREDA, pagos com as sobras dos altos rendimentos especulativos e predatórios, não cessam de ecoar por toda parte. Rádios, tevês, jornais, impulsionam o granadeiro:

“O senhor sabe induzi-los bem ao serviço. Não ceda no seu zelo! Leve os trabalhos a um bom termo. Uma interrupção nos deixaria contrariados. De resto confie em que a questão dos honorários será decidida muito em breve. Nós não o perdemos de vista!” 

Cumpre-se assim, no tempo certo, a profecia do poeta Cazuza:

“Transformam o país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro.”

E haja cloroquina via oral, ozônio via anal e água de coco intravenosa para animar os brasileirinhos desprotegidos (de parcos milhões), e barrados das festas de se f_der do ministro transformado em granadeiro.

A pérola dessa farra insana, anti-povo, anti-Brasil, fica por conta do inquilino palaciano a soldo do capital predatório, aludindo à passagem da matança dos 100 mil, matança que se tornou possível apenas com “bombas de ignorância e de má fé”, nas palavras do presidente Lula.

- “Vamos tocar a vida!”

Obs: na primeira parte deste artigo utilizou-se, como pano de fundo, a narrativa do texto “ENTROPIA E ANTROPOFAGIA NO CASTELO DE KAFKA: reflexões sobre a desfuncionalização burocrática à luz da racionalização extrema do direito público. O texto-base, de autoria de Irene Patrícia Nohara e Liziane Parreira, é uma análise da obra “O Castelo”, de Franz Kafka. Utilizou-se esse recurso – como licença poética – , inclusive com a reprodução literal de várias passagens, para demonstrar que a análise  narrativa de uma obra kafkiana pode se encaixar perfeitamente na análise factual dos absurdos vivenciados sob o governo Guedes/Bolsonaro. Recomenda-se a leitura do artigo citado para melhor compreensão da alegoria.

Ver também:  Justiça “kafkiana”: a lei-esquizo vige sem significar. Captura críptica.

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