Lula e PT acenam com programa contra desmonte neoliberal de Bolsonaro e Guedes

"PT e demais partidos de esquerda precisam articular uma agenda de mobilização antes de outubro", escreve Milton Alves

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(Foto: 247 Reuters)
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Por Milton Alves 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera com folga as pesquisas eleitorais para o pleito presidencial de outubro, iniciou o ano pautando o debate sobre uma possível agenda econômica de reconstrução do país, devastado pelo golpe de 2016 – com a Ponte para Futuro de Temer -, pela Lava Jato de Sergio Moro e mais ainda pelo desastroso governo Bolsonaro.

Lula defendeu a necessidade de revogação da chamada reforma trabalhista e anunciou a medida como um fator indispensável para uma retomada da economia, gerando empregos e valorizando o trabalho. O líder petista citou como exemplo a negociação tripartite ocorrida na Espanha entre o governo de Pedro Sanchez (PSOE-Podemos), centrais sindicais e confederação empresarial que revogou pontos de uma reforma trabalhista imposta durante o governo direitista de Mariano Rajoy (PP).

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Superexploração e precarização

A reforma trabalhista de 2017, uma medida executada pelo governo golpista de Michel Temer (MDB), não gerou novos empregos, promoveu uma precarização sem precedentes nas condições de trabalho e reduziu a massa salarial do conjunto da classe trabalhadora. Além disso, com a eliminação de aproximadamente 100 cláusulas protetivas contidas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o patronato foi à forra aumentando a superexploração dos trabalhadores e bloqueando a ação sindical no chão de fábrica — o que enfraqueceu o dispositivo de pressão dos sindicatos.

O aceno de Lula, que foi acompanhado de uma reunião com dirigentes de centrais sindicais e representante do governo espanhol (on line) durante a semana, provocou uma imediata reação de políticos serviçais da Faria Lima, como João Doria, candidato presidencial do PSDB, Michel Temer e o do ex-presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia.

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Os políticos da velha direita neoliberal e a mídia monopolizada condenaram a intenção de Lula de revogar o desmonte da CLT e apelaram para a chantagem em nome do “mercado” contra a proposta do petista.

Mimimi neoliberal do mercado

Na mesma direção, a presidenta do PT, deputada Gleisi Hoffmann, indicou as medidas de um programa de governo de Lula: “O PT quer mostrar, desde já, que vai revogar o teto de gastos, a política de preços da Petrobras e a reforma trabalhista Não tem necessidade de carta ao povo brasileiro, as pessoas já conhecem o Lula. Não precisamos mais de um Palocci”, declarou a líder petista no site oficial da legenda.

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Gleisi classificou ainda de “mimimi do mercado” os ataques contra Lula e as críticas de setores empresariais sobre o fim do famigerado teto dos gastos, que já foi estourado pelo governo de Bolsonaro. Segundo a dirigente, "o teto de gastos foi uma trava colocada nos investimentos, nos gastos sociais, o país estava em uma crise econômica, o Estado precisava agir. Bolsonaro e Temer não respeitaram, o teto passou pelo orçamento de guerra, em razão da Covid-19, depois por medidas provisórias, decretos de créditos adicionais, projetos de lei. Os gastos do governo são feitos por fora, inclusive o orçamento secreto".

A presidenta do PT também defendeu o fim da atual política de preços praticada pela Petrobras, responsável pela alta preço dos combustíveis. “A primeira coisa que tem de mudar é a política de preços de paridade internacional. Gasolina, diesel e gás de cozinha não têm de ser dolarizados. Privatizaram refinarias, gasodutos, fizeram política de paridade com o dólar. E pra quê? Para aumentar a lucratividade da empresa e dividir dividendos a acionistas, que são, na maioria, estrangeiros. Isso tem de mudar”, afirmou.

Programa de reconstrução do país

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Os pronunciamentos de Lula e de Gleisi, nos primeiros dias de janeiro de 2022, apresentaram os contornos de um programa antineoliberal para iniciar a reconstrução do país. Basicamente, cinco pontos foram elencados: 1. Fim do teto dos gastos; 2. revogação da reforma trabalhista; 3. mudança na política de preços da Petrobrás; 4. Rever as privatizações; 5. política externa soberana e pela integração regional. No entanto, há questões como a independência do Banco Central, a taxação dos ricos e das grandes fortunas para financiar programas sociais, o desmonte institucional — pontos ainda sem uma definição clara de Lula e do PT.

Os economistas Guido Mantega – mais vinculado ao pensamento desenvolvimentista – e Nelson Barbosa – mais próximo do pensamento do mercado – em artigos e entrevistas foram genéricos sobre as propostas econômicas que serão defendidas pelo candidato do PT na disputa presidencial. O que revela as lacunas na formulação de um programa para a futura campanha, até porque ainda há uma série de problemas políticos pendentes de solução — federação partidária, candidatura de vice-presidente (que seja um nome afinado com o programa e não um cavalo de troia tipo Alckmin e assemelhados) e as alianças eleitorais nos estados.

O fato político relevante é que Lula acertou quando pautou o debate na questão da economia, demarcando no terreno das propostas com todos os demais postulantes – Bolsonaro, Moro, Ciro, Doria e Simone Tebet-, que mais uma vez ficaram correndo atrás do experimentado político petista e revelaram praticamente uma mesma visão no debate econômico. Ou seja, no essencial, todos defendem a mesma camisa de força da agenda de recolonização neoliberal para o Brasil.

Ao centrar o debate público da pré-campanha na questão econômica, Lula avança sobre Bolsonaro, que no governo não tem uma resposta para enfrentar a crise e seu ministro da Economia Paulo Guedes, antes o "Posto Ipiranga", agora transformado no despachante das demandas do Centrão, uma espécie de office-boy de luxo do ministro Ciro Nogueira e do presidente da Câmara de Deputados Arthur Lira.

No terreno político, fica evidente a necessidade da urgência da construção de uma frente partidária de esquerda, que apresente um programa de caráter antineoliberal e democrático-popular, para derrotar nas ruas e nas urnas o neoliberalismo, o golpismo bolsonarista e a terceira via da Faria Lima. Ao mesmo tempo, o PT e os demais partidos de esquerda precisam articular uma agenda de mobilização antes de outubro, acumulando forças nas lutas e reivindicações mais imediatas do povo trabalhador.

Vale lembrar que antes da justa preocupação com uma futura governabilidade, Lula vai enfrentar uma duríssima batalha política e programática até as eleições de outubro. Portanto, no momento, o mais importante é consolidar um programa com nitidez e impulsionar a construção de uma campanha mobilizadora, baseada numa ampla participação popular, de massas.

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