Lula e o largo sentido da paz

Somos milhões de Lula, e todos nós seremos ainda mais fortes com o reconhecimento mundial que o prêmio Nobel pode conferir aos que, hoje – agora – , estão em seus países, com seus irmãos e irmãs, lutando contra toda a forma de opressão e construindo um mundo melhor

Lula e o largo sentido da paz
Lula e o largo sentido da paz (Foto: Ricardo Stuckert)

Desde as invasões portuguesas, nossa história não é generosa com os que ousaram pensar um futuro diferente para este país e seu povo. Da colônia ao império, do império à República, de Canudos a Chico Mendes, de Zumbi a Mariele, de Getúlio a Jango, de Olga Benário a Zuzu Angel, de Herzog a Dorothy Stang, um rastro de violência que revela e que revolta.

Certo que não são poucos os crimes cometidos pelos “donos do poder” ao longo da história brasileira. Tanto quanto, todas as vezes que ficamos aquém das coisas do nosso próprio tempo. Convivemos, há muito, com “homens cordiais”, que acomodados à “casa grande”, conduzem uma república de aparências, submetida aos maiores ultrajes para que preservem seus lugares na varanda.

Trajetória marcada por gerações de proprietários – uma vez portugueses, depois brasileiros –, majoritariamente brancos, todos conservadores, responsáveis pelo extermínio indígena e a escravidão negra, indiferentes à fome retirante, às vidas secas, à exclusão castigada pelo sol do sertão e o asfalto da cidade. Das armas portuguesas às ditaduras da República, nunca perderam a infinita capacidade de odiar sua própria gente, negar sua história, desconhecer suas origens. A oligarquia dirigente, privilegiada e predatória, satisfeita em ser gerente, ou na atualidade, CEO, do mercado na periferia do capitalismo.

Afinal, o que pensava Lula sofrer após retirar mais de 35 milhões de pessoas da miséria? Distribuir dentes em um país de desdentados? Construir milhares de casas para sem tetos? Garantir universidade gratuita para filhos de trabalhadores? Realmente, ele acreditava que a transposição do Rio São Francisco, levando água ao sertão, comoveria os que tem os bolsos cheios e a alma vazia? Ora, e ainda afrontar os grandes do mundo para mostrar que o Brasil não é um país vira-lata. Quem disse que os donos do tal mercado pretendem que o Brasil não seja mais um devedor no mundo?

Evidentemente, Lula desconhecia do que ainda eram capazes de fazer. Deveríamos saber do quão estão dispostos a romper normas, quebrar pactos, desrespeitar constituições, desprezar a democracia. O Estado de exceção é seu estado natural, o lawfare sua arma, na justa medida das necessidades de manutenção de poder e riqueza. E o centro do capital financeiro necessita dos seus vassalos locais. Para tanto, é preciso matar a esperança para interromper qualquer sentido de mudança.

Foram poucos os momentos nos quais o Brasil soube como construir um país democrático, soberano, justo e includente, que distribui para incluir. O Brasil com Lula não era perfeito, por certo, mas ele provou que era possível um outro destino. Inconformado, inquieto, indignado, desacomodou os determinismos, mostrou que todo o brasileiro e brasileira, venha de onde vier, pode mudar os destinos pretensamente traçados em luxuosos escritórios das avenidas badaladas do país.

Lula propôs paz e diálogo, e promoveu um novo pacto social para o desenvolvimento com equidade, distribuição de renda e democracia, capaz de conduzir a nação para um futuro de justiça social e liberdade, de respeito às minorias e à diversidade, de integração dos povos, em um país miscigenado, multicolor, multiétnico.

A resposta da velha oligarquia dirigente não tardou: violência política, violência jurídica, violência institucional, violência midiática, claramente patrocinada e fortemente financiada. A operação de combate à corrupção, foi o pano de fundo, transfigurada em um poderoso instrumento de intervenção política e perseguição seletiva. Um trapo moral de duvidosa legalidade incapaz de esconder os objetivos políticos, nem os tantos rasgões que provocou na Constituição para justificar a exceção e a injustiça. Das imagens que perseguem a história do Brasil, algumas se repetem como tragédia, e a realidade brasileira atual nos permite escolher muitas, mas Zumbi e Chico Mendes, em especial, vem à memória.

E é por tudo isso, e pelo que fez e que pretendeu fazer que Lula merece o reconhecimento do Nobel da Paz. Para que seu exemplo, e coragem de lutar, sirvam de incentivo aos tantos homens e mulheres que no mundo dedicam suas vidas a construir lugares de paz, democracia, liberdade, justiça e inclusão social.

Lula merece nossa disposição de lutar por sua liberdade. Merece, como ele mesmo disse, que sejamos sua voz e suas pernas. Que sejamos suas mãos. Merece, em memória de todos aqueles que lutaram contra a injustiça neste país e no mundo, que não desistamos dos nossos ideais e nos mantenhamos animados para tomar as ruas, para lutar, sempre.

Somos milhões de Lula, e todos nós seremos ainda mais fortes com o reconhecimento mundial que o prêmio Nobel pode conferir aos que, hoje – agora – , estão em seus países, com seus irmãos e irmãs, lutando contra toda a forma de opressão e construindo um mundo melhor.

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