Jacó Bittar, semeador da esperança

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Por Pedro Maciel 

não temos o direito de fazer do executivo uma ‘trincheira ideológica’, quem deve fazer debate ideológico é o parlamento e os partidos, sempre dialogando com a sociedade; a nós do executivo incumbe administrar a cidade para todos.” - Jacó Bittar

 Eu era apenas um secundarista, entusiasmado com as mudanças que se apresentavam no horizonte, especialmente o fim da ditadura militar -, quando ouvi Jacó Bittar pela primeira vez em 1980.

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 Uma figura nacional, o sindicalista que havia fundado o Partido dos Trabalhadores, a Central Única dos Trabalhadores, antes ainda o Sindicato dos Petroleiros, era uma figura onipresente em nossas jovens vidas militantes.  

 Seu discurso era único, forte, mas sem ódio e cheio de esperança, falava da urgência de uma vida que coletivamente não apequenasse a própria vida e da necessidade de a construção da felicidade ser coletiva.

 Citando Paulo Freire, Jacó dizia que “é preciso ter esperança para chegar ao inédito viável e ao sonho”; “esperançar”, ir atrás, não desistir, ser capaz de buscar o que é viável para fazer o inédito, não se conformar.

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 Em 1982 e 1986 - quando ele tinha uma eleição praticamente certa para a Câmara dos Deputados -, sacrificou qualquer projeto pessoal e aceitou ser o candidato do PT ao Senado por São Paulo para fortalecer a legenda, obteve 9.6% e 9.4% dos votos, respectivamente.  

 Como prefeito de Campinas, após uma vitória tão espetacular, quanto improvável nas eleições de 1988, Jacó revelou-se um homem público excepcional, despido de vaidade, sem revanchismos e com o olhar para o futuro.

 Jacó viveu uma administração, em alguma medida, conturbada, seja em razão da oposição sistemática feita pela bancada do PSDB, seja pelos chiliques do seu vice-prefeito - o qual fez várias representações vazias ao Ministério Público -, ou pelas movimentações pouco éticas do então jovem Renato Simões, depois deputado estadual.  

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 Acredito que o papel do PSDB era mesmo fazer oposição, mas Toninho e Renato cumpriram um papel vergonhoso, usavam a imprensa para desacreditar Jacó e o próprio PT - fruto de ressentimento e ausência de comprometimento com a cidade e com um projeto de administração que poderia ter colocado Campinas na vanguarda.

 Com ele aprendi muito sobre “tática” e “estratégia”, sobre os tempos, movimentos e objetivos.

 Sobre a função do executivo (tática) e do legislativo (estratégica) ele dizia: “não temos o direito de fazer do executivo uma trincheira ideológica, quem deve fazer debate ideológico é o parlamento e os partidos, sempre dialogando com a sociedade; a nós incumbe administrar a cidade para todos.”; ele manteve relação republicana com todos os setores representativos da cidade.  

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 Alguns meses após a posse de Collor, Jacó esteve em Brasília em busca de verbas federais, e lá – para nossa surpresa (e tristeza) -, estendeu a mão ao Presidente.

 Tínhamos vinte e poucos anos, e Jacó nos disse: “quem esteve lá foi o Prefeito de Campinas, não o militante”.

 Esse gesto garantiu a Campinas verbas federais para a canalização de toda a avenida Norte-Sul e para os “piscinões” da Orosimbo Maia.

 Lembro bem que os tucanos, sob liderança do então vereador Edvaldo Orsi, de quem eu gostava muito, votou contra o empréstimo que garantiu as verbas para as citadas obras e, por ironia, foi Edvaldo Orsi, então prefeito, que as inaugurou.

 É importante lembrar que a administração de 1989 a 1992 tirou a cidade da acomodação de décadas, pois desde Quercia, passando pelo Dr. Lauro, pelo grande Chico Amaral e Magalhães, todos foram eleitos pelo MDB, e depois PMDB, mas foi a gestão Bittar causou uma reviravolta nas estruturas da cidade.

 Fato é que em 1988 a população de Campinas escolheu para administrar a cidade uma personalidade nacionalmente conhecida, tido como radical, Jacó mostrou-se um administrador responsável, probo e conciliador.  

 Fez a revisão de tributos e saneou as finanças; recebeu uma cidade com 82% de déficit público e colheu superavit de 5,2% já em 1991; criou-se a Lei Orgânica do Município, o Plano Diretor, o Plano Plurianual, sempre com enorme participação popular, algo inédito que causou incomodo para aqueles que estavam acostumados a decidir o futuro da cidade a partir de seus interesses e não a partir dos interesses da coletividade.

 Ele recebeu uma cidade sem caixa para pagar até os salários de dezembro de 1988, falida mesmo.

 O relacionamento da administração direta com as empresas municipais era imoral, sequer haviam contratos; a SANASA, citada pela imprensa nacional em 1992 como “modelo de empresa pública”, antes de Jacó era um cabide de empregos e estava longe de cumprir seu objetivo social. O que fez? Promoveu o acerto contábil de todas as empresas; liquidou a dívida da CEASA; revocacionou a EMDEC, etc.

 Mas Jacó não ficou reclamando, ou colocando a culpa em “a”, “b” ou “c”, ele trabalhou e estimulou todos a trabalharem muito; renegociou contratos com empreiteiras, reduzindo-os grandemente; retomou obras paralisadas; criou um plano de cargos; os serviços públicos foram reestruturados; transformou o lixão da pedreira do Chapadão num espaço público de convivência; trouxe o debate sobre sustentabilidade e meio ambiente através da campanha “1 milhão de árvores” e da reciclagem do lixo; deu início às ciclovias; ao desenvolvimento do Parque Prado; trouxe o VLT; renovou a frota dos ônibus; investiu em educação, saúde e na cultura; o Lago do Café foi municipalizado; os distritos receberam atenção; a defesa civil tornou-se realidade; a COHAB entregou, em média, seis moradias por dia nos primeiros dois anos; foram inaugurados os primeiros 200 leitos do Hospital Ouro Verde; e foi no seu governo que o programa de saúde mental avançou; etc., desafortunadamente não há espaço aqui para listar nem 1% do que foi realizado.

 Nesse mês de outubro Jacó fez oitenta e um anos, agradeço à sorte, força divina reguladora dos acasos, por conviver com ele.  

 Tenho certeza que seu caminhar é pleno, afinal ele semeou esperança, e o tempo, generoso, ofereceu a ele a possibilidade de vê-las árvores fortes e cheias de frutos, certeza de vida eterna.

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