Imprensa “isentona”, tchutchuca dos banqueiros e teoria da conspiração

Bolsonaro e seu governo criam uma nova narrativa que defende ou tenta desculpar os opressores (no caso da Ditatura Militar) ou criar inimigos públicos (ao dizer que nazismo é de esquerda)

Imprensa “isentona”, tchutchuca dos banqueiros e teoria da conspiração
Imprensa “isentona”, tchutchuca dos banqueiros e teoria da conspiração (Foto: Alan Santos/PR)

Nazismo de esquerda, negar a Ditadura Militar, negar o aquecimento global, marxismo cultural, "ideologia de gênero" são alguns dos temas comuns nas falas do presidente Jair Bolsonaro e que repercutem amplamente na grande imprensa, além das redes sociais. Por se tratarem, todos, de temas falaciosos, que carecem de base teórica, de fatos e evidências, os veículos de comunicação tradicionais logo tratam de desmentir, fazer o contraponto, às vezes, até desprezar tais declarações.

Não se pode, porém, minimizá-las. Tais falas estão inseridas num contexto muito maior, um projeto com elementos de uma política fascista que tenta desacreditar intuições sérias como as Universidades. No lugar, tem-se um governo fazendo uso do Aparelho Ideológico do Estado (AIE), nos termos de Louis Althusser, para disseminar mentiras e teorias da conspiração. Foi assim que o próprio Governo Federal utilizou um de seus canais oficiais no WhatsApp para divulgar um documentário pró-ditadura militar, negando a História e desrespeitando a memória de mulheres e homens assassinados e/ou torturados pelo regime.

Espalhar mentiras ou, na denominação contemporânea, fake news, não é nenhuma novidade. O regime nazista transformou a mentira numa arma política para atacar adversários. Foi assim que conseguiram incriminar os comunistas pelo Incêndio do Reichstag (parlamento alemão), em 27 de fevereiro de 1933. Como consequência, o partido foi perseguido e seus membros tiveram seus direitos políticos caçados. "A característica essencial da propaganda fascista nunca foi suas mentiras, pois, isso é algo mais ou menos comum à propaganda de todos os lugares e de todos os tempos. O principal era que eles exploram o antigo preconceito ocidental que confunde a realidade com a verdade, e tornam 'verdade' o que até então só podia ser declarado como mentira", argumenta a filósofa Hannah Arendt, um dos principais nomes da Filosofia Política do século XX.

É neste ponto que atua Bolsonaro e seu governo: criam uma nova narrativa que defende ou tenta desculpar os opressores (no caso da Ditatura Militar) ou criar inimigos públicos (ao dizer que nazismo é de esquerda). O filósofo americano Jason Stanley chama este fenômeno de produção da irrealidade: "Quando a propaganda política consegue distorcer ideias fazendo com que se voltem contra si mesmos, quando as universidades são solapadas e condenadas como fontes de preconceito, a própria realidade é posta em dúvida. Nós não podemos concordar com a verdade. A política fascista substitui o debate fundamentado por medo e raiva".

Não é de hoje os ataques às instituições de ensino, perseguidas pela extrema-direita por ser um suposto reduto de propagação do "marxismo cultural". Cabe lembrar, nas eleições presidenciais de 2018, diversas faculdades pelo país protestaram contra o fascismo, como a Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense. Tais universidades tiveram suas atividades interrompidas por determinações judiciais movidas por grupos pró-Bolsonaro que usaram da força dos aparelhos repressores (a polícia) para intimidar alunos e professores. No lugar do conhecimento científico, sistematizado e organizado de universidades sérias que pesquisam fatos históricos e com produção acadêmica internacionalmente reconhecida, tem-se pronunciamentos vagos e imprecisos de Bolsonaro, ou de seus gurus próximos, ligados a esoterismo, sem prestígio acadêmico nenhum. "A política fascista troca a realidade pelos pronunciamentos de um único indivíduo, ou talvez de um partido político. Mentiras óbvias e repetidas fazem parte do processo pelo qual a política fascista destrói o espaço da informação", afirma Stanley.

A cobertura midiática convencional tenta fazer seu papel de checagem de informação e desmentir ora o presidente, ora seu clã ideológico de extrema-direita, conservador e reacionário. Embora Bolsonaro diga o tempo todo que fará política_ nacional e internacional_ sem o viés ideológico, o que ele mais faz é justamente o estabelecimento de uma cruel ideologia opressora. Ou seja, um conjunto de ideias que reflete os interesses da classe dominante e imposto sobre a classe trabalhadora como sendo seus interesses. É assim que tem sido conduzido, por exemplo, a Reforma da Previdência. Um projeto que só atende os interesses dos mais ricos, dos poderosos, banqueiros e rentistas, em detrimento da classe trabalhadora do campo e da cidade. Como ironizou o deputado federal do PT do Paraná, Zeca Dirceu, ao ministro da Economia Paulo Guedes: "Eu tô vendo, ministro, que o senhor é tigrão quando é com os aposentados, com os idosos, com os portadores de necessidades. O senhor é tigrão quando é com os agricultores, com os professores. Mas é tchutchuca quando mexe com a turma mais privilegiada do nosso país".

Mesmo desmentindo as teorias da conspiração do governo, existe um tema que a grande mídia não pode atacar: a Reforma da Previdência. Ela não pode atacar a reforma porque também pertencente aos AIE, ou seja, são os Aparelhos Ideológicos do Estado de Informação que atendem aos interesses da classe dominante. Logo, muito lhe interessa esta agenda neoliberal de Bolsonaro, antipopular e contra os mais pobres. Até pior do que a proposta de Michel Temer. Dessa forma, a imprensa tradicional está refém do mercado financeiro, e não consegue avançar na crítica ao Palácio do Planalto, pois, estaria desvelando suas reais motivações econômicas, nada jornalísticas.

Este passo "a mais" que a imprensa tradicional não tem dado, é o que os portais de comunicação têm oferecido, como o Brasil 247, com coberturas políticas inovadoras, contestando o status quo e possibilitando, ao cidadão comum, uma visão mais geral sobre o problema. Não dá mais para a imprensa continuar exercendo um jornalismo tão atrasado que paga de "isentona" diante de um governo claramente alinhado à extrema-direita, que ameaça à democracia e, inclusive, a própria liberdade de expressão e de exercício da profissão. Segundo dados da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), em seu Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil – 2018, naquele ano, foram registrados 135 casos de agressões, atingindo 227 jornalistas. Os apoiadores do então candidato Jair Bolsonaro foram os principais agressores.

Qual o lado dos meios de comunicação tradicionais? Afinal, todos somos orientados por uma base ideológica, como diria Paulo Freire, cabe nos questionar: "esta base ideológica é inclusiva ou excludente? " E o nosso lado? Nós, cidadãos, também precisamos nos posicionar contra esta ordem injusta que ameaça os direitos humanos deste país.

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