Intenções

Assim é a tração da pulsão e desejo de morte do “governo” de Jair Messias Bolsonaro... Não é autoengano, erro ou fanfarronice, é a intenção dita, revelada, e agora executada, em destruir. Destruir tudo o que signifique vida.

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A palavra, a voz, os gestos de um chefe de estado e de um chefe de governo, de um presidente da república em qualquer lugar do mundo guarda um simbolismo que lhe é patente. A personagem que ocupar essas funções possa ser um líder do mais alto nível, uma pessoa mediana ou ainda uma figura decrépita, mas a sua palavra e as suas iniciativas seja no âmbito direto de um governo em que é titular, seja na opinião sobre os temas mais diversos, certamente terá peso na opinião e formação da opinião das pessoas.

A função presidência da república não é uma representação qualquer, ela cumpre uma liturgia formal e simbólica. Formal porque cabe nos ritos e legislações que prevê a postura de alguém investido nesse cargo; simbólica, porque representativa de uma função vertical, grande Outra, como dizemos em psicanálise de orientação lacaniana, quero dizer, uma posição ou função fundamental num estamento de linguagem onde as representações se fundam e donde habitam os significantes. Lugar onde as palavras orientam ou desorientam.

Alguém que ocupa um cargo de tal relevância deve estar atento aos sinais que emite tanto nas medidas que toma quanto nas palavras que profere. Ao dizer isso não imagino que um presidente deva se colocar como em um pedestal, se converter numa entidade metafísica ou que seja alguém humanamente superior aos demais mortais. Claro que não! Mas o lugar em que ele está tem um registro simbólico peculiar que não pode ser ignorado, desprezado, corrompido.

O senhor Jair Bolsonaro ocupante hoje da presidência da república parece ser uma exceção a tudo isso. Ele fala o que lhe vem à telha sem qualquer filtro entre pensamento e enunciado. Ele toma medidas esdrúxulas em qualquer setor que diga da autoridade em que está imbuído. Ele faz hoje e desfaz amanhã e.... e daí? 

Ele vai a eventos públicos e fala todos os impropérios, não economiza em sua verborragia, dá gritos e palavrões, desafia as instituições, ameaça a tudo e a todos, enuncia golpe de estado (só faltando dizer a data e a hora), contudo, nada ocorre com esse homem. 

Insistimos nessa questão: ele é uma exceção? Está liberado para dizer o que diz e fazer o que faz?

Diante da relação que se constituiu com esse presidente é fato que devemos observar seus atos não como uma inconsequência, suas palavras não como meros arroubos juvenis, seus decretos, medidas provisórias, decisões governamentais não como simples erros de um mau gestor. 

Ele é incapaz intelectual e cognitivamente quanto ao ato de governança quando se tem deveres a cumprir tanto político quanto administrativamente? Sim, podemos considerar isso, todavia, se relacionamos os seus atos na presidência com aquilo que ao longo de sua longa carreira política (não se trata de um neófito) ele defendeu de forma explícita a não restar qualquer dúvida de cada palavra que pronunciou, bem, nesse caso, devemos admitir que o seu governo é absolutamente coerente e competente com o que sempre enunciou.

O que muitos chamam de paspalhices e erros, eu diria que se trata de uma intenção do que fazer. A sua estupidez, digo a de Bolsonaro, é o seu teatro, a sua ópera bufa para divertir um povo para quem falta o pão e o trabalho, mas sobra o circo, e a perversidade.

Peço desculpas aos verdadeiros circenses, uma arte que sempre me comoveu e emocionou quando desenvolvida com espírito lúdico e artístico.

No período de sua vida no exército, indisciplinada como sói, e que se concluiu prematuramente em face a sua expulsão após instauração, investigação e conclusão de inquérito policial militar (IPM) por tentativa de cometer atos terroristas, mas depois acomodado nos labirintos daquele ancièn regime de 1964, promovido a ir para a reserva com soldo e patente de capitão (um posto acima do seu na ativa que era o de tenente), essa figura, saída dos esgotos daquele regime, saltou para a vida pública a fim de representar o discurso e a escória daquele regime. Os que até hoje impunes!

A missão doravante de Jair Bolsonaro fora a de materializar institucionalmente e promover uma comunicação social do que se lhe impulsionava uma pulsão de morte, um desejo de destruição e morte de tudo aquilo e todo aquele que ele e seus pares rejeitavam. 

Não fez outra coisa na vida esse capitão senão isso. E se esmerou em fazê-lo! Lembremos algumas passagens inequívocas: disse em uma entrevista a um programa sensacionalista de televisão (os de sua preferência) quando era deputado federal que o regime de 1964 errou em não ter matado ao menos uns trinta mil, alguns inocentes, mas tudo bem, faz parte. Disse a uma colega deputada federal que ela não “merecia” ser estuprada por ser feia. Disse quando candidato à presidência da república que trataria seus opositores, especialmente os de esquerda e os petistas, na “ponta da praia”, expressão usada por torturadores do regime de 1964 para eliminar fisicamente seus inimigos políticos sem deixar vestígios de seus corpos. Homenageou torturadores do regime de 1964, figuras horrendas como os coronéis Brilhante Ustra e Sebastião Curió (este último recebido recentemente no Palácio da Alvorada em júbilo). Fez apologia, e permanece a fazer, da prática ilegal e inconstitucional, quão desumana, criminosa, da tortura. Prática essa tipificada e condenada pelo direito internacional e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, os quais o Brasil é signatário. 

Promoveu, ademais, também na sua candidatura à presidência da república, uma imagem significativa em visita de campanha ao Acre (estado que foi governado por muitos anos pelo Partido dos Trabalhadores) ao afirmar categoricamente que expulsaria esses petistas a bala, então, pegou o tripé de uma câmera de filmagem que estava próximo e a improvisou como se fora uma metralhadora a disparar furiosamente contra os inimigos eleitos em sua verve.

Ora, o que uma cena dessa quer dizer nas circunstâncias em que se disse?

A noite escura, densa, terrível, que se abate no Brasil justamente na ocasião em que esse homem “governa” o país não nos parece algo além do que o cumprimento desse desejo de morte que ele enuncia não de hoje, e que muitos, inclusive nas tais instituições que funcionam, fingiram, e fingem, não ver, e não podemos crer que sem razão alguma.

Bolsonaro está aí para apagar os traços de civilidade, de construção ética e simbólica que possa haver em uma sociedade, e que gente como ele, e projetos “políticos” como o que ele defende e representa intentam fazer sem qualquer concessão.

Agir contra as medidas sanitárias que servem para barrar ao máximo o avanço da pandemia da covid-19 no país. A não realização antecipada da contratação das doses das vacinas dos laboratórios que superavam exitosamente a fase três dos testes de eficácia delas, e o deboche contra a vacina chinesa, a coronavac, uma das que comprovadamente eficazes por certificação de organismos científicos internacionais. O ato de ignorar ao apelo por oxigênio das autoridades de saúde de Manaus e da Amazônia. As medidas que tomou para declinar a vigilância dos órgãos ambientais, sanitários e outros mais. A insistência na flexibilização de medidas de contenção e controle à aquisição de armas e o estímulo ao comércio e importação de armamentos por particulares, incluso os de grosso calibre, justo num país que é um dos campeões mundiais de violência e mortes por armas de fogo. O ataque baixo aos adversários por ele e pelos filhos numerizados, ministros e asseclas. A destruição do estado democrático de direitos em plena marcha. A montagem de um tal Gabinete do Ódio, que, segundo algumas denúncias feitas à Procuradoria Geral da República e ao Congresso Nacional, instalado nas dependências do Palácio do Planalto e sob a coordenação de seu filho 02, o Carlos Bolsonaro – a quem deveria cumprir mandato de vereador na cidade do Rio de Janeiro --.

Sim, o que tudo isso quer dizer? Que sinais e emissões são esses? E digo não apenas dos enunciados (consciente), mas também da enunciação (inconsciente) em face ao que nos parece um desejo de destruição que anima os atos e manifestações públicas desse homem.

O que assinalamos nessas linhas diz de uma simples errância, um espontaneísmo como após cada pronunciamento escatológico de Jair Bolsonaro a sua assessoria de comunicação tenta convencer à opinião pública com suas Notas a Imprensa ou falas de porta-vozes? Seria um mal-entendido de todos nós ao jeito descontraído do presidente?

Ou o que temos é a intenção de quem em campanha à presidência disse que sua especialidade era matar! e que seria eleito para destruir tudo isso que está aí?

Por tudo isso que está aí a destruir, leia-se: as conquistas históricas dos trabalhadores em suas lutas por direitos e inclusão social. Todo legado dos governos populares e democráticos que edificaram um importante programa de desenvolvimento do Brasil, saltando este da décima-quinta economia para a sexta economia do mundo (e logo seria a quinta), promovendo a inclusão social e étnica de milhões de brasileiros lançados por décadas e séculos ao esquecimento, à pobreza e à miséria. Expandindo creches, escolas, escolas técnicas e tecnológicas, universidades e centros de pesquisas. Estruturando e fortalecendo as empresas públicas estratégicas para o desenvolvimento do país como a Petrobras e outras. Corroborando a internacionalizar as empresas brasileiras e abrindo-lhes acesso ao crédito público a fim de gerar trabalho, renda para o trabalhador e receitas para o país. Fortalecendo a agricultura comunitária e familiar, e a dos assentamentos. Construindo casas boas e baratas para quem não tinha casa e vivia às duras orçamentárias no aluguel ou num puxadinho de familiares. Provendo a saúde pública e fortalecendo o SUS. Construindo o acolhimento e a proteção social a partir de uma política extraordinária e consistente como o SUAS.

Esse “governo” intenta destruir tudo isso aí, e NÃO um sistema financeiro que atua como cassino, e um sistema bancário que atua como agiotas. Os interesses de multinacionais que quer pegar barato o espólio da empresa nacional destruída, seja ela pública ou privada. O monopólio da comunicação, da terra, dos bancos, das corporações que dentro do estado privatizam a coisa pública. Os estamentos ideológicos dos militares que parecem representar interesses do império estadunidense e não os nacionais, que, decalcam os símbolos pátrios em seus uniformes e em seus hinos, mas não os levam no espírito e na missão.

Por último, retorno a Freud, que em 1895 escreveu um texto que não publicou (mas os seus descendentes o fizeram pela importância da obra, em 1950), digo do “Projeto para uma psicologia científica”. Neste “Projeto”, Freud imaginou um primeiro esboço do aparelho psíquico e o fez sob os princípios da física dinâmica de Isaac Newton, a saber, os princípios de inércia e o de constância.

Freud dizia que o aparelho ou o sistema psíquico funcionava com vistas à tensão zero, à inércia, mas havia as exigências da vida, as funções mentais a cumprir, então havia um outro princípio que sem eliminar o de inércia, no entanto, promovia a que o sistema funcionasse e ao mesmo agisse para que as pressões e tensões não se acumulassem a um ponto insuportável, era o princípio de constância. Isso promovia o equilíbrio do sistema e de nossa vida mental, segundo Freud. E isso, repito, ele foi buscar em Newton.

Outrossim, imaginemos o seguinte do aparato psíquico e social que se tece nesse regime que estamos a experimentar duramente no Brasil. Nele a tensão é permanente e em excesso, não há meios de equilíbrio dessa tensão, não há homeostase, pois as intenções desse sistema não são as das exigências da vida, como dizia Freud, mas o impulsionamento da destruição e da morte, pela elevação da tensão e o fim em inércia.

Assim é a tração da pulsão e desejo de morte do “governo” de Jair Messias Bolsonaro... Não é autoengano, erro ou fanfarronice, é a intenção dita, revelada, e agora executada, em destruir. Destruir tudo o que signifique vida.

Não creiam que estou a exagerar.

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