Haddad, a Folha e o diálogo com a burguesia nacional

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A existência de uma burguesia nacional remete, historicamente, à necessidade de emancipação do Brasil junto ao cenário político e econômico mundial. Sua importância pode ser medida através da sua capacidade de impulsionar a revolução democrática, proporcionando a presença e a participação de toda a população em seu desenvolvimento, e a revolução nacional, resultando no consequente rompimento com a situação de dependência externa em relação aos países dominantes. Como apontou Florestan Fernandes[1], as revoluções burguesas atrasadas têm a direção política monopolizada por burguesias ultra conservadoras e dependentes, que fecham o espaço político para a participação popular ao mesmo tempo que pactuam com o imperialismo (no caso do Brasil, o estadunidense), subordinando o capitalismo ao subdesenvolvimento devido à desigualdade social e à manutenção de privilégios.

Na última coluna que encerrou sua colaboração com a Folha de S. Paulo, Fernando Haddad afirmou que, depois da intensa campanha da grande mídia contra ele durante as eleições presidenciais de 2018, aceitou ser colunista daquele jornal por entender que se fazia necessário manter o diálogo com uma fração maior da sociedade brasileira para conter os danos causados pelo atual presidente – o capetão no inferno da pandemia. Após ser desqualificado pelo jornal por apoiar a candidatura de Lula para presidente, em 2022, Haddad decidiu guardar as canetas concluindo que, ao utilizar de “expediente discursivo desrespeitoso, ao estilo bolsonarista, esta Folha demonstra pouca compreensão com gestos de aproximação e sacrifica as bases de urbanidade que o pluralismo exige” [2]. Fernando Haddad fez bem em romper, mostrou coerência e dignidade, e se manteve como referência no campo político da esquerda.

Como a história nos mostra e registra, a empresa Folha da Manhã (a qual pertence o jornal Folha de S. Paulo) apoiou o golpe de 1964, deu suporte político à ditadura e ofereceu narrativa jornalística para legitimar as versões oficiais divulgadas pelos governos militares a fim de esconder os métodos políticos cruéis praticados pelo Estado[3]. Já na chamada “ordem democrática”, o jornal apoiou o golpe de 2016, contribuiu com a narrativa da operação Lava Jata, de modo a angariar apoio popular para a prisão de Lula, viabilizando a ascensão de Bolsonaro ao poder. Tudo isso para garantir a efetivação do projeto econômico neoliberal, de interesse de seus proprietários, a família Frias de Oliveira, cujos negócios e principal fonte de renda estão ligados ao mercado financeiro. Desses fatos, todos sabíamos (até as pedras de marte!), incluindo Haddad.

É importante lembrar que Lula também tentou dialogar e fortalecer a burguesia nacional, e isso incluía os grandes órgãos de imprensa que mantiveram a sua fatia no bolo de financiamento estatal de propaganda oficial, tendo sido as Organizações Globo e suas afiliadas as principais beneficiadas[4]. Enquanto patrocinava grandes empresários, o governo Lula foi o que mais fechou rádios comunitárias[5]nas últimas décadas, mostrando que foi um erro político ter apoiado financeiramente os seus futuros algozes. É importante salientar que, naquele caso, os bilhões de reais de dinheiro público destinado à publicidade alimentou os cofres das empresas midiáticas dominadas pelas velhas oligarquias regionais e pelas igrejas neopentecostais que, no Congresso Nacional e junto à opinião pública, foram os pilares que sustentaram o golpe de 2016 e elegeram o capetão, em 2018. Além da grande mídia, compunham essa burguesia nacional figuras ligadas ao mercado financeiro e às grandes empresas de engenharia, alimento e varejo, nomes como Marinho, Frias, Mesquita, Abravanel, Pinheiro, Odebrecht, Hang, Batista, entre outros oportunistas de primeira hora que não hesitaram em jogar o país no caos para resguardar seus pescoços e interesses.

Como a história brasileira nos mostra, em 1964, mas também em 2016, sempre que a burguesia esteve diante da possibilidade de mudanças que ameaçaram sua hegemonia econômica, política e social, não hesitou em utilizar meios golpistas e violentos para garantir seus interesses e privilégios, lançando mão de todos os recursos necessários e disponíveis (do fisiologismo político junto às instituições do Estado, passando pelo apoio na grande mídia até as ameaças militares). As forças progressistas e populares precisam entender que a burguesia brasileira possui interesses que destoam inteiramente do projeto popular nacional desenvolvimentista e emancipatório. Para eles, o povo deve estar em um único lugar: o da resignada e dócil servidão, à disposição de seus privilégios e regalias.

A partir do episódio com Haddad, ficam as questões: como dialogar com quem não quer diálogo e jamais hesita em utilizar a força física, falsas narrativas, meios ilegais e escusos para alcançar seus objetivos, tantas vezes em detrimento de vidas? Como ser Republicano e buscar o bem comum com golpistas que desestruturam as instituições em nome de interesses pessoais? Entre tantos acertos dos governos progressistas, um dos erros foi acreditar que a elite aceitaria as transformações sociais em nome da democracia e jamais partiria para o golpismo, mantendo intacto o pacto da redemocratização. Esqueceram-se que a chamada “nova República” era dominada pelos velhos grupos políticos que sustentaram a ditadura.

Não haverá avanço real enquanto essa elite atrasada, escravocrata, patrimonialista, colonizada e racista – que aceitou Bolsonaro no poder para adiar a inevitável mudança – se mantiver intacta. O campo progressista precisa aprofundar as demandas e definir rupturas, e isso inclui uma frontal oposição aos grupos da grande mídia que apoiaram a ditadura e vivem para desestabilizar a democracia em nome dos seus interesses. Lula é peça chave neste processo por gozar de ampla capacidade de mobilização popular e, portanto, condições de enfrentamento político com a burguesia nacional reacionária e regressista. A transformação necessária virá com reformas nas estruturas do Estado, no poder judiciário, nas forças armadas, no sistema político e eleitoral, com o aprofundamento da democracia e a instituição de mecanismos para a efetiva prática da cidadania. O exemplo de Lula, preso por 580 dias acusado de crimes que não cometeu, está aí para nos mostrar: não se faz pacto com burguês safado.

  [1] FERNANDES, F. A Revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. [2]https://www1.folha.uol.com.br/colunas/fernando-haddad/2021/01/despedida.shtml [3] https://www.brasil247.com/blog/a-folha-falha-com-a-verdade-historica-5s7vksyw [4] https://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2015/06/29/tv-globo-recebeu-r-62-bilhoes-de-publicidade-federal-com-pt-no-planalto/ [5] https://www.redebrasilatual.com.br/politica/2016/04/ex-ministro-diz-que-burocratizacao-afastou-governo-de-movimentos-sociais/

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