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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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IGP-M de maio traz alívio, mas cenário macro segue pressionado

Índice acumula 3,8% no ano e 2,53% nos últimos doze meses, sinalizando que as pressões inflacionárias persistem

Sede do Banco Central em Brasília-DF - 29/10/2019 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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O Índice Geral de Preços — Mercado (IGP-M) de maio registrou alta de 0,87%, recuo expressivo em relação aos 2,4% apurados em abril. Ainda assim, o índice acumula 3,8% no ano e 2,53% nos últimos doze meses, sinalizando que as pressões inflacionárias persistem.

O destaque negativo continua sendo o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), componente atacadista do IGP-M, que avançou 0,95%. Apesar da desaceleração em relação ao índice de abril — próximo de 3% —, o resultado indica que os preços no atacado seguem sob forte pressão. No lado favorável, os preços agropecuários aliviaram, recuando para próximo de zero, puxados pela deflação no álcool e no açúcar. Em sentido oposto, o querosene de aviação explodiu, com alta superior a 50%, reflexo dos reajustes anunciados pela Petrobras.

Dentro do IGP-M, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), que representa cerca de 30% do índice geral, subiu 0,60%, com aceleração em alimentação e habitação. O núcleo do IPC avançou 0,42%, enquanto a difusão atingiu 64%, indicando disseminação ampla das pressões de preços. O componente de construção civil também pressionou, registrando alta de 0,88%, tanto em materiais e equipamentos (+1,21%) quanto nos serviços de mão de obra.

Diante desse cenário, o mercado passou a precificar a interrupção do ciclo de corte da Selic. A percepção dominante é de que, na reunião de quarta-feira, o Copom não cortará os juros — ou, em caso mais otimista, realizará um último corte de 0,25 ponto percentual para encerrar o ciclo. Isso tornaria o atual ciclo de afrouxamento monetário o mais curto da história recente, com apenas dois ou três cortes totalizando 0,75 ponto percentual. Segundo dados de mercado, há cerca de 70% de probabilidade de a Selic ser mantida em 14,5% na próxima semana. Os juros longos já reagiram com força: os vértices intermediários de cinco anos se aproximam de 15%, nível não visto há dois anos.

O contexto externo amplifica as dificuldades. O mercado de trabalho americano segue aquecido, com três meses consecutivos de criação de mais de 150 mil vagas, e o relatório JOLTS também aponta maior número de vagas por desempregado. Isso alimenta a possibilidade de alta de juros nos Estados Unidos no segundo semestre, o que seria especialmente adverso para o Brasil — e já há alguma probabilidade embutida na curva doméstica de eventual elevação da Selic, cenário que, embora não seja o mais provável, não está totalmente descartado.

O IPCA já corre acima de 5% no acumulado do ano, o petróleo se aproxima de cem dólares por barril, e o câmbio, que vinha resistindo próximo dos R$ 5,20, não tem espaço para absorver novos choques. Se o dólar romper os R$ 5,50 ou atingir R$ 6,00, a inflação ao consumidor deverá acelerar de forma intensa.

A dinâmica fiscal agrava o quadro. Com a taxa real de juros superando 8% ao ano nos títulos indexados ao IPCA, e a despesa com juros já representando mais de 8% do PIB, a trajetória da dívida pública se deteriora rapidamente. Se o governo não promover nenhum tipo de moderação fiscal, a pressão inflacionária forçará o Banco Central a elevar os juros, retroalimentando o ciclo de piora fiscal. Em última instância, esse processo pode culminar em uma desvalorização cambial abrupta, que destruiria os esforços de retomada econômica.

O cenário atual é, portanto, consideravelmente mais adverso do que o observado um ou dois meses atrás. Com os juros longos nas máximas de dois anos — tanto em termos nominais quanto reais —, as expectativas de inflação se desancorando e o dicionário do mercado financeiro cada vez mais apontando para o risco fiscal, o espaço para otimismo se estreitou de forma significativa.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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