Itália só se salva financeiramente se liderar uma ruptura com o euro

"O recurso à emissão dos títulos, absolutamente razoável, só justifica a posição da Alemanha, com seu apetite infernal pela escravização financeira da Europa", diz o autor

União Europeia
União Europeia (Foto: Yves Herman / Reuters)
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Há dias que esperava o ultimato da Itália ameaçando romper com a União Europeia caso a Alemanha se mantenha na posição impertinente de impedir o lançamento de títulos comuns para financiar as imensas despesas financeiras da reconstrução econômica no âmbito da crise do coronavírus. Espero que não seja apenas uma ameaça vazia do primeiro ministro Giuseppe Conte. É que o recurso à emissão dos títulos, absolutamente razoável, só justifica a posição da Alemanha, com seu apetite infernal pela escravização financeira da Europa.

Lembro-me de uma biografia de Henry Kissinger, “Tempos de Tumulto”, em que descreve o encontro dele e de Nixon com Charles de Gaulle no início dos anos 70, na primeira visita do presidente norte-americano à Europa. Instado por Nixon a intervir na conversa, Kissinger fez um grande esforço para parecer inteligente, perguntando sobre os riscos para a França do projeto de União Européia. “E se com isso a Alemanha quiser dominar a Europa? Como impedir?” E de Gaulle, sem olhar para ele, respondeu: “Par la guerre!” 

Desde a criação do euro tenho sustentado que a nova moeda equivale a uma guerra que favoreceu a Alemanha de forma desproporcional, pelo fato de que resultou desvalorizada em relação às demais moedas do grupo. Com isso, a Alemanha, que já era uma economia comercialmente muito competitiva, foi beneficiada pelo equivalente de uma desvalorização monetária. As outras moedas se valorizaram, e com isso perderam competitividade internacional e dentro do próprio grupo. O resultado foi a longa recessão do bloco.

Por que o resto da Europa, que supostamente tem os melhores economistas do mundo, aceitou uma situação tão desfavorável economicamente? Imagino que a razão foi a predominância alemã no projeto de unidade europeia, com liderança de advogados e políticos leigos em detrimento de economistas progressistas de outros países. Claro, do lado alemão foram economistas que dominaram o processo, e os economistas alemães são visceralmente neoliberais, conforme se prova agora, mesmo com pandemia.

A posição alemã, além de tudo, é comandada por bancos. E bancos têm horror a emissão de títulos públicos porque resultam, no final das contas, em restrição monetária. E restrição monetária, por sua vez, leva à escassez do crédito e ao aumento da taxa de juros. Além disso, todo o processo vem carregado de ideologia, porque a emissão de títulos públicos -  nacionais ou em grupo -, implica aumento de ativos públicos e de capacidade de autofinanciamento pelo Estado. Ora, entre favorecer os bancos e beneficiar a Itália, Berlim prefere atender seus bancos, restringindo a economia monetária.

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