Guerra Fria

"Militares fizeram circular que ninguém vai dar um golpe a favor do presidente, nem contra ele. Toffoli apagou de vez a fogueira criticando o ativismo judicial de Alexandre de Moraes", diz o colunista Ricardo Cappelli. "Como nenhum dos lados possui força suficiente para lançar o míssil nuclear, as provocações vão escalando, mas ninguém aperta o botão vermelho"

(Foto: Carolina Antunes/PR)
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A postura de Bolsonaro no último domingo foi uma manobra defensiva. Após derrotas sucessivas no judiciário, o capitão sentiu que precisava reagir. 

O ministro Celso de Mello ignorou a possibilidade de Moro ser denunciado por calúnia, presente na petição do procurado geral da República. Autorizou apenas a abertura de inquérito para apurar as denúncias contra o presidente. 

O ministro Alexandre de Moraes determinou que os delegados do inquérito das fake news não fossem mudados. Em seguida, suspendeu a nomeação de Ramagem para a direção da Polícia Federal.

Foi a vez de Celso de Mello novamente entrar em campo e determinar que Moro fosse ouvido pela PF no prazo máximo de cinco dias. Uma manobra para que o depoimento acontecesse antes que Bolsonaro nomeasse o novo Diretor Geral.

Na sequência, Barroso deferiu liminar impedindo a expulsão dos diplomatas venezuelanos. 

O STF agiu porque é vitima constante de inaceitáveis difamações e agressões vindas do "núcleo ideológico" do governo. 

Logo após o incêndio, os bombeiros entraram em campo. O ministro da Defesa, ex-assessor de Toffoli no STF, fez uma "tabelinha" com o presidente do Supremo.

O general soltou uma nota reafirmando o compromisso com a democracia. Militares fizeram circular que ninguém vai dar um golpe a favor do presidente, nem contra ele. Toffoli apagou de vez a fogueira criticando o ativismo judicial de Alexandre de Moraes.

Guerra Fria é assim. Como nenhum dos lados possui força suficiente para lançar o míssil nuclear – nem consegue prever com segurança qual seria o desfecho -, as provocações vão escalando, mas ninguém aperta o botão vermelho.

Rodrigo Maia já deixou claro que não pretende colocar um impeachment em sua biografia. Não esquece os destinos de Ibsen e Cunha, algozes de Collor e Dilma. Também não é bobo, sabe que os pedidos de impedimento em sua mão são um valioso “seguro”.

Com o refugo do presidente da Câmara, sobra como “noiva” de um eventual impeachment o PGR. Por que ele denunciaria o presidente? Circula que Augusto Aras deseja a vaga no STF. Surgirão duas. A indicação é de Bolsonaro. Ou de Mourão. Vale o risco?

O fenômeno de derretimento das democracias liberais parece ser global. O curioso é que por aqui governo, oposição e instituições participam deste “esforço”. Bolsonaro milita por isso, é o sócio majoritário, mas todos possuem algumas “ações”. 

A democracia é uma abstração inventada pela espécie capaz de acreditar e cooperar em torno de coisas que não existem. Quando a regra muda de acordo com as conveniências, ou ela se mostra incapaz de resolver os problemas concretos da vida das pessoas, o pacto social que sustenta a abstração pode estar em risco.

No Oriente, onde a covid-19 foi controlada com maestria, outras formas de governo “vão muito bem, obrigado”. A principal potência do século XX triunfou possuindo apenas dois partidos políticos. Existe apenas um na gigante emergente do século XXI. Sinal dos tempos?

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