Lula choca viúvas de junho de 2013

"Lamentavelmente, porém, a lição que a esquerda deveria tirar dos erros estúpidos que cometeu no âmbito do que já se convencionou chamar de "As burradas de junho de 2013" nunca foi tirada por conta de um pecado capital antigo como a humanidade: a arrogância", escreve o colunista Eduardo Guimarães

Hoje em dia, pouca gente na esquerda -- e, até, na direita -- discorda de que a ascensão fascista no Brasil começou em 2013 com um movimento convocado pela esquerda caviar e que, surpreendentemente, elegeu a então presidente Dilma e o então prefeito Fernando Haddad como alvos prioritários.

Lamentavelmente, porém, a lição que a esquerda deveria tirar dos erros estúpidos que cometeu no âmbito do que já se convencionou chamar de "As burradas de junho de 2013" nunca foi tirada por conta de um pecado capital antigo como a humanidade: a arrogância.

Em entrevista recente, o ex-presidente Lula disse, pela enézima vez, que as manifestações de junho de 2013 foram orquestradas fora do Brasil para derrubar a esquerda, o que significa que ele acha que a esquerda se deixou instrumentalizar e serviu de capacho para a entrada triunfal da extrema-direita no poder.

Com isso, eclodiu uma onda de ataques ao ex-presidente por falar o que essa parte arrogante da esquerda não quer admitir por pura birra infantil: esquerdista que apoiou junho de 2013 foi burro, ingênuo e arrogante.

Por exemplo, o cientista político Luiz Fernando Miguel e o filósofo Pablo Ortellado. Ambos escreveram ataques a Lula por dizer o que, hoje, pouca gente informada e com os pés no século 21 sabe: que junho de 2013 foi planejado fora do Brasil e manipulou a esquerda de jeans rasgado e espinhas no rosto, transformando-a em massa de manobra

Eu mesmo, em 17 de junho de 2013, fui ao mega ato do Movimento Passe Livre no Largo da Batata, em São Paulo, que seria o maior protesto daquele mês histórico e que foi inflado por a PM ter exacerbado na violência contra outro protesto do MPL poucos dias antes.

Lá, pude ver como carrões de luxo despejavam faixas e cartazes contendo ataques a Dilma, Lula, ao PT e a Fernando Haddad. E vi como partidos que faziam oposição ao PT "pela esquerda" organizaram coro maciço exortando o PT a ir tomar alguma coisa em algum lugar...

Luiz Miguel, por exemplo, começa dizendo que "Não há nenhum indício de que as manifestações de 2013 tenham começado como parte do golpe". Fala sério: pode não haver provas cabais, mas indícios existem às toneladas. Alguns deles, no parágrafo anterior.

Diz o cientista político que "As declarações de Lula, portanto, foram enormemente irresponsáveis (para usar uma palavra amena)". Irresponsabilidade é negar que um movimento que derrubou 27 pontos da popularidade de Dilma nas primeiras três semanas daquele junho maldito não tinha um foco bem específico.

Fica difícil de notar que a popularidade do então governador Geraldo Alckmin, que comandou o espancamento dos manifestantes, caiu muito menos do que a de Dilma Rousseff, que nada tinha que ver com o peixe.

Afinal, o foco era o PT...

Aliás, é inominável a atitude desse senhor de chamar o ex-presidente Lula de "calhorda" por ter lembrado um fato inegável: a esquerda caviar de junho de 2013 se aliou até ao diabo para combater o PT "pela esquerda".

Lula desagradou ao tal cientista político por ter citado o fato de que Elisa Quadros -- a Sininho, que criticava mais o PT que a direita -- defendeu, à epoca, o extremista de direita que atacou o Porta dos Fundos com uma bomba incendiária.

Veja o nível de desrespeito:

"E o uso de uma velha entrevista de Elisa Quadros por uma parte de sua [de Lula] tropa de choque, uma entrevista defendendo en passant a libertação de alguém que muitos anos depois revelou ser um terrorista de extrema-direita, só pode ser denominada como calhorda."

Diz ainda o cientista político que "a s manifestações de 2013 levaram as ruas uma massa de insatisfeitos com os limites do arranjo lulista"... Estará se referindo ao "arranjo" que tirou dezenas de milhões da pobreza?

No afã de defender aquele movimento infame que afundou o Brasil, o cientista político elenca uma série de distorções dos fatos - e, até, de mentiras. Confira o que ele disse:

"Oferta de empregos [dos governos do PT], sim, mas de baixa qualificação e baixo salário. Inclusão social, mas mais pelo consumo do que pela oferta de serviços socializados. Combate à miséria, mas convivência com a desigualdade profunda."

É uma barbaridade. A grande marca dos governos do PT foi a maior queda da pobreza e da desigualdade em toda a história.

Além do que foi citado acima, destaque para reportagem da revista Veja de 2010 que afirmava que o "Brasil atingira, em 2010, menor patamar histórico de desigualdade de renda" e que "Desde o Real", a pobreza caíra 67,3%.

De onde o cientista político Luiz Miguel tirou a informação de que os governos do PT não combateram e derrotaram a desigualdade? Da alienação da esquerda caviar, que não sabia o que era direita e, assim, afirmava que Lula, Dilma e o PT eram "de direita"...

Agora, essa esquerdinha chique está descobrindo o que é a direita. Mas como os "heróis" de junho de 2013 iriam saber o que é a direita se a grande maioria deles nunca tinha conhecido outro governo além dos governos do PT devido à média de idade da molecada?

Após mostrar seu amplo desconhecimento sobre os governos Lula e Dilma ao revelar que não sabe que a desigualdade nunca caiu tanto como caiu sob os governos do PT, o cientista político faz mais algumas afirmações sem fundamento que demonstram seu conhecimento rudimentar da política brasileira.

Mas eis que surge outro desses festejados esquerdistas arrogantes para atacar Lula por dizer o que salta aos olhos, que junho de 2013 foi o início dos golpes de 2016 e de 2018. É exatamente o mesmo blábláblá do tal cientista político:

"Lula mais uma vez reafirmou a tese conspiratória de que junho de 2013 foi fruto de uma intervenção estrangeira que teria sido responsável tanto pela primavera árabe como pelos protestos no Brasil"

Parece que o cientista político e o tal filósofo combinaram. O mesmo papo furado e a mesma negativa alienada de que o Brasil começou a cair nas garras da extrema-direita naquele mesmo junho de 2013, quando movimentos neonazistas eram tolerados nas manifestações de esquerda porque engrossavam o caldo antipetista.

Esses expoentes "de esquerda" de junho de 2013 flertavam com a Lava Jato, elogiavam e faziam acusações a Lula e Dilma de olho em um eleitorado que os desprezava. Luciana Genro, Marina Silva e tantos outros "esquerdistas" ficavam de joelhos para Sergio Moro e sua tropa de fascistas lavajateiros

É vital, porém, que a esquerda aprenda a lição. Durante os governos do PT, a ação mais deletéria era a da oposição "pela esquerda". Essa gente é literalmente responsável pela chegada da extrema-direita ao poder. Se tivesse juízo, ficaria de boca fechada para ninguém lembrar que existe.

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