Lula está Livre, mas é preciso resgatar o povo

“Lula está livre, mas ainda condenado”. Seria bárbaro repetir no título desse artigo o chavão da extrema-direita, desde os mais vis bolsonaristas até a Globo, que, vez por outra, com esses dialoga quando lhe interessa, por vezes foge da raia quando fede demais. Mas é a verdade

Lula na vigília em Curitiba
Lula na vigília em Curitiba (Foto: Ricardo Stuckert)

“Lula está livre, mas ainda condenado”. Seria bárbaro repetir no título desse artigo o chavão da extrema-direita, desde os mais vis bolsonaristas até a Globo, que, vez por outra, com esses dialoga quando lhe interessa, por vezes foge da raia quando fede demais. Mas é a verdade. E, se esse espaço de discussões não se propõe a repetir o que simbolicamente significa a frase da direita, que troquemos o verbo: “Lula está livre, mas ainda perseguido”.

Isso tem implicação central nas estratégias para as esquerdas nos dias subsequentes à libertação do ex-presidente, que será, sim, peça importante na rearticulação da oposição ao Estado de exceção iniciado pela Lava-Jato, perpetrado pelo Golpe de 2016 e culminado pela eleição e pelo Governo assombroso de Jair Bolsonaro (PSL). O que está em pauta, agora, é como fazer para que a militância deixe a inércia e conquiste, junto ao esforço de Lula, os corações e as mentes (como diria Antônio Gramsci) de boa parte dos brasileiros que, sem necessariamente migrar para o discurso classista, racista, machista e homofóbico da extrema direita, desceram pelo ralo junto com a banda podre da sociedade graças à Força de Coriollis (vale dar uma pesquisada, mas ela será explicada ao final desta reflexão) das correntes protofascisas que tomaram conta do país, via mídia e burocracia estatal.

Em sendo assim, não haverá Lula Livre que dê conta de pacificar o país (que em grande parte, inclusive os inocentes úteis, o odeia), sem que ganhe força um movimento real e orgânico por sua presença na cena política brasileira, como contraponto àquilo de que todos já têm horror. Lula organizará novamente suas caravanas, percorrerá o Brasil, mas precisa de adesão superior àquela de 2017 (já surpreendente em relação a tudo que se dizia dele na mídia e nas rodas de conversa levadas pela Força de Coriollis). Ou senão, o quê nos faz crer que, com mais uma ou duas articulações sombrias aqui e ali, Lula não retorne pronto à Polícia Federal de Curitiba?

A direita já articulará, nesta semana, uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que pode alterar a Constituição para permitir a prisão em 2a instância, derrubando a jurisdição aberta pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Iniciativa mambembe e desesperada, não parece de imediato ganhar força, sobretudo porque seu andamento depende muito da boa vontade do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), que não parece, no momento, alinhado às forças de extrema-direita a ponto de fazer correr um projeto que encontra-se ainda na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Além disso, a PEC precisa de 308 votos em 513 deputados e 49 de 81 senadores, ou seja, 2/3 da Câmara dos Deputados e maioria simples no Senado. Oficialmente com 313 deputados, o Governo precisaria acumular muita força para manter a base unida (aceitando que hoje esta seja a base real) para passar o projeto, que a todos pareceria unicamente destinado a prender o ex-presidente Lula, numa conjuntura nacional em que já há pouco entusiasmo com manobras inescrupulosas.

O caminho pela Justiça também não é simples, visto que novas tramitações em tempo récorde dos multiplos processos inventados contra o ex-presidente, desta vez para fazê-los chegarem à 3a instância ou mesmo ao STF, com todos os desmandos por trás dessa estratégia já denunciados pela Vaza-Jato, seriam a princípio impraticáveis. Quem acreditaria na Justiça se ainda esse ano a ela marcasse a 3a instância do processo do triplex e sequer um juiz do Supremo aceitasse uma apelação? Pior, ainda, se derem celeridade a outras tramitações que sequer chegaram à 2a instância. Ou seja, a direita libertou Lula porque sua prisão era insustentável, seus autores perderam credibilidade e o Governo contamina a todos ao seu lado com seu ar misto de patetice com atrocidade. Isso, de quebra, afeta decisivamente a possibilidade de reação a curto prazo.

Entretanto, é preciso que o retorno de Lula à política mobilize, inicialmente, ao menos os 30% fiéis ao Partido dos Trabalhadores (PT), que se mantêm firmes como apontam os mesmos números atingidos por Fernando Haddad em primeiro turno das eleições passadas, quando candidato pelo partido. Eles podem ser mãos importantes para resgatar as inúmeras pessoas que, não sendo imediatamente defensoras do regime militar, das milícias, da perseguição política, do desprezo para com os pobres, as minorias e o meio ambiente, foram levadas pela força da água que, escapando por um ponto de centro gravitacional, entra em movimento circular e leva ao escape de centro todo corpo que não se apoia em outro corpo externo. O famoso ralo da pia. Esta é a Força de Coriollis que levou ao ralo parte da população brasileira, do qual é preciso socorrê-la.

Ou, pela força bruta e nada metafórica, Lula em algum momento tornará à prisão.

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