Jilmar Tatto e o extravio petista

"Os partidos devem assumir as consequências de suas escolhas. E propor abrir mão na reta final em favor de quem aparece melhor nas pesquisas é desconhecer como funciona a política, a lógica dos partidos e o orgulho das pessoas", avalia o cientista político e professor Aldo Fornazieri

Jilmar Tatto e Guilherme Boulos
Jilmar Tatto e Guilherme Boulos (Foto: Reprodução/Facebook)
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Desde o início dos debates sobre as eleições municipais sustentei algumas posições que reafirmo aqui. A primeira delas é que seria um equívoco dos partidos de esquerda subordinar suas decisões e escolhas para as disputas municipais à lógica da formação de frentes. O argumento pró-frentes partia do pressuposto do enfrentamento ao fascismo, essas coisas todas. Duas razões explicam o equívoco desta tese: 1) não há nenhuma necessidade objetiva de formar frentes a não ser onde os interesses locais a determinem, pois, nas eleições municipais, há uma pulverização de adversários, na sua maioria, de centro-direita e não de candidatos ideologicamente bolsonaristas, de extrema-direita fascistizante; 2) O momento das eleições municipais é o momento específico da construção partidária e do fortalecimento dos partidos. É o momento em que os partidos precisam otimizar seus interesses.

O segundo ponto a reafirmar diz respeito à disputa em São Paulo. Foi indicado que, do pouco de certeza que havia, a única coisa mais provável era a ida de Covas para o segundo turno. Esta afirmação foi feita antes da campanha começar. Trata-se de uma simples análise da conjuntura. O que define as tendências de uma eleição municipal é se a conjuntura é de conservação ou de mudança. O ponto de referência é sempre a gestão e a avaliação do governante, no caso, do prefeito. Há um claro equilíbrio entre a avaliação positiva e negativa da gestão Covas. Este fator é determinante para a passagem dele para o segundo turno. Como Covas e Russomanno têm o mesmo perfil político e ideológico, a tendência seria a de Russomanno expirar em prol de um candidato da esquerda, com maiores chances para Boulos.

No artigo da semana passada, antes da pesquisa do Ibope, disse que a candidatura de Jilmar Tatto estava sendo injustiçada e que se atribuía ao candidato o patamar de 1% de intenção de votos. O elevado grau de extravio de petistas se expressa na exigência de estabelecer prazos para a decolagem da candidatura e na disseminação da perigosa tese da retirada da candidatura na reta final se Boulos tiver chance de passar para o segundo turno. É uma proposta de autodestruição do partido. A pesquisa do Ibope confirma a injustiça que vem sendo cometida contra Tatto por setores do PT. Na verdade, Tatto é vítima de dois equívocos e de um preconceito.

Antes, os equívocos. O primeiro equívoco é a tese da frente – a tese de que ele deveria abrir mão em favor de Boulos, já que Boulos aparece em melhor posição. No processo de definição das candidaturas não havia, e não há, nenhuma justificativa racional e razoável para que Tatto e o PT abrissem mão da candidatura para Boulos, assim como não havia e não há justificativa para que Boulos e o PSol abrissem mão da candidatura em favor do PT. Nem em São Paulo e nem no Rio de Janeiro. Os partidos devem assumir as consequências de suas escolhas. E propor abrir mão na reta final em favor de quem aparece melhor nas pesquisas é desconhecer como funciona a política, a lógica dos partidos e o orgulho das pessoas. 

O segundo equívoco é o de que Tatto seria um candidato ruim, por duas razões: porque é desconhecido e porque não teria uma boa imagem (aqui está o preconceito). Excetuando Haddad, Tatto é o melhor candidato que o PT poderia ter, sem demérito para Padilha e para Zarattini. Nem um e nem outro é muito mais conhecido do que Tatto. Tatto tem a vantagem de ser, dentre os três, o que mais tem a mostrar em termos de experiência de gestão municipal e em termos de realizações: ocupou duas vezes a Secretaria dos Transportes e foi Secretário do Abastecimento. Esta experiência agrega a ele uma vantagem sobre os outros.

Quem conhece o PT internamente não pode negar que há um preconceito contra Jilmar Tatto, justamente onde precisa ser visto um mérito: o seu trabalho de base junto aos setores populares, de periferia. Nas disputas internas do PT, as correntes com inserção maior nas camadas médias têm disseminado preconceitos contra a base popular de militância da família Tatto. Isto tem feito com que parte dos petistas das classes médias migrem para a candidatura Boulos. 

Dito isto, com a ressalva de que há uma forte tendência de Covas passar para o segundo turno, pode-se afirmar que a segunda vaga está em aberto, com forte tendência de Russomanno expirar. A pesquisa espontânea do Ibope, que é mais fidedigna em relação à estimulada, mostra que 40% dos eleitores ainda não definiram o candidato. 

Na espontânea, Covas aparece com 13%, Russomanno com 10%, Boulos com 9% e Tatto com 2%. Tatto foi o que mais cresceu na estimulada, 3 pontos, seguido por Boulos, 2 pontos. Mas Tatto cresceu mais no eleitorado de Russomanno: eleitores de renda mais baixa e nos evangélicos. Boulos vem mostrando uma dificuldade de crescimento neste segmento. Se a tendência é a de Russomanno expirar, a candidatura de Tatto torna-se estratégia, seja para levar Boulos para o segundo turno, seja para o próprio Tatto passar para o segundo turno. 

A candidatura de Boulos corre dois tipos de riscos: 1) o risco de não ser capaz de encontrar uma tática correta para crescer nos segmentos mais populares, tirando votos de Russomanno; 2) o risco de uma arrogância típica das esquerdas quanto vivem um bom momento e julgam que alcançarão os céus.

O maior desafio de Tatto é fazer-se conhecido e reduzir o antipetismo – algo que a direção burocrática do partido vem negligenciando desde 2015. Até para reduzir o antipetismo a  candidatura de Tatto é importante. 

Boulos foi muito bem na entrevista ao Estadão quando afirmou que não vê o PT como adversário. O PT e Tatto também não podem ver Boulos e o PSol como adversários. Cada lado deve fazer seu jogo, construindo uma nova relação de respeito entre os partidos de esquerda. Os inimigos são Covas/Doria e Russomano/Bolsonaro. Esta nova relação pode ser um degrau muito importante para construir alianças e frentes no futuro, quando condições propícias e necessidades políticas e estratégicas surgirem. 

Boulos, Tatto e Orlando Silva podem e devem ser artífices do lançamento dos alicerces de uma nova relação entre as agremiações de esquerda, pautando-se pelo respeito mútuo e pela ênfase do que há em comum entre as candidaturas. Afinal de contas, os três pertencem a facções diferentes e um mesmo partido, o partido orgânico do povo, no dizer de Gramsci. O que este partido precisa agora é da construção da sua unidade orgânica nas lutas e na visão de mundo, na construção de um projeto estratégico, respeitando as nuances de cada fração e as singularidades de cada grupo e de cada movimento. 

Se estes objetivos e se esse respeito forem estabelecidos, os eleitores de esquerda e do campo progressista – os eleitores do PCdoB, do PT e do PSol – terão a sabedoria de fazer a escolha certa na reta final do primeiro turno, levando um candidato das esquerdas para o segundo turno.

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