João Doria, o garoto propaganda de si próprio

"Em 100 dias como prefeito de São Paulo, João Doria aproveitou todos os meios de comunicação para fazer o que sabe melhor: propaganda de si próprio", escreve o colunista Alex Solnik; "Para não dizer que ele não fez nada em 100 dias e para fazer justiça, é verdade: ele cortou 40% do orçamento da Cultura, em legítima defesa, porque é esperto o bastante para saber que os artistas estão de costas viradas para ele e podem ser os primeiros a fomentar protestos contra ele – o que já acontece, aliás. Melhor, portanto, deixá-los à míngua"

Prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), durante entrevista à Reuters 04/04/2017 2017. REUTERS/Nacho Doce
Prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), durante entrevista à Reuters 04/04/2017 2017. REUTERS/Nacho Doce (Foto: Alex Solnik)

Em 100 dias como prefeito de São Paulo, João Dória aproveitou todos os meios de comunicação para fazer o que sabe melhor: propaganda de si próprio.

Ele se fantasiou de gari e participou de alguns sábados de faxina, sempre muito mais propagandísticos que efetivos, um dos quais com a presença da faxineira Regina Duarte, mas a cidade continua tão suja como estava no último dia da administração Fernando Haddad.

Os baixos do Minhocão – agora batizado com o nome de Elevado João Goulart, para desespero de Paulo Maluf, que, quando o construiu o chamou de Elevado Costa e Silva em homenagem ao ditador que lhe deu o primeiro emprego público (presidente da Caixa Econômica Federal) e marido de Yolanda Costa e Silva, a quem Maluf costumava presentear com joias – continuam na condição de dormitórios a céu aberto, exibindo colchões infectos, plásticos sujos, casinhas de cachorro, ocupados dia e noite por homens, mulheres, crianças e animais à espera de uma saída para a vida.

O centro da cidade, que já foi um lugar frequentado por elegantes paulistanos de chapéu e bengala exibe um cenário de pós-guerra, com prédios abandonados, pichados, destruídos e gente dormindo na rua embaixo de marquises de prédios, um dos quais abriga várias secretarias municipais, inclusive a da Cultura, na avenida São João.

O slogan “Cidade Linda”, exibido à exaustão até em jogos da seleção brasileira diz respeito muito mais às pretensões políticas do prefeito do que a alguma melhoria no caos urbano em que São Paulo mergulhou faz alguns anos.

Para não dizer que ele não fez nada em 100 dias e para fazer justiça, é verdade: ele cortou 40% do orçamento da Cultura, em legítima defesa, porque é esperto o bastante para saber que os artistas estão de costas viradas para ele e podem ser os primeiros a fomentar protestos contra ele – o que já acontece, aliás. Melhor, portanto, deixá-los à míngua. O secretário André Sturm tenta dourar a pílula, prometendo descongelar as verbas, mas não tem tido sucesso.

Outra coisa que fez foi aumentar a velocidade nas Marginais, o que provocou o aumento de acidentes e de mortes, mas seus eleitores agora podem chegar mais depressa para assistir à novela em suas mansões de Alphaville.

Dizem que zerou a fila dos exames com o Corujão da Saúde, o que carece de confirmação porque a imprensa não tem acesso a informações comparativas por dificuldades criadas por sua administração.

O que ele conseguiu, mesmo, foi provocar muito alvoroço nas hostes direitistas, que viram nele o perfeito lobo em pele de cordeiro para enganar o distinto eleitor brasileiro em 2018, com sua cara de bom moço, nenhuma ideia na cabeça e discurso boquirroto.

A sua grande realização à frente da prefeitura de São Paulo foi abolir a gravata.

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