Lágrima de três faces

Tenho 76 anos e, já há alguns meses, venho sentindo o hálito frio da morte pelo meu corpo, como uma criança que entreouve, de seu quarto sempre escuro demais, passos pesados ribombando pelo ladrilho, como batidas de tambor num rito sacrificial

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(Foto: Luanna Falcão)
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Tenho 76 anos e, já há alguns meses, venho sentindo o hálito frio da morte pelo meu corpo, como uma criança que entreouve, de seu quarto sempre escuro demais, passos pesados ribombando pelo ladrilho, como batidas de tambor num rito sacrificial. (Ao cabo, o velho não volta a usar babador e fralda como uma criança de bengala?)

O jovem desconhece o próprio corpo, a não ser que se trate de esculpi-lo e intumescê-lo para o prazer. Corpo que sua, corpo que arfa, corpo que goza. 

O jovem lá sabe o que é o menisco, que range como uma dobradiça enferrujada? O jovem lá sabe o que é o labirinto, cuja inflamação me faz cambalear como um náufrago à deriva? O jovem lá repara no dorso das mãos tomado pelas nódoas marrons do tempo? O jovem lá sabe o que é o nervo ciático, que lateja como uma bigorna alvejada pelas marretadas certeiras do ferreiro? O jovem lá sabe o que é a insônia, esse vazio oceânico que me coage a olhar para a cara de Medusa do remorso? 

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Não.

Como o jovem pulsa, ele não sabe – ele não precisa saber. 

Só o corpo em ruínas precisa mastigar o barro de que é feita a vida: quando eu não evito olhar para o espelho, quando eu repuxo a minha pele vincada e pálida, os traços da minha caveira se insinuam – não: eles se impõem! – e sussurram cada vez mais rente ao meu cangote:

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– Ecce homo, eis o homem. 

Ora, se a fadiga já não vai passar (se ela só vai dar lugar à exaustão); se a fuligem frágil e trêmula liberada pelo toco de vela do meu corpo mais parece um aceno (uma despedida), o que me resta fazer senão ludibriar o penhasco e olhar para trás? 

Para um velho como eu, lembrar não é uma condição – lembrar é uma sentença. 

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Se as memórias de um velho de barba desgrenhada e olhos estreitos como frestas não te entediarem, peço que você me ofereça o cajado solícito do teu braço enquanto eu te conto um pouco do que eu me lembro – e te confesso um punhado dolorido do que eu não consigo esquecer. 

 

I. Gol de placa

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Quando eu era criança, não era comum que um pai abraçasse e beijasse seu filho. 

Meu pai polaco e proletário, homem bom e diligente, precisa tomar uma pinguinha curtida no cambuci para conseguir escorregar no musgo das emoções. 

Sóbrio, meu pai só me abraça tomado pela euforia de um gol do Coringão. 

Quando o Corinthians ganhou o primeiro título brasileiro de sua história, meu pai chorou como a minha mãe ao ver pela TV um torcedor magrinho como um saco de ossos retirar a rede do gol do Ronaldo, o arqueiro do Timão à época, e cruzar o gramado do Morumbi de joelhos, lento como um jabuti, até vencer a linha do gol do São Paulo e deitar, exausto e extasiado, para pagar a promessa a São Jorge com as mãos abertas em palma. 

Meu pai polaco e proletário me dá uns afagos estabanados com sua mão de urso, beija a minha testa com os lábios molhados de lágrimas, aponta para a TV e me ensina: 

– Cê sabe o que que é isso aí, Ricardinho?

– É fé, papai? 

– É mais que fé, Ricardinho... É amor, meu filho, é amor. 

 

II. Debutante

 

A Marcela tem os olhos bem castanhos e redondos, como duas jabuticabas. 

Quando, num recreio da 4.ª série, ela olha bem fundo para mim e me sussurra, com as mãozinhas fechadas em concha junto ao meu ouvido, que tem algo muito importante a me dizer, minhas mãos começam a suar frio, e as pernas bambeiam que nem bambu.

– Fica me esperando atrás do gira-gira, Ri, que eu já vou lá falar com você, tá bom?

A Marcela demora uma eternidade – eu conto cada segundo dos 5 minutos no reloginho de plástico que tinha vindo junto com o chocolate Surpresa. 

Será que ela vai me dizer que gostou do anel (de argola de chaveiro) que eu dei pra ela?

Será que ela vai me dizer que não gosta de mim? (Ou pior: que não gosta de mim o suficiente...)

Será que ela vai me dizer que tá apaixonada por aquele babaca do Tiago? 

Se ela vier até aqui com aquela tiara cravejada de pedrinhas brilhantes, ah, aí é porque ela quer ser minha namorada!

Quando a Marcela chega, eu logo noto que ela tá um pouco pálida. 

Pálida e calada. 

Estranho: a gente não consegue olhar um pro outro, então nós ficamos mirando uma taturana malemolente que tenta porque tenta driblar uma folha seca. 

Súbito, a Marcela faz menção de falar algo; ela estaca, ela gagueja, daí eu sinto o coração martelar o peito com força, como se a vida por si só não bastasse, como se a Marcela pudesse me ouvir desde dentro. 

– Ricardo... Ri... Eu... 

– Eu sei, Má... 

– Cê sabe o quê? 

– Que teu coração tá batendo forte como o meu.

– Como é que cê sabe, Ri? E que que tem isso?

– Tem que eu te amo, Má... Muito!

A Marcela fecha os olhos com ternura, fica na ponta dos pezinhos que calçam All Stars vermelhos e me oferece, pela primeira vez, os lábios que pouco antes tremiam. A princípio geladas, nossas mãos logo se enlaçam e se acalentam.

II. A caveira e o perdão

Faz 46 anos que minha mãe morreu. 

Neste momento, eu estou olhando para uma foto em que ela sorri com ternura e bondade enquanto apoia o queixo delicado sobre a palma da mão direita. 

Sempre que minha mãe sorria à farta, círculos concêntricos de pele se irradiavam da boca para as bochechas, como se uma pedrinha serelepe tivesse rompido a calmaria singela de um lago. Seus olhos, então, ficavam bem pequeninos: “Você tá parecendo um ursinho de pelúcia, mãe!”. 

Internada na UTI e a poucas horas de morrer por infecção generalizada e falência múltipla dos órgãos, minha mãe, sempre tão meiga, começou a inchar como um sapo-boi. Foi preciso isolá-la com uma capa térmica de plástico para que a temperatura corpórea não despencasse de vez e para que ela não começasse a tremer como uma epiléptica. 

Até hoje, eu não me perdoo por ter visto esse horror. [Quem se sente impotente diante da mãe amada só tem vontade de fugir do próprio corpo e torturar (ou decapitar) a própria consciência.]

Até hoje, eu não me perdoo por não ter conseguido acompanhar minha mãe até o fim.

O médico da UTI como que me expulsou quando eu comecei a chorar de desespero, e, até hoje, eu evito escarafunchar essa ferida. (Será que eu queria que ele me expulsasse dali?)

Você já desejou que sua mãe partisse? (Para que ela não sofra mais – e para que você não sofra mais.)

Você já desejou que sua mãe ficasse por aqui mesmo que ela fosse sofrer ainda mais?

A expectativa de que, após a morte, eu possa reencontrar minha mãe, meu pai, minha vó e todos os amigos e amigas a quem eu sobrevivi é uma das esperanças mais arraigadas em mim. Que a minha mãe, como espírito, possa se reconciliar com seu sorriso de ursinho panda é o que me parece haver de mais justo e bonito. 

Ainda assim, quando eu me lembro, acossado por calafrios, da dor lancinante que minha mãe teve que suportar até que ela abandonasse o próprio corpo, a imagem da caveira sem mandíbula e de olhos vazios – o rosto de Hamlet, o meu rosto, o teu rosto, mãe! – desponta como o alívio (e o perdão) para um corpo exaurido que só faz gemer.

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