Lição esquecida das pesquisas onde Haddad venceu Bolsonaro

"Numa amnésia estimulada por aliados do Planalto, muitos brasileiros não lembram que nos últimos cinco meses duas pesquisas mostraram que Haddad venceria Bolsonaro por boa vantagem", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: REUTERS/Rodolfo Buhrer | ABr)

Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia-  O mais recente artigo de Marcos Coimbra publicado no Brasil 247 (31/1/2020) é de uma utilidade rara. Não apresenta uma notícia nova. Apenas recorda uma informação que, num ambiente de relativa amnésia que só ajuda Bolsonaro, pode até parecer grande novidade mas não é.

A nova notícia velha é a seguinte. Em 2 setembro de 2019, quando Bolsonaro completava 9 meses de governo, uma pesquisa Data Folha informava que, se as eleições presidenciais "fossem hoje", Fernando Haddad seria eleito por 42% contra 36% dos votos. Não era um ponto fora da curva. Três meses depois, em dezembro, o próprio Vox Populli, de Marcos Coimbra, chegou a números semelhantes. Haddad venceria Bolsonaro por 41% a 33%.

Estou convencido de que nesse ponto começa um debate importante no Brasil de 2020.

É muito provável que, no país de hoje, analistas, parlamentares e militantes derrotados na eleição de 2018 estejam enxergando a realidade política a partir de uma visão muito diferente daquela que é partilhada pela maioria dos brasileiros e brasileiras.

Embora o 41% a 33% da Vox tenha sido apurado há apenas dois meses e o 42% a 36% do Data Folha, há cinco meses, é bom recordar e sublinhar. Dois institutos diferentes mostram uma opinião consistente de oposição a Bolsonaro e de sustentação ao candidato que o enfrentou no segundo turno. Ninguém precisa se aventurar em grandes análises para avaliar essa situação.

Os números parecem dizer que, mesmo depois de vencer a grande batalha parlamentar do primeiro ano de mandato -- a reforma da Previdência -- Bolsonaro não foi capaz de convencer a maioria da população. Encolheu.

Ao contrário do que imagina a sabedoria convencional de boa parte de nossos analistas políticos, inclusive de oposição, tem menos apoio popular, hoje, do que em outubro de 2018, quando derrotou Haddad.

Se obteve a terceira menor vitória nos segundos turnos das eleições presidenciais brasileiras, 15 meses depois Bolsonaro continua um presidente fraco, numericamente mais fraco do que há um ano -- do ponto de vista do apoio popular.

E aqui se encontra a chave da situação política hoje. Supondo que as regras de sucessão presidencial estarão em vigor em 2022, nenhum analista sério pode sustentar hoje que Bolsonaro é favorito para conquistar a reeleição. A tese de que a conquista de um segundo mandato é uma espécie de fatalidade eleitoral de nossos presidentes, que só o desastrado Fernando Collor não teria sido capaz de assegurar, pode ser uma superstição de grande utilidade para fortalecer governantes de plantão, mas está longe de espelhar uma realidade, muito mais incerta do que seria conveniente para o bloco de apoio ao bolsonarismo.

Essa incerteza explica as divisões frequentes entre as forças que dão sustentação ao capitão-presidente. Ainda que o gigantesco poder de retaliação da caneta presidencial possa assegurar ao ocupante do Planalto uma insuperável capacidade de barganha nos próximos anos, as dificuldades reais para manter a perspectiva de conservar o poder pelo voto popular, em 2022, não envolvem mercadorias baratas. Ajudam a explicar o espantalho sempre vivo de Sérgio Moro, além do esforço sobrenatural para levantar Luciano Huck, o candidato-espetáculo, e outras apostas menores.

Não vamos nos enganar com a amplidão das frentes políticas que a oposição nascida no segundo turno de 2018 pode estimular para derrotar Bolsonaro. A orientação básica desse universo econômico-político continua sendo impedir o retorno ao Planalto do bloco popular que sustentou Lula-Dilma-Haddad , seja na formação que tiver.

Há outra questão, porém. Realizadas em setembro e dezembro de 2019, as pesquisas refletiram um país que denunciou a reforma da Previdência através de uma greve nacional de 40 milhões de trabalhadores.

Mesmo derrotada pelos votos no Congresso, a paralização deixou na cena política a marca de sua luta e é claro que isso se refletiu no apoio obtido por Haddad nas duas pesquisas. O mesmo se pode dizer das gigantescas mobilizações da juventude que marcaram o início da ruinosa gestão Weintraub no MEC, sem falar na luta de permanente artistas e intelectuais contra o obscurantismo reinante no setor cultural, antes mesmo do escândalo Alvim-Goebbells e de Regina Duarte.

Derrotada nas urnas de 2018, uma imensa parcela de brasileiros e brasileiras mostrou nas ruas a disposição para seguir no combate por reivindicações e direitos. As pesquisas que muitos já esqueceram mostram justamente a resistência.

Na conjuntura de 2020, é obrigatório considerar o impacto nocivo das mudanças institucionais já promovidas por Bolsonaro-Guedes, que não só eliminaram direitos, mas atingiram de frente o poder de resposta das organizações do movimento popular, a começar pelos sindicatos. Há sem dúvida uma grande transição pela frente,

A lição principal deve ser lembrada, contudo. Mesmo sob novas circunstâncias, não cabe se render nem de se entregar.
Em 2020, Bolsonaro aposta na normalização da truculência e do abuso.

Alguma dúvida?


 

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