Guerra

"Na Venezuela, montou-se o cenário ideal para uma operação 'false flag'. Operação false flag ou operação de falsa bandeira são operações conduzidas por governos ou grupos que visam culpar 'inimigos' pela violência cometida, criando-se, assim, condições propícias para a derrubada de regimes ou para a deflagração de conflitos", diz o colunista Marcelo Zero; "Ao se submeter ideologicamente ao belicoso 'trumpismo', ignorando seus próprios interesses, o Brasil renunciou a ter qualquer presença e influência em nosso vizinho", afirma; "Com Bolsonaro, o Brasil tornou-se inimigo de si mesmo"    

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Guerra (Foto: Esq.: Reuters / meio (Carlos García-Reuters) / Dir.: Alan Santos - PR)

Na Venezuela, montou-se o cenário ideal para uma operação “false flag”.

Operação false flag ou operação de falsa bandeira são operações conduzidas por governos ou grupos que visam culpar “inimigos” pela violência cometida, criando-se, assim, condições propícias para a derrubada de regimes ou para a deflagração de conflitos.

A história está cheia de exemplos de operações desse tipo.

Um exemplo clássico é o Incidente de Mundken ou Incidente da Manchúria. Em 1931, o Japão que ocupava a Manchúria e estava interessado em ocupar o resto da China, explodiu um setor de uma ferrovia japonesa e culpou ativistas chineses pelo crime. Isso serviu de pretexto para a ulterior invasão e ocupação da China.

O incidente do Golfo de Tonquim, que justificou a escalada bélica dos EUA no Vietnã, é outro exemplo clássico de operação de falsa bandeira.

Entretanto, uma operação desse tipo na Venezuela se assemelharia mais à famosa Operação Ajax, perpetrada pelos EUA e o Reino Unido contra o governo legítimo do iraniano Mohammed Mossadegh, em 1953.

Mossadegh havia nacionalizado o petróleo iraniano, em 1951. Isso despertou a ira de britânicos, proprietários da Anglo-Persian Oil Company e de seus aliados norte-americanos.

À semelhança da Venezuela de hoje, a operação começou com um boicote contra o petróleo iraniano e a um cerco econômico e comercial contra o Irã. Isso criou uma crise econômica que ocasionou desabastecimento de produtos essenciais.

Mais tarde, a CIA e o serviço secreto britânico (MI-6) contrataram um “rei” farsante e títere, o Xá Reza Pahlevi, para nomear, por “decreto real”, um governo alternativo liderado por Fazlollah Zahedi, um general que havia sido Ministro do Interior de Mossadegh.

Zahedi, o Guaidó iraniano, mandou o Coronel Nematollah Nassiri, da Guarda Imperial, força de elite, prender Mossadegh. Contudo, Mossadegh, que ainda tinha apoio popular e de setores das forças armadas, resistiu e encarcerou Zahedi.

O Xá fugiu do país e o golpe pareceu ter fracassado.

No entanto, cerca de 4 dias depois, em 19 de agosto, a CIA e o MI-6, lançaram outra ofensiva.

Segundo documentos desclassificados da própria agência norte-americana, a CIA contratou bandidos e mafiosos de Teerã para promover distúrbios contra Mossadegh. Além disso, foram contratadas também “caravanas” que marchariam do interior do país até Teerã para exigir a renúncia de Mossadegh e o fim da carestia.

O resultado foi um conflito que resultou na morte de pelo menos 800 pessoas, a maioria pelas mãos dos mafiosos contratados pela CIA. No mundo inteiro, porém, foi difundida a notícia de que o “ditador” Mossadegh havia “massacrado” seu próprio povo.

Em consequência, ele foi preso e condenado.

Assim, o Xá Pahlevi assumiu o poder, com o apoio dos EUA e do Reino Unido, voltou a abrir a exploração petrolífera ao Ocidente e instaurou uma das ditaduras mais sanguinárias da História.

Pois bem, no dia 23 fevereiro, ou nos dias imediatamente posteriores, pode acontecer, na Venezuela, algo semelhante ao acontecido no dia 19 de agosto de 1953, no Irã.

Segundo informações dos serviços de inteligência venezuelanos, a CIA já teria contratado, em dólar, os “serviços” de bandidos venezuelanos para promoverem distúrbios e atos de violência armada. Além disso, grupos de paramilitares colombianos já estariam infiltrados nas planejadas “caravanas humanitárias”, uma das quais chegaria até a fronteira com o Brasil.

De acordo com informações da chancelaria russa, os EUA pretendem fazer penetrar “forças especiais” (comandos) em território venezuelano, por meio das “caravanas humanitárias”.

A ideia é gerar distúrbios, inclusive com mortes, para aumentar a pressão interna contra o governo de Maduro ou mesmo para justificar, se necessário, uma intervenção militar contra a Venezuela.

Saliente-se que, no golpe contra Chávez, ocorrido em 2002, essa tática foi usada pelos golpistas. Grupos armados da oposição atiraram contra as multidões que se manifestavam contra ou a favor de Chávez. A mídia, que apoiava o golpe, difundiu as imagens dos grupos armados como se fossem “chavistas que disparavam contra o povo”.

As escaramuças já começaram. Opositores a Maduro “denunciam” que mulher venezuelana teria sido morta na fronteira com o Brasil. Isso poderia ser apenas o começo.

Mesmo que tal não venha a ocorrer, e esperamos que não ocorra, a “ajuda humanitária”, planejada pelos EUA, não tem nada de humanitária. Visa somente o objetivo político de derrubar o governo eleito da Venezuela.

O governo venezuelano, diga-se de passagem, já solicitou oficialmente ajuda humanitária, autêntica ajuda humanitária, pelo canal competente, a ONU. Já foi enviada a lista dos produtos de que a Venezuela realmente precisa.

Evidentemente, a autêntica ajuda humanitária não virá de quem provoca a “crise humanitária”, com boicote financeiro, econômico e comercial, tal qual aconteceu no Irã.

Como no Irã, em 1953, o circo foi armado para a derrubada de um regime que coloca em risco o suprimento de petróleo para os EUA e o Ocidente. A Venezuela, até mesmo em razão do boicote econômico dos EUA, já comprometeu parte de suas reservas para a China, que ofereceu em troca empréstimos expressivos. A Rússia, que também fez empréstimos para a PDVSA, tem, da mesma forma, interesses econômicos fortes na Venezuela e uma robusta cooperação na área militar.

Portanto, e ao contrário do que aconteceu com o Irã na década de 1950, a Venezuela tem aliados poderosos. Isso ocasiona risco de internacionalização do conflito interno da Venezuela, o que poderia transformar a América do Sul, uma região pacífica, sem conflitos geopolíticos e com fronteiras consolidadas, numa espécie de novo Oriente Médio. 

Por conseguinte, os cenários possíveis são muitos e imprevisíveis.

E em todos eles, o grande perdedor, além do povo venezuelano e da paz, será o Brasil.

O Brasil era quem mais lucrava com uma Venezuela estável e independente, membro pleno do Mercosul. Contudo, ao se submeter ideologicamente ao belicoso “trumpismo”, ignorando seus próprios interesses, o Brasil renunciou a ter qualquer presença e influência em nosso vizinho.

No Brasil, é o próprio governo que promove uma operação de falsa bandeira. Com Bolsonaro, o Brasil tornou-se inimigo de si mesmo.

Em vez de manifestar respeito real à bandeira do Brasil, temos um governo que bate continência para a bandeira dos EUA e que se submete ao Comando Sul.

Poderá não haver uma guerra na Venezuela, mas o Brasil, com esse governo, está em guerra contra si.

 

 

 

 

 

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