Irresponsabilidade e traição presidencial

As instituições brasileiras que prezam pela democracia estão obrigadas a vir a público repudiar o gesto do presidente. Ou isso, ou será o retorno a 1964, com um presidente determinado a matar quem pensar diferente dele

(Foto: Carolina Antunes/PR)
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Parte da sociedade brasileira, com uma venda nos olhos, dança alegremente à beira de um precipício, de onde o Brasil já saiu, não sem muita tortura e sangue. O mundo vive a pandemia de um vírus para o qual ainda não há vacina, que matou dezenas de milhares de pessoas e já está no Brasil. Quando a Organização Mundial de Saúde declara a condição de pandemia é porque ela considera a potencial contaminação de todas as pessoas. Essa referida parte da sociedade cometeu, no domingo, dois desatinos inconsequentemente capitais.

O primeiro e, imediatamente mais terrível, foi o de promover aglomerações em todo o País, contra todas as orientações do Ministério da Saúde e o senso de civilidade. A contaminação está fora de controle, mas isso foi solenemente ignorado por pessoas, no mínimo, irresponsáveis. A partir de ontem, é inimaginável a propagação do vírus, em vários cantos do Brasil, colocando a vida de centenas de milhares de pessoas em risco. Um surto causará muitas mortes e o colapso no sistema de saúde, que não tem condições de atender a demanda. Tão grave quanto a falta de consciência social é o completo desconhecimento da história do País. Contaminadas, ou não, parte da sociedade foi para as ruas pedir o fechamento dos poderes da República e a volta do famigerado Ato Institucional nº 5.

Se as pessoas que foram às ruas conhecessem um pouco da história do Brasil, não se deixariam enganar pela grande perversidade da franca e ostensiva participação do presidente da República, Jair Bolsonaro, eleito pelo voto direto. Interessado na supressão da democracia, ele se vale da ignorância de algumas pessoas para alcançar seus objetivos. Recém-chegado dos EUA, o presidente trouxe na comitiva pelo uma dúzia de assessores contaminados pelo coronavírus. Não fosse o seu egocentrismo, ele estaria cumprindo uma quarentena, como qualquer pessoa minimamente consciente. A nocividade de Bolsonaro não iria tão longe não fosse a complacência de vários atores, entre eles parte da imprensa, que chocou o ovo. Além de afrontar a quarentena, Bolsonaro dá um péssimo exemplo à população e presta um desserviço aos esforços do Ministério da Saúde para convencer a população da gravidade da pandemia.

À parte a leviandade presidencial, de atentar contra a saúde pública, Bolsonaro foi às ruas para usar pessoas crédulas e pouco informadas. A democracia é um valor defendido pela maioria de uma sociedade que, ao longo da história, foi impedida de compreender as relações entre Constituição Federal, democracia e ditadura e, por isso, ostenta cartazes nas manifestações que são verdadeiros tratados de incoerência. O presidente sabe muito bem o que está fazendo, pois tem, como já declarou diversas vezes, interesse em uma ditadura “matando uns 30 mil. Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra, morrem inocentes”. Quase 60 milhões de brasileiros elegeram um presidente que se permite se colocar em guerra contra o próprio povo.

Por mais defeitos que os poderes da República tenham, e isso não lhes faltam, sem esses pilares será a barbárie. As instituições brasileiras que prezam pela democracia estão obrigadas a vir a público repudiar o gesto do presidente. Ou isso, ou será o retorno a 1964, com um presidente determinado a matar quem pensar diferente dele. Até o fechamento deste texto, no domingo, não se tem notícias de alguma veemente manifestação do Legislativo, do Judiciário e do Ministério Público, rechaçando o franco atentado cometido pelo presidente da República contra o Estado Democrático de Direito. É no espaço da omissão da sociedade progressista que Bolsonaro se projeta e se consolidará, caso não seja impedido, como o próximo ditador do Brasil. A morte da democracia é iminente e vai custar muito caro à nação.

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