Hegemonia compartilhada

Ex-ministro da Justiça e ex-governador Tarso Genro escreve sobre "a emergência de 'baixo para cima' de uma esquerda plural com lideranças novas superando as fronteiras apertadas das burocracias partidárias"

(Foto: Reprodução)
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Por Taso Genro

(Publicado no site A Terra é Redonda)

Se a mídia tradicional usasse os mesmos critérios que usou para tentar exterminar o PT, condenar Lula e promover a deposição da presidenta Dilma, para noticiar a morte do homem negro assassinado dentro do Carrefour em Porto Alegre, seu relato seria diferente. Diria, em primeiro lugar, que o assassinato de João Alberto não começou na quinta-feira trágica, que os diretores do Carrefour tinham o “domínio do fato”, que o clima de ódio e o fortalecimento do racismo, no País, têm autores bem conhecidos: fazem “arminhas”, medem filhos de ex-escravos em “arrobas”, acham que progresso é incendiar florestas e tratam os indígenas como mercadores de Coca-Cola, que entregam a preço vil a biodiversidade da Amazônia.

É quando a mídia, sustentada pelos tentáculos do mercado, precisa manipular seus próprios conceitos para não se chocar com os seus “assinantes”, transformando em fato “singular”, o que já é um sintoma universal da sociedade adoecida pelo fascismo: se o assassinato de negros jovens “deixou” de ser um fato isolado (que nunca foi, na verdade), em nosso País, mas passou ser um fato político, isso precisa ser contado pela metade, para não agredir os donos reais do poder. O clima histórico, então, se desliga do assassinato e ele aparece apenas como um “excesso”, não como uma doença política que evidencia o fascismo.

A ansiedade destrutiva de maior parte da mídia tradicional, com seus “especialistas” – internos e externos –, anunciando mais uma vez a decadência do PT, mais uma vez vai fracassar. Independentemente dos resultados finais deste domingo, o que já fica evidente é o fracasso do bolsonarismo (como opção democrática eleitoral), o enfraquecimento das religiões do dinheiro, a estabilidade do PT – como partido de esquerda capaz de fazer alianças – e a emergência, em determinados espaços políticos, de um frentismo democrático e social de esquerda.

Este neofrentismo traz o fortalecimento de líderes progressistas – da esquerda e da centro-esquerda –, em que pese os seus dissensos em outras regiões, que poderá se expandir nas lutas que vão se radicalizar contra o fascismo e o ultraliberalismo. Se ambos – fascismo e ultraliberalismo – estivessem inscritos no grupo dos Cavaleiros do Apocalipse, não relutaria em apontá-los como signos de dois destes emissários do inferno: a morte e a peste.

A morte violenta é o atrativo mais forte do fascismo, para as mentes doentias e os corpos desesperados pela miséria; a peste, que vem da fome e do vírus, é a palavra que revela o Estado liberal, ausente para assistir os mais débeis, no momento em que o capitalismo expressa toda a sua vocação necrófila e escolhe para liderar – na crise das suas crises – tipos como Trump, Mussolini, Hitler e Bolsonaro.

As eleições municipais, ainda informadas pela campanha da “extinção da política”, tratada com esmero e carinho pela mídia tradicional, com a maioria dos seus jornalistas, mostra contudo que existem caminhos possíveis. E estes já têm representação em pessoas e partidos, frações de partidos, movimentos orgânicos e espontâneos, que vem “de baixo para cima”, a orientar a nova unidade política para o futuro.

Já muda – neste momento – o significado de líderes populares como Lula, Boulos, Ciro, Haddad, Manoela, Dino, Freixo, Requião e Marina, originários de um vasto campo de representação política, que precisa se unir para salvar o Brasil. Todos já foram unidos – espontaneamente ou não – numa das mais espetaculares reviravoltas políticas depois do Golpe, capitaneada pela candidatura de Guilherme Boulos em São Paulo que foi para o segundo turno num Estado vigiado pela direita mais cavalar, sempre orientada pelas vitrines da FIESP, na “elegante” Avenida Paulista.

Nas eleições do Rio, falece a pior liderança do evangelismo do dinheiro e, em Porto Alegre, a esquerda se alça – de novo – ao segundo turno, com brilho; no Recife surge uma estrela, em Fortaleza a unidade difícil emerge como unidade possível contra a extrema-direita, com o PT tendo uma grande influência em “tudo isso”. E o “tudo isso” é,  sem dúvida, a derrota eleitoral imposta a este governo primário e fascistóide, que a mídia tradicional ajudou a eleger e ainda não desistiu de salvá-lo.

Dados colhidos pelo cientista político Jairo Nicolau nas trinta e oito maiores cidades do País com mais de 500 mil habitantes indicam qual foi o partido mais votado para as Câmaras de Vereadores, nas referidas comunidades. Foi o PMDB, o DEM, os “Republicanos”? Não! Foi o PT. Não foi o carcomido “Novo” ou o PTB. O que – por si só  demonstra que, se o Partido dos Trabalhadores não está mais na sua “era de ouro” eleitoral (o que não vai mais ocorrer na situação de uma hegemonia compartilhada dentro da esquerda), o PT ficou mais forte nas cidades politicamente mais influentes do país.

Para quem quer o crescimento da esquerda como conjunto e busca também a ampliação de um pólo democrático contra o fascismo bolsonarista — apelidado de “comunismo de direita” pelo sempre original General Santos Cruz –, estas eleições foram estimulantes e inovadoras. Estimulantes, pela possibilidade de emergência de uma esquerda plural, que se revela induzida principalmente de “baixo para cima”; e foram inovadoras porque mostram o surgimento de lideranças novas, que superaram as fronteiras apertadas pelas burocracias dos seus próprios partidos e expandiram o seu potencial eleitoral, muito além das suas siglas originárias.

Tenho assistido, porém, algumas manifestações de jornais de referência, como a Folha de São Paulo, que destacou a necessidade de eliminar o bolsonarismo e a esquerda, para defender um “centro democrático”, e de  jornalistas de direita/extrema direita – sempre predominantes na mídia tradicional –, que começam a fazer um novo jogo, semelhante à mistificação que elegeu Bolsonaro em nome do combate aos “dois extremos”, que seriam, à época, Haddad e Bolsonaro.

Temos que observá-los com cuidado, pois fazem um jogo que trata de opor, de um lado, a esquerda social e partidária, a um falso e novo “centro” que, ao se livrar dos símbolos mais perversos do bolsonarismo protofascista, poderia garantir as reformas ultra-radicais da direita econômica, ora brecadas pela rusticidade política do “guia” que elegeram em 2018.

Para esta estratégia dar certo, todavia, precisam convencer o povo que a direita nova e a tradicional são este “novo centro” (Huck, Rodrigo Maia, Eduardo Leite, Dória) e que Bolsonaro não “deu certo” em função do seu “temperamento” incontrolável, não do ódio irracional e golpista que sempre exalou por todos os seus poros, contra tudo que é democrático e libertário. A criatura, porém, agora pode se rebelar contra os seus criadores porque estes, de uma parte, já se preocupam com o mau prestígio do Brasil no exterior, que pode prejudicar seus negócios e, de outra, porque Bolsonaro já promete ser um fracasso eleitoral nas eleições presidenciais.

A seguir, o bloco golpista ultraliberal precisa reafirmar a estratégia que desenvolveu no Golpe, “que bastaria tirar o PT para o Brasil dar certo”, substituindo-a por outra mais sofisticada: “as reformas que salvarão o Brasil só poderão ser feitas pelo centro”, que, na verdade, é a velha direita que deu o Golpe e carece de forças para administrá-lo, unida ao velho Centrão — “sempre ao seu dispor”!

E, assim, os 10 milhões de empregos prometidos pela reforma trabalhista desaparecerão no horizonte colorido dos comentaristas medievais, que ajudaram a forjar a “escolha difícil” (Onde estão?). Esta farsa, às vezes se apresenta como simples mentira repetida, outras como despolitização da História.

Quando as omissões do tempo histórico ocorrem para encobrir mortes como a de João Alberto, o poder já necessita de mentiras permanentes para sobreviver. E as mentiras permanentes são, não só a essência do fascismo, mas também a caracterização dos seus cúmplices, dentro e fora do Estado.

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