Limites do #EleNão; derrota imediata do fascismo será nas urnas

O jornalista Mauro Lopes, editor do 247, escreve sobre a importância e limites do #EleNão; composição social dos presentes ao ato no Largo da Batata mostra: eram em sua imensa maioria pessoas brancas, de alta renda e formação universitária que se definem como de esquerda; movimento tem grande relevância para a guerra cultural em curso no país; mas pouco peso na definição do resultado do primeiro turno das eleições  

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O movimento #EleNão liderado por mulheres, sobretudo de classe média, monopolizou as atenções das mídias nacionais e mesmo internacionais nas últimas semanas, em especial no sábado e domingo, com as formidáveis mobilizações em dezenas de cidades tanto do Brasil como em países estrangeiros. O sucesso da mobilização de repúdio ao candidato fascista não pode, no entanto, obscurecer a visão dos limites do #EleNão na luta contra a ameaça eleitoral de Bolsonaro, que é a grande questão deste momento -para além dela há a guerra cultural em curso, que se projeta no futuro e, nela, a mobilização liderada pelas mulheres tem contribuição de largo fôlego. 

Segmentos de esquerda enxergaram no #EleNão o movimento mais relevante do processo eleitoral, que teria o condão de mudar a dinâmica em curso e redefinir a campanha às portas do primeiro turno. Esta visão esteve não raro permeada por um antipetismo visceral. Viram no movimento das mulheres contra Bolsonaro uma possibilidade de arrancar do PT, de Lula e de Haddad o protagonismo do processo eleitoral. 

Uma leitura serena do que aconteceu nesses dias mostra que visão desses segmentos era equivocada -isso sem tirar em nada o mérito da mobilização.

O #EleNão tem sido um movimento sobretudo de classes médias urbanas. Foi o que vimos no sábado. Segundo pesquisa do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação da USP feito no ato do Largo da Batata em São Paulo, a maioria dos presentes era de esquerda, branca e com escolaridade e renda elevadas. Segundo o levantamento, 80% dos presentes se identificaram como de esquerda e 8% como de centro-esquerda. A pesquisa da USP entrevistou 470 pessoas no Largo da Batata. 62% eram mulheres. O mesmo percentual se autodeclarou como branco. 31% responderam ter renda familiar de cinco a dez salários mínimos (R$ 4.770 a R$ 9.540) e outros 26% disseram ganhar mais de dez salários mínimos. 86% do público entrevistado declarou estar cursando a faculdade ou já tinha diploma de curso superior. 34% manifestaram-se simpáticos ao PSOL e 30% ao PT.

As manifestações foram extraordinárias, recolocaram a esquerda nas ruas, indicou a possibilidade de adesão de importantes setores das camadas médias a Haddad no segundo turno mas, realisticamente, têm baixíssima influência sobre o cenário eleitoral. Basta a indicação de que 34% dos presentes manifestação manifestaram simpatia ao PSOL enquanto o candidato do partido oscila ente zero e 1% das intenções de voto.

A mobilização do sábado lembra em tudo as mobilizações contra Trump antes das eleições de 2016, marcadas pela hasthag #NeverTrump e com forte presença das camadas médias urbanas progressistas. Como se sabe, Trump venceu. 

Lula, mais uma vez, apresentou um diagnóstico preciso sobre o momento e qual o caminho para a derrota de Bolsonaro, numa carta que veio à luz nesta segunda-feira (1). A derrota imediata do fascismo ocorrerá nas urnas e a polarização que marca o país é entre o projeto golpista, do qual Bolsonaro é decorrência, e o projeto democrático liderado agora por Haddad. O texto de Lula é contundente: "São eles o outro polo nestas eleições, qualquer que seja o nome de seu candidato, inclusive aquele que não ousam dizer. Já atenderam pelo nome de Aécio Neves, esse mesmo que hoje querem esconder. Tentaram um animador de auditório, um justiceiro e um aventureiro; restou-lhes um candidato sem votos. O nome deles poderá vir a ser o da serpente fascista, chocada no ninho do ódio, da violência e da mentira."

Para derrotá-los, os golpistas originais e seu fruto, Bolsonaro, o que importa no primeiro tuno das eleições é a campanha de Haddad e o voto dos eleitores. O #EleNão poderá ter um papel relevante na formação de uma frente que reúna a esquerda, os movimentos feministas e sociais ao redor de Haddad e contra a ameaça fascista no segundo turno. Mais que isso, poderá ter um papel decisivo no médio-longo prazo na guerra cultural que opõe o pensamento conservador à tradição progressista.

 

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