Juros: chega de agiotagem

No Brasil, o objetivo primário do nível da taxa de juros é manter a remuneração real do capital rentista. Nada mais. É por isso que este ano em que a inflação está em 3,5% e o país mergulhado na pior recessão de sua história, pagaremos de juros o equivalente R$ 339,1 bilhões previstos para 2017

Funcionária confere folhas de dinheiro na Casa da Moeda, no Rio de Janeiro 23/08/2012 REUTERS/Sergio Moraes
Funcionária confere folhas de dinheiro na Casa da Moeda, no Rio de Janeiro 23/08/2012 REUTERS/Sergio Moraes (Foto: Gustavo Castañon)

Ontem a coluna anônima "Por quê?" da Folha de São Paulo, que pretende explicar economia aos leitores de forma "simples e divertida", publicou o artigo "Juros: chega de experimentalismos".

Ele não é nada mais do que uma versão jocosa e sem argumento da velha tese rentista de que a política de juros brasileira tem como objetivo primário o controle da inflação.

Tivemos a oportunidade de ler de novo sobre a "inflação do tomate", surto fictício de inflação inventado pela mídia em abril de 2013 que teria sido causado pela "queda voluntarista" das taxas de juros no meio do primeiro mandato de Dilma.

O alvo do artigo, no entanto, era outro. Era o novo saco de pancadas da imprensa corporativa, o pré-candidato do PDT à presidência da república Ciro Gomes.

E para atacá-lo mais uma vez, voltaram à rotina de promover uma falácia do espantalho, mentir sobre suas declarações e posições e folclorizar um Ciro que só existe na voz dos marqueteiros do rentismo.

Além de citar jocosamente o termo "testosterona", requentando manchete manipuladora da Folha, a coluna afirmou que Ciro contesta a tese de que o nível da taxa de juros é instrumento importante no controle inflacionário.

Isso é falso.

O que Ciro defende repetidas vezes, em literalmente dezenas de vídeos de palestras públicos disponíveis no YouTube, é que a taxa de juros NEM SEMPRE é eficaz para controlar a inflação.

Como todo economista sabe, a inflação é um fenômeno complexo, causado por muitas variáveis, entre as quais está o desalinhamento de preços relativos, o impacto de ajustes cambiais (sobre o preço dos insumos importados), o nível de consumo, o nível de oferta, o nível de crédito, a variação da base monetária e de capacidade instalada da indústria.

Pois a crítica de Ciro ao aumento das taxas de juros em 2014 e 2015 foi que ele veio de forma desproporcional para enfrentar uma inflação residual causada pela desvalorização cambial sofrida por nossa moeda. Isso tem, pela alta do dólar, impacto direto nos preços de produtos e insumos importados. Para enfrentar esse tipo de pressão inflacionária, a alta dos juros é inócua.

Ciro já afirmou repetidamente que num país que pratica taxa de juros civilizada, seu aumento provoca diminuição de consumo e enxugamento de crédito. Ou seja, só quando há uma inflação de demanda o aumento dos juros é justificável para combater a inflação. Mais do que isso, como ministro da fazenda da implantação do Real ele enfrentou uma inflação de demanda com aumento de juros.

Consideremos o gráfico mostrado pelo artigo anônimo. Ele afirma que a consequência de se baixar os juros com inflação ainda resiliente é o descontrole inflacionário, e, sem justificar o argumento, oferece como prova disso um gráfico que pouco sustenta sua afirmação.

Num país que já conviveu com taxas de inflação de 2% ao dia, o que o gráfico revela é que a inflação de quase 7% ao ano de abril de 2012, mesmo com a queda de 9,25% para 7,25% da taxa Selic, permaneceu numa média de menos de 7,5% ao ano durante os primeiros meses de 2013.

Já o retorno da taxa Selic a 9,25% até outubro de 2013 pouco fez com a inflação, que caiu de menos de 7,5% para 7% ao ano.

Mas o custo dessa operação gigantesca para oferecer meio por cento ao ano a menos na inflação nós sabemos. Centenas de bilhões de reais transferidos de nossos bolsos, de nosso trabalho, para os agiotas brasileiros. Se o povo brasileiro entendesse o quanto lhe custou esse meio por cento a menos de inflação, nunca mais veria a Rede Globo ou leria a Folha.

No Brasil, o objetivo primário do nível da taxa de juros é manter a remuneração real do capital rentista. Nada mais.

É por isso que este ano em que a inflação está em 3,5% e o país mergulhado na pior recessão de sua história, pagaremos de juros, sem contar a atualização monetária, o equivalente a 24% (R$339,1 bilhões previstos para 2017), de tudo o que arrecadamos em impostos e contribuições (R$1.409,6 bilhões previstos).

No entanto, não posso dizer que o autor anônimo do artigo erra por ter o raciocínio turvado pela testosterona.

Ele erra porque o seu discurso é turvado pela crueldade e maldade de nossa elite agiota genocida, que quer continuar a praticar a taxa de juros reais mais alta do mundo, enquanto o país afunda no abismo da recessão, desemprego, colapso fiscal e violência.

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