Jornalistas (e jornalismo) sob ataque

Ao atacar o jornalismo, Bolsonaro violenta a democracia que, como diz o slogan do The Washington Post, morre na escuridão. O jornalismo é a luz no caminho democrático e que nem este espasmo autoritário, ante tantos outros ao longo da história, conseguirá apagar

(Foto: ADRIANO MACHADO - REUTERS)

Muito se fala na crise do jornalismo e do seu modelo de negócio que se desloca fortemente dos meios analógicos para os digitais. Dá até para afirmar que este deslocamento está em fase final e tudo o que restava da velha mídia está se reconfigurando. A crise que atinge o modo de trabalho e o processo se alia aos ataques daqueles que veem no jornalismo um instrumento impeditivo do triunfo de governos tiranos.

É sempre assim: a manipulação começa quando o jornalismo é neutralizado. Das propagandas nazistas à indiferença de Rodrigo Duterte à imprensa das Filipinas enquanto massacrava seu povo, o jornalismo é pedra no sapato de quem esnoba a democracia. No Brasil, o jornalismo praticado pelos grandes meios se transformou em "jornalismo de guerra" onde a informação era empacotada de forma a atingir alvo único: destruir o avanço dos governos progressistas. O modelo integrou o combo da guerra híbrida que se daria mais fortemente adiante e cujo final todos nós já conhecemos (e, como pesadelo, ainda não chegou bem ao final).

Por que atacar o jornalismo? Para responder esta questão, necessário que entendamos a diferença entre  jornalismo e as empresas de comunicação que faz uso dele. Jornais não são jornalismo. Jornal Nacional não é jornalismo. The New York Times não é jornalismo. O jornalismo é uma instância simbólica que permeia organizações, com a liquidez de adaptar-se a qualquer tempo e qualquer suporte. E, desta forma, não tem dono, não tem fronteiras, nem forma, mas guarda valores e princípios. 

Assim, governos antidemocráticos atacam o jornalismo e seus agentes. Porque enfraquecer o jornalismo significa deixar uma sociedade vulnerável às ações das fake news, que causaram tanto estrago na nossa democracia e que, somente agora, o TSE se deu conta de propor regras de contenção, e o Whatsapp de  informar o banimento de 400 mil contas durante as eleições (o que parece não ter surtido efeito).

Fake news é uma distorção de uma sociedade carente por informação. Quer ser informada e as milícias digitais têm ciência disso. Paradoxalmente, esta sociedade acredita no jornalismo, mas as fake news surgiram no vácuo do momento em que até os meios de comunicação esqueceram o jornalismo, quando jornalistas de cativeiro e comentaristas aderiram à tática do envenenamento social como estratégia política. A sociedade, carente de notícias, estava diante de uma enxurrada de fake news de um lado e das doses de manipulação da mídia convencional do outro. Enquanto isso, o jornalismo, espremido, dormitava.

Assim,  a sociedade foi enganada, como se  jornalismo consumisse, e induzida a cair nas mentiras em formatos entregues como conteúdo jornalístico. Diante de tudo isso, sob flancos mitômanos, a crise foi gestada sob universo bem mais complexo. Não do jornalismo, mas de quem operava a informação enquanto grande mídia e de como operava.

Em governos fascistas, o jornalismo não pode subsistir em seu estado puro. Precisa ser atacado.  Das críticas às retaliações publicitárias, às ameaças de não-renovação de concessões, de brigadas de haters que desestabilizam a paz de profissionais que bravamente precisam continuar informando, há muito de ofensiva à atividade. Retomo à nossa tentativa de estabelecer o exercício de não confundir jornalismo com organizações, embora estejam imbricados. 

A Medida Provisória que desregulamenta a atividade (aliada à queda do diploma para o exercício da profissão) é outro golpe de machado no tronco onde a democracia aflora. Sem jornalistas aptos, o Brasil estará à mercê das fake news e, na melhor das hipóteses, de reportagens de baixa qualidade técnica, sem financiamento, nem aprofundamento e reflexão. Deste modo, não haverá medida do Supremo que venha a impedir. 

Alvos do bolsonarismo, os sindicatos dos jornalistas do país se reúnem neste dia 21 para reagir. Um momento para pensar no poder que emana do jornalismo em fortalecer a democracia e seu papel diante desta conjuntura que, infelizmente, projeta uma precariedade informacional que torna a sociedade incapaz de discernir sobre os eventos do cotidiano, transformando-a em walking dead apologista de aberrações do tipo terra plana . 

Tudo pode se agravar. Sem registro para a atividade, o jornalista estará na arena onde a informação apurada tende a ser confrontada como elemento equivalente à desonestidade dos haters. Estes se sentirão legitimados para disseminar fake news como se jornalistas fossem. Afinal, não haveria mais parâmetro do ponto de vista de regulamentação. As pessoas, sem o contraponto da sensatez, não terá acesso a informação checada e de qualidade. 

Ao atacar o jornalismo, Bolsonaro violenta a democracia que, como diz o slogan do The Washington Post, morre na escuridão. O jornalismo é a luz no caminho democrático e que nem este espasmo autoritário, ante tantos outros ao longo da história, conseguirá apagar.

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