Luciano Huck e a República de sapatênis
O enjoativo mauricinho das tardes de domingo na Globo agora criticou o Bolsa Família
O apresentador global Luciano Huck é useiro de mantras liberais que saturam a paciência. Apesar do sapatênis, sua postura nas telas segue a velha, velhíssima estratégia de premiar cidadãos de classe baixa com dinheiro de parceiros comerciais e enaltecê-los pelo “empreendedorismo”. A generosidade privada que faz a fortuna dele próprio, contudo, revela-se em seus discursos como inimiga da justiça social promovida pelo Estado.
O enjoativo mauricinho das tardes de domingo na Globo agora criticou o Bolsa Família por provocar, na sua tendenciosa visão, uma acomodação dos seus beneficiários nos braços do Estado. O milionário animador de plateias não leu o estudo “Filhos do Bolsa Família: uma análise da última década do programa”, feito pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o qual demonstrou que, em média, independentemente da idade, 60,68% dos beneficiários de 2014 deixaram o programa até 2025. A saída mais elevada foi entre os adolescentes: 68,8% na faixa de 11 a 14 anos e 71,25% na faixa de 15 a 17 anos.
Luciano Huck - cuja alegria incontida pela convocação de Neymar para a Copa do Mundo merece explicação, seja psiquiátrica ou financeira - deveria perder um pouco do seu valorizado tempo para explicar suas amizades, e não para atacar um plano de inclusão social aplaudido no mundo inteiro. São raras as figurinhas borradas por corrupção com que não tenha demonstrado intimidade, amizade, admiração ou sociedade.
A lista é de fácil confecção pela memória, se não por uma busca simples na internet:
Daniel Vorcaro. Reportagens recentes mencionaram encontros e conversas entre Vorcaro e Huck num período em que o banco já enfrentava questionamentos financeiros e regulatórios. Estima-se que o mafioso do momento tenha dado entre 120 e 160 milhões de reais em patrocínios ao insuportável programa dominical do mauricinho. Luciano Huck foi o principal garoto-propaganda do Will Bank, um banco digital ligado ao conglomerado de Vorcaro. O apresentador também chegou a avaliar a compra do Will Bank junto com um grupo de investidores.
Roberto Rzezinski. Ex-sócio. Foi preso na Operação Câmbio, Desligo, por ligação com esquemas de lavagem de dinheiro envolvendo operadores do MDB e doleiros.
Alexandre Accioly. Empresário do ramo fitness e entretenimento, frequentemente associado ao círculo social de Huck. O nome de Accioly apareceu em investigações e delações relacionadas ao entorno político do Rio de Janeiro durante os governos de Sérgio Cabral.
André Esteves. Huck participou de lives e debates promovidos pelo banqueiro do BTG. Esteves chegou a ser preso preventivamente na Lava Jato em 2015.
Junior Durski. Dono do Madero e sócio de Huck em alguns negócios. Não é conhecido por condenações por corrupção, mas apareceu em controvérsias políticas e investigações administrativas ligadas a relações empresariais e incentivos públicos.
Entre os políticos, nenhum trocou tanta empatia com Luciano Huck quanto Aécio Neves. O mauricinho foi filmado às lágrimas quando o tucano perdeu a eleição presidencial para Dilma Rousseff. Depois que Aécio foi atingido pelas delações da JBS em 2017 — especialmente o caso dos 2 milhões de reais mendigados a Joesley Batista — a amizade virou tema nacional e Huck apagou suas fotos com o dito cujo nas redes sociais.
O padrinho de Tiazinha e Feiticeira, ícones da exploração da mulher como objeto de desejo machista, não esconde sua intenção de ser presidente do Brasil. Se isso se concretizar, o país fatalmente se tornará um caldeirão de idiossincrasias neoliberais e pieguices dominicais. A República calçará sapatênis.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




