Jair Messias Bolsonaro e Eric Zemmour, primos irmãos

"Jair Messias Bolsonaro e Eric Zemmour são frutos da mesma árvore, dignos herdeiros de seus antepassados ideológicos – Benito Mussolini e Adolf Hitler", diz o colunista Milton Blay

Milton Blay, Eric Zemmour e Jair Bolsonaro
Milton Blay, Eric Zemmour e Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução | Fotos Públicas)
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Da mesma forma que os eleitores de Jair Messias Bolsonaro são cúmplices do nazifascista, os franceses que apoiam o candidato potencial à presidência, Eric Zemmour, devem ser qualificados como tal. Nos dois casos, ninguém tem o direito de alegar que não sabia quem era o personagem, pois ambos são transparentes, nada esconderam durante décadas. Odeiam aqueles que têm um mínimo de sentimento humanista. Talvez não devam ser chamados de irmãos, mas certamente seriam primos de primeiro grau. Valem-se.

Bolsonaro, lembrem, durante a campanha de 2018 comparou os afrodescendentes ao gado gordo, diante da platéia hilária do clube Hebraica do Rio de Janeiro. Depois, atribuiu aos próprios negros a responsabilidade pelo tráfico negreiro, ao dizer que os portugueses nem pisaram na África.

Há um ano, ao se referir ao assassinato de George Floyd e às manifestações anti-racistas nos Estados Unidos, Eric Zemmour defendeu a tese (mentirosa) de que 97% dos negros vítimas de morte violenta o são por negros, não por brancos. E ao tentar minimizar a responsabilidade dos policiais assassinos, disse que Floyd havia sido condenado a 5 anos de prisão por agressão e consumo de cocaína. E que portanto não era flor que se cheirasse.

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A jornalista que o entrevistava, negra, retrucou, lembrando que em 19 anos de carreira o policial acumulou 18 queixas contra si e duas cartas de advertência da hierarquia.

Zemmour confessou que não sabia, mas nem por isso se deu por vencido. Acusou a vítima de ser cocainômano e defendeu os policiais brancos, que segundo ele não agridem nem matam negros. Tudo não teria passado portanto de um lamentável incidente, explicável pela saúde frágil de um drogado.

O total desprezo pelos seres humanos é uma das características comuns ao francês e ao brasileiro.

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Num debate com o filósofo e defensor dos direitos humanos, Bernard Henri Levy, o polemista foi questionado sobre a situação dos refugiados no campo de Lesbos, na Grécia, previsto para 2 mil pessoas e que conta com 20 mil. Respondeu: - Seu campo não me interessa!

BHL replicou: - São seres humanos.

Tréplica de Zemmour: - O soldado alemão também era um ser humano e até o SS era um ser humano.

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Os dois fascistas não têm nenhum compromisso com a história. São revisionistas.

Bolsonaro dedicou o voto a favor do impeachment de Dilma Roussef ao coronel Brilhante Ustra, o torturador da ex-presidente, reconhecido assim pela Comissão da Verdade, cuja validade o capitão não reconhece. “Pra’ mim ele é um herói”; disse Bolsonaro.

Zemmour, apesar de três vezes condenado por incitação ao ódio racial, reincide; contesta crime contra a humanidade. Afirma, despudorado, que Philippe Pétain, chefe do Estado colaboracionista de Vichy durante a 2° Guerra, foi um herói que salvou os judeus franceses. A verdade é que, ao contrário de herói, Pétain foi um crápula, um carrasco responsável pela perseguição e extradição de 24 mil judeus para os campos da morte. No episódio conhecido como Veld’hiv, em 1942, a polícia francesa realizou a maior operação anti-judaica, deportando para as câmaras de gaz de Auschwitz mais de 13 mil judeus. Hitler havia pedido à Pétain que lhe fossem enviados apenas homens em condições de trabalhar. O francês, no entanto, decidiu mandar também mulheres e crianças, sob o argumento de que assim as famílias permaneceriam unidas.

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Zemmour representa hoje um paladino do reacionarismo. Educado na tradição judaica pelo matriarcado em um dos bairros mais humildes de Paris, Zemmour gostava de se apresentar como uma cria da meritocracia, assimilada e libertada das amarras étnicas, familiares e religiosas pela República.

Ele denunciou o colapso do modelo francês de integração no seu segundo romance, “Petit Frère” (2009), em que um jornalista narra a história do assassinato de um jovem DJ judeu pelo seu melhor amigo árabe.

A frase escolhida para a capa do livro, “o antirracismo é o novo comunismo”, denuncia o seu verdadeiro alvo: o multiculturalismo, o irmão siamês da libertação sexual, que ele descreve como um produto da “logorreia marxista de maio de 68”. No que o polemista concorda com Olavo de Carvalho na crítica ao « marxismo cultural ».

Com Zemmour, o “declinismo”, ou a angústia do definhamento da França pós-moderna,é erguido pela primeira vez como bandeira eleitoral. Para o historiador Johann Chapoutot, especialista da ideologia nazista, o “declinismo” é simplesmente o outro lado da medalha da pátria do Iluminismo, da revolução e dos direitos humanos.

Na forma, o discurso de Zemmour é diferente de Bolsonaro, ele sabe construir uma frase e não agride jornalistas em público com palavras de baixo calão, mas o fundo da narrativa é exatamente o mesmo.

Um e outro são populistas, atiçam o medo nas pessoas e « resolvem » os problemas mais complexos de maneira simples, acabando com os opositores. Para Bolsonaro o inimigo é o comunista, o globalismo, que englobam todos aqueles que não dividem a mesma maneira de ser. A vitória significa a « morte » do adversário.

Zemmour não é diferente: por exemplo sobre a laicidade, um dos pilares da República francesa, defende a assimilação total de todos os estrangeiros, sobretudo africanos e muçulmanos, que para viver na França deveriam abdicar da cultura original para se tornarem «bons franceses». Para inicio de conversa, abandonariam a língua natal e seriam obrigados a afrancesar seus nomes como Mohamed, que a partir de então passariam a se chamar Pierre, Vincent ou qualquer outro nome do calendário cristão.

Durante uma convenção da extrema-direita, em setembro de 2019, Eric Zemmour fez um discurso criticando os "imigrantes colonizadores" e a“ islamização da rua”. Também descreveu o véu islâmico e o djelaba como “os uniformes de um exército de ocupação”.

Ambos são misóginos.

Bolsonaro disse à deputada Maria do Rosário que não a estupraria porque ela era feia.

Zemmour teria escrito o seguinte SMS a uma assessora de imprensa: “Vou esperar até você me convidar para sua casa para te estuprar! “

O polemista qualificou como delação a atitude das mulheres do movimento Me Too, que denunciam os autores de agressões sexuais; comparou a mobilização feminina às delações de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

O que os une é muito maior do que suas diferenças. A prova definitiva ficou gravada nas imagens da visita do polemista ao salão de equipamentos militares Milipol, nesta quarta-feira, dia 20. O candidato putativo pegou um fusil de alta precisão e com um grande sorriso apontou para os jornalistas aos gritos de Recuem, Recuem!

A ministra da Cidadania, Marlène Schiappa, declarou-se horrorizada. A resposta de Zemmour foi digna do cercadinho de Brasília: “Schiappa é uma imbecil, grotesca e ridícula !”

Só faltou um comentário de cunho sexual para se igualar ao capitão.

Aos 63 anos, Zemmour é conhecido por suas posições preconceituosas, xenofóbicas, racistas, contrárias aos migrantes, à religião muçulmana, frases racistas e sexistas e por sua profunda capacidade de chocar e assim chamar os holofotes para si.

Zemmour é tão direitista que ao seu lado a líder do partido neofascista Reunião Nacional, Marine Le Pen, parece uma conservadora de centro.

Tudo isso explica porque o extremista francês, que considera a gesticulação de Bolsonaro exótica, mas que parece ter sido contaminado pelo vírus da boçalidade, defende seu alter ego, ao considerar antidemocrática a atitude do STF, que teria implantado um « gouvernement des juges », um governo dirigido por juízes contra as autoridades eleitas, ideologicamente em oposição.

Jair Messias Bolsonaro e Eric Zemmour são frutos da mesma árvore, dignos herdeiros de seus antepassados ideológicos – Benito Mussolini e Adolf Hitler. Não necessariamente nessa ordem.

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