Há um ano uma facada abriu caminho para a eleição de Bolsonaro

"Há exatamente um ano, um talho de 3cm, permitiu a passagem de 57 milhões de votos para a urna de Jair Messias Bolsonaro, rumo ao Palácio do Planalto", diz Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia. Para ela, esta seria uma boa data para que um dos coordenadores de campanha, Gustavo Bebianno, explicasse "por que o deputado federal do seu partido, Delegado Francischini (PSL), protocolou, há oito dias da eleição, - no dia 20 de outubro - na Justiça Federal de Juiz de Fora, pedido para que Adélio Bispo de Oliveira fosse impedido de dar entrevista"

(Foto: Reprodução)

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia - Há exatamente um ano, um talho de 3cm, permitiu a passagem de 57 milhões de votos para a urna de Jair Messias Bolsonaro, rumo ao Palácio do Planalto. Até então, sua candidatura demonstrava um bom potencial, mas nada irreversível para os demais candidatos, todos nas ruas do país atrás de eleitores.

No dia 5 de setembro de 2018, o quadro eleitoral para a escolha do novo presidente da República do Brasil, a ser feita em outubro, apontava Jair Messias Bolsonaro (PSL) com 22% da preferência do eleitorado. Seu principal opositor, Fernando Haddad, recém-chegado ao páreo, depois que Lula - o candidato preferido nas pesquisas foi impedido de concorrer - estava com 6%. A única com um índice mais próximo do de Bolsonaro era a candidata Marina Silva (Rede), com 12%, mas que não oferecia perigo, como constatavam os analistas políticos, e enfim ficou comprovado no constrangedor resultado: apenas 1% dos votantes digitaram o seu número nas urnas.

No dia seguinte (6 de setembro), ainda embalado com o resultado que o mantinha na liderança das pesquisas, o candidato Bolsonaro, em viagem por Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, abriu mão do colete à prova de bala, e se deixou levar no ombro de um correligionário, num mar de braços e bocas aos gritos de “Mito”. Desceu o calçadão da Rua Halfeld, o coração da área de comércio da cidade, em direção à Praça da Estação, onde faria um comício, para um público estimado pelo movimento “Direita Minas” em 15 mil pessoas.

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No meio da multidão, Adélio Bispo de Oliveira, 40 anos, seguia o fluxo, amassado no empurra-empurra. Não era ninguém. Apenas mais um dos tantos que engrossavam a caminhada rua abaixo. Até que num gesto rápido e certeiro, perfurou com uma facada o abdômen daquele que, dali a um mês, seria escolhido para comandar o destino do país. 

Há inúmeras versões para esse momento, mas oficialmente o médico Luiz Henrique Borsato, 42 anos, que o operou, esclareceu à Folha de São Paulo, nesta semana, o principal questionamento que todos fazem: por que o ferimento não sangrou? “Quando o objeto penetrou o abdômen, abriu uma ferida pequena, de mais ou menos 3 cm. Não era uma grande lesão circunferencial, mas retilínea. A musculatura se contraiu e bloqueou a hemorragia externa. Havia sangue, claro, mas no interior do abdômen.” 

As teorias em torno do caso, porém, vão continuar para sempre, tais como as que giram em torno da morte do ex-presidente americano, John Kenneddy, e do Brasil, Getúlio Vargas. Há quem diga que tudo não passou de uma encenação, para consolidar a posição de Bolsonaro como preferido. 

Encenação ou não, fato é que o episódio arrombou a “Lei Falcão”, que determina o tempo na TV nas eleições. Editores perderam a noção da hora – e das regras do jogo – e passaram a uma pauta única, 24h por dia. Tanto tempo de exposição numa situação de vítima ia dar no que deu. Sem abrir a boca, atitude que bem podia adotar agora, Bolsonaro foi eleito com o que tinha mostrado aos eleitores até ali. Uma obscura carreira no baixo clero, como deputado, e uma coleção de processos por homofobia, racismo e misoginia. 

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Da infância pobre em Montes Claros, município no norte do estado de Minas Gerais, distante 422 km da capital, Adélio foi alçado às manchetes dos principais jornais do mundo e a todas as chamadas de páginas das diversas mídias existentes. Criado num cenário em que predomina o cerrado, mas já pontuado por paisagens com características da caatinga, pela proximidade do semiárido, Adélio não é o que se pode chamar de “um forte”, mas, com certeza, naquele momento foi, no mínimo, impetuoso. Inconsequente é um adjetivo que não cabe, levando-se em conta que depois de preso e periciado, foi tido como alguém sujeito a confusões mentais.

O diagnóstico é da perícia médica, feita no dia 21 de setembro, no Presídio Federal de Campo Grande (MS), onde se encontra preso, pelo psiquiatra forense Heldy Logo. Embora maiores detalhes da avaliação psiquiátrica sigam em segredo de justiça, o parecer pedido pelos advogados apontou que o agressor do candidato à presidência, sofre de “transtorno delirante grave”. 

Há os que acreditam na facada, mas apostam que ela foi desfechada a mando de alguém da esquerda, para tirá-lo do caminho. Há, ainda, os que nem creem que a facada aconteceu. E há, também, quem aposte num atentado foi forjado pelo próprio candidato, necessitado de passar por uma cirurgia para a retirada de um tumor no estômago. Esta teria sido a forma de fazer isto sem prejudicar a sua imagem.


Fato é que há muitas pontas a serem amarradas neste episódio. Os próprios delegados da PF contatados, se dizem decepcionados com o trabalho da imprensa. Consideram superficiais as reportagens feitas. Esta seria uma data significativa para o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, e um dos coordenadores de campanha, Gustavo Bebianno, explicar, por exemplo, por que o deputado federal do seu partido, Delegado Francischini (PSL), protocolou, há oito dias da eleição, - no dia 20 de outubro - na Justiça Federal de Juiz de Fora, pedido para que Adélio Bispo de Oliveira fosse impedido de dar entrevistas. 

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