Guedes precisa ouvir Lula. Ou salva os do andar de baixo, ou não verá país nenhum

"É possível que Paulo Guedes faça ouvidos moucos, e aproveite a crise para pisar mais forte nos dedos desta gente, jogando-as de vez no precipício. Talvez assim, parem de onerar o Estado", avalia a jornalista Denise Assis sobre a situação do País em meio à pandemia do novo coronavírus

Lula e Paulo Guedes
Lula e Paulo Guedes (Foto: Felipe Gonçalves/247 | Reuters)
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia 

Amigos, eu os convido a um exercício de imaginação. Tentem visualizar um mapa do Brasil, e entre as suas linhas limítrofes, coloquem a classe média e a elite. Nas bordas, pendurados, agarrados, quase caindo, os miseráveis. De quando em vez, um dos ricos ou remediados vêm até a beirada e dá uma pisada forte nos dedos de um dos pobres diabos, precipitando-o no abismo. Esta é a imagem do estado mínimo dos neoliberais, clube a que pertence o ministro da economia, Paulo Guedes. Só cabem no Estado os que estão no meio.

A bem da verdade, consegui formular a imagem descrita acima, a partir da explicação de um prestigiado historiador, entrevistado pelo jornalista Roberto D’ávila, entre os dois turnos da eleição de 2018, que levou à presidência, Jair Bolsonaro. Durante a entrevista, o historiador descreveu do alto de suas teorias neoliberais – e eu as reproduzo em linhas gerais, aqui –, que o Estado brasileiro não comporta esta quantidade de gente. “É gente demais”, exclamava, indignado, complementando: ‘as regras do liberalismo impõem uma escolha. Os que couberem dentro do Estado e contribuírem para o seu funcionamento, serão mantidos e terão assistência. Os miseráveis ficam ali, agarrados à beira desse Estado. Enquanto conseguirem ir sobrevivendo às suas custas, eles existem. Quando não suportam mais, são excluídos’. Precisa clareza maior, para descrever o quadro da nossa desigualdade galopante? Foi brilhante e didático, o historiador.

Eis que agora, em plena pandemia, o governo terá de olhar para esses da beirada. Por uma simples razão. Eles estão vivos e suas vidas contam. É dever do Estado, qualquer que seja ele, preservar vidas e cuidar do bem-estar de seus cidadãos. Por uma razão simples. Esses “miseráveis”, carregam nas costas o bom funcionamento do país. São eles, em suas jornadas que se iniciam às três da manhã, com viagens de até três horas até o trabalho e retorno à casa às 22h, que seguram o mapa do Brasil dentro de suas linhas divisórias, em relativa ordem.

No dia 11 de março, quando a doença já era grande ameaça ao país, escrevi um artigo sob o título: “Brasil em tempo de cononavírus: pão ou sabão?”, questionando como manter essa população que o historiador de forma apropriada chamou de “miseráveis”, ou “excluídos”, dentro dos padrões de higiene que o Ministério da Saúde apregoava? Como fazê-los seguir as medidas salvadoras, se em cada casa na periferia famílias se amontoam e transpiram juntas, emboladas no mesmo quarto, sem ventilador ou ar condicionado, por que não há dinheiro para esses luxos?

Agora, diante da realidade crescente das mortes acontecendo e dos “empreendedores” ou “autônomos” - como Paulo Guedes passou a denominá-los -, já com meio corpo para dentro das estatísticas da pandemia, o governo finge se assustar. Tenta uma iniciativa paliativa, da ordem de R$ 200,00 para cada “informal”. Onde buscá-los? Como cadastrá-los? De acordo com dados do IBGE a renda mensal dessas pessoas – que nem sequer têm CNPJ-, gira em torno de R$ 1.355,00 ao mês. A dos sem carteiras empregados no setor privado, R$ 1.411,00. 

Ficar sem esta grana e substituí-la por um bônus concedido pelo governo, durante a quarentena, significa deixar, só na farmácia, R$20,00 para o álcool gel.  Donde se conclui que 10% deste dinheiro, se destinará a salvar a própria pele. E o restante das despesas, doutor?

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não é de hoje, diz que o melhor do Brasil é o povo brasileiro. E ele tem toda razão. Ontem, em uma live digna de um estadista, Lula voltou a pedir: salvem este povo. Primeiro as suas vidas, depois a Economia. 

É possível que Guedes faça ouvidos moucos, e aproveite a crise para pisar mais forte nos dedos desta gente, jogando-as de vez no precipício. Talvez assim, parem de onerar o Estado. Porém, ele precisa saber que, passada a crise, a madame que infectou a doméstica porque não podia abrir mão dos seus serviços na tarefa de desfazer a mala trazida da Itália, recheada de vírus, não vai fazer a economia do país andar. Portanto, seu Guedes. Pague para mantê-los vivos. O Brasil vai precisar ser reconstruído. E será esta parcela da população, a primeira a voltar ao batente, abrindo as salas das empresas, desinfetando-as, para que o país volte a funcionar. Ou não verás país nenhum.

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