História sem Dilma não é história

Assusta o fato de que algumas das obras dispostas a reescrever a história emancipatória feminina no país insolentemente não mencionem a participação da ex-presidente Dilma Rousseff neste processo. Apenas por haver sido a primeira presidenta da República a omissão, por si só, já seria indesculpável

Brasília - DF, 02/08/2016. Presidenta Dilma Rousseff durante entrevista para Revista Fórum no Palácio da Alvorada. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Brasília - DF, 02/08/2016. Presidenta Dilma Rousseff durante entrevista para Revista Fórum no Palácio da Alvorada. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR (Foto: Marcelo Uchoa)

Qualquer pessoa minimamente comprometida com a luta pela superação da discriminação de gênero sabe que o patriarcado é um fenômeno social, histórico e cultural, que transcende nações e classes econômicas, projetando-se sobre normas morais, jurídicas e saberes científicos, os quais negativamente impactam na igualdade entre mulheres e homens, nos mais distintos ambientes de convivência, dos meandros do mercado de trabalho ao íntimo das famílias. O fenômeno é tão absoluto socialmente, que ações estatais, afirmativas ou judiciais, são insuficientes para impedir o seu alastramento. Somente com o engajamento direto e incisivo da sociedade na massificação de novas ideologias e comportamentos é possível alcançar-se um cenário de equilíbrio em termos de tratamento e oportunidades entre sexos e gêneros.

Saudável a nação que estimula o empoderamento da mulher, legitimando sua emancipação plena. No Brasil, apesar da persistente oposição do patriarcado, é inegável a potencialização de um reconhecimento progressivo da importância social feminina. O mercado editorial, por exemplo, vem difundindo um cartel cada vez mais especializado em estudos jurídicos, sociológicos e históricos sobre os temas da discriminação e da violência de gênero, do feminismo e da análise biográfica de mulheres que, no âmbito de suas ações, contribuíram ou vêm contribuindo com a luta pela justa equivalência nas relações sociais.

Apesar disso, assusta o fato de que algumas das obras dispostas a reescrever a história emancipatória feminina no país insolentemente não mencionem a participação da ex-presidenta Dilma Rousseff neste processo. Apenas por haver sido a primeira presidenta da República a omissão, por si só, já seria indesculpável. Entretanto, há, ainda, a circunstância objetiva do curso de toda uma trajetória de vida, desde a mais tenra juventude, dedicada corajosamente ao confronto da misoginia e à superação dos obstáculos impostos à mulher na vida familiar, na carreira profissional, no debate teórico, na esfera política. Não é honesto não considerar as contribuições efetivas da ex-presidenta à frente do executivo nacional. Jamais se viu, no país, tantas mulheres no comando de ministérios e estatais, tantas políticas públicas direcionadas ao segmento feminino, tantas leis aprovadas para inibição da violência de gênero e o incremento da inclusão social das mulheres.

Portanto, gostar ou possuir algum ressentimento contra a ex-presidenta Dilma não deslegitima sua consagração nos anais da história brasileira, sequer do mundo, como nome fundamental no processo de empoderamento feminino. Importante, inclusive, salientar, que o fato de ser mulher pesou na decisão de seu esdrúxulo afastamento do cargo para o qual fora eleita com mais de 54 milhões de votos. A prova disso foi a repulsiva campanha difamatória que teve que suportar durante toda sua saga à frente das mais elevadas pastas executivas nacionais, desde quando especulada como candidata à sucessão do ex-presidente Lula, ocasião em que, lutando contra um câncer, não foi poupada das mais desprezíveis insinuações, até o desfecho da criminosa conspiração golpista iniciada imediatamente após a reeleição de 2014, momento em que se deflagrou a maior e mais covarde empreitada social e institucional de degeneração moral à imagem de uma figura pública no Brasil, algo somente comparado, por razões de mesquinharia política e sordidez econômica, ao que presentemente se inflige, igualmente de maneira injusta, ao Ex-presidente Lula. Resumindo concretamente: um livro sobre mulheres brasileiras de destaque que não inclua a ex-presidenta Dilma não merece ser comprado, muito menos lido, por não refletir a verdade histórica. Sequer merece ser considerado livro.

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