Há um mistério de intimidade entre Lula e o povo: ele olha o Brasil do lugar do pobre

O jornalista Mauro Lopes reflete sobre a ligação entre Lula e o povo brasileiro: "Qual o segredo, qual a experiência, que qualidade conforma a ligação entre Lula e o povo brasileiro?"; este domingo, quando completou-se um ano de encarceramento de Lula, foi dia de refletir e experimentar a mística desta relação única: "A fonte desta relação é identidade. Lula vê, sente e pulsa o Brasil a partir do mesmo lugar do povo brasileiro: do lugar do pobre"

Há um mistério de intimidade entre Lula e o povo: ele olha o Brasil do lugar do pobre
Há um mistério de intimidade entre Lula e o povo: ele olha o Brasil do lugar do pobre

Por Mauro Lopes para o Jornalistas pela Democracia - Qual o segredo, qual a experiência, que qualidade conforma a ligação entre Lula e o povo brasileiro? Há algo para além, muito além da luta política conjuntural do país quando olhamos para o ano de encarceramento do ex-presidente, pontuado por manifestações no Brasil e no mundo neste domingo. Passei o domingo a refletir sobre isso, e relatei o resultado dessa contemplação no programa Paz e Bem, na madrugada desta segunda (veja aqui). 

O que assistimos neste ano da prisão de Lula pertence à dimensão da profundidade e espiritualidade do povo brasileiro na relação com seu maior líder em toda a história.

A fonte desta relação é identidade.

Lula vê, sente e pulsa o Brasil a partir do mesmo lugar do povo brasileiro: do lugar do pobre.

É impressionante sua clarividência na última manifestação estruturada que fez antes da prisão, pouco mais de um ano atrás no livro “Luiz Inácio Lula da Silva - a verdade vencerá” (Boitempo, 2018) que tive a honra de editar. Lula enxerga sua ascensão ao poder deste lugar, do lugar do pobre:

“Eu queria lembrar a vocês que o meu discurso de vitória na avenida Paulista foi muito simples (...): ‘Se eu terminar o meu mandato e todo brasileiro tiver tomado o café da manhã, almoçado e jantado, já terei cumprido a meta de minha vida’. Por quê? Porque não era pouca gente que tinha fome neste país; eram nada menos que 54 milhões de pessoas, ou seja, talvez a população do que seria o décimo país do mundo não tinha o que comer. As pessoas não comiam. (...) E eu achava que só era possível acabar com a fome se incluíssemos os pobres na política, conseguíssemos fazer com que eles começassem a entrar no orçamento da União” (p. 26-27) - assista a íntegra desta declaração de Lula no programa Paz e Bem.

De onde vem esta visão, que nenhum presidente antes dele teve? Lula foi pobre, nasceu em uma família miserável, passou fome, migrou do Nordeste para São Paulo como milhões e milhões de seus irmãos nordestinos, para construir o Brasil e ser chupado como bagaço de laranja pelas elites. Ascendeu socialmente como líder sindical e depois na vida política, mas não traiu sua biografia. Manteve seu olhar para o mundo a partir do lugar do pobre.

Este é o título de um livro de Leonardo Boff, “Do lugar do pobre” (Vozes, 1984), escrito no auge da Teologia da Libertação, movimento que teve influência decisiva na formação do PT e de Lula -ao lado do novo sindicalismo da época e de uma fatia da intelectualidade acadêmica. Escreveu Boff: “Deus não é apenas o supremo garante da ordem justa, como estamos habituados a crer, mas é principalmente o que protege o direito dos sem-poder, dos injustamente perseguidos e dos pobres. Deus não toma o partido dos poderosos, que dispõem do direito e o praticam em benefício próprio, mas tomar partido dos que são violados em sua dignidade e justiça” (p. 72). Mais adiante, Boff formulou: "Porque Deus é Deus de vida, toma partido do pobre e do oprimido, ameaçados em sua vida. O pobre não é tal simplesmente porque é preguiçoso. (...) Deus toma partido dele porque toma partido da vida. (...) Deus é Deus particularmente dos pobres. O direito dos pobres, que é um direito ligado à vida, ao seu sustento e desenvolvimento, é direito de Deus" (p.74).

Esta é a visão histórica dos profetas na Bíblia, recuperada na América Latina. É cristalino o paralelismo entre o depoimento de Lula e o texto de Boff.

Lula é mais que líder sindical, mais que político, mais que ex-presidente do Brasil, mais que estadista aclamado em todo o mundo. Ele pertence à linhagem histórica dos profetas bíblicos. O povo percebeu isso, sentiu, experimentou. É a mística da ligação entre Lula e seu povo. 

PS: A foto que ilumina este texto é de é uma rara -talvez única- foto de Lula quando criança antes de migrar para São Paulo. Aos 4 anos de idade, em 1949, ao lado da irmã, em Garanhuns

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