Maio de 68

O segundo maio de 68, tendo como lugar simbólico a fábrica de automóvel “Billancourt”, devidamente ocupada, vai ser cenário da maior greve geral de toda história francesa. Aqui, ao contrário da revolta dos estudantes, nos encontramos diante de um contexto clássico de esquerda: greve estruturada em torno das grandes fábricas e amplamente estimulada pelos sindicatos, particularmente pela Confederação Geral do Trabalho

Maio de 68
Maio de 68

No livro “A Hipótese Comunista”, de Alan Badiou, um dos capítulos é dedicado ao movimento de Maio de 68. Fruto de uma conferência de 2008 e tendo como título “Maio de 1968 revisitado, quarenta anos depois”, Badiou se pergunta, logo de início, por que as comemorações aos quarenta anos teriam sido mais badaladas do que seu aniversário de vinte ou trinta anos.

Quatro hipóteses são levantadas, contraditórias entre si, provando o grau de complexidade do acontecimento. A primeira hipótese: podemos comemorar devidamente porque hoje, em 2008, temos certeza que maio de 68 está morto – nada do que aconteceu tem significado ativo para nós. Toda essa comemoração estaria revestida de nostalgia, revelando todo um aspecto folclórico.

A outra hipótese, tão pessimista quanto à anterior, residiria no fato de que as idéias libertárias de maio de 68, a mudança de costumes, o individualismo, o gosto pelo prazer encontrariam sua realização no capitalismo pós-moderno.  Sob esse aspecto, o herói de Maio de 68, ou seja, seu verdadeiro resultado, é o capitalismo liberal desenfreado.

A terceira hipótese que justificaria essa intensa comemoração, contrabalançando o pessimismo das duas hipóteses anteriores, corresponderia à seguinte situação:  no auge da negação de Sarkozy (o texto é de 2008), nós nos voltamos para maio de 68 como fonte de inspiração, para recobrarmos a coragem e a capacidade de reação, nesse momento em que nos encontramos no fundo do poço.

A quarta e última hipótese, essa também otimista e perturbadora (de uma certa forma, é a mais cara para Badiou) diz que a ideia de mudança radical (revolução) que perseguiu as pessoas quarenta anos atrás, avança em segredo por trás do cenário oficial da derrota total dessa ideia. Em outras palavras, na comemoração afirmamos obscuramente a ideia de que outro mundo político e social seja possível.

No rastro dessas quatro hipóteses, e diante de uma totalidade complexa, cheia de confrontos internos (esquerdismo cultural e esquerdismo político), expressando uma efervescência contraditória, Badiou destrincha quatro maios de 68. O primeiro, tendo como lugar simbólico a Sorbonne, devidamente ocupada, representa a revolta da juventude universitária e secundarista, com suas manifestações em massa e suas barricadas. Manifestações cheias de entusiasmo, sofrendo a repressão policial, e que acabou se transformando num fenômeno mundial, com a participação de uma pequena fração da juventude (os universitários e os secundaristas). Entre as novidades, além da aceitação da violência, estaria a força da ideologia, dos símbolos, do vocabulário marxista, e da ideia de revolução.

O segundo maio de 68, tendo como lugar simbólico a fábrica de automóvel “Billancourt”, devidamente ocupada, vai ser cenário da maior greve geral de toda história francesa. Aqui, ao contrário da revolta dos estudantes, nos encontramos diante de um contexto clássico de esquerda: greve estruturada em torno das grandes fábricas e amplamente estimulada pelos sindicatos, particularmente pela Confederação Geral do Trabalho.  As novidades que se destacam, apesar do contexto clássico, são as greves selvagens, já presentes em 1967, o que nos leva a pensar que o Maio de 68 operário antecipou ao Maio de 68 estudantil (as greves selvagens é quando jovens operários dão início ou desencadeiam a greve, desvinculada das instituições operárias oficiais – as grandes organizações sindicais se unem depois a eles, em parte para controlá-los).  Outra novidade é o uso sistemático das ocupações de fábricas de modo mais generalizado que nas greves de 36 e 47 (fábricas ocupadas e cobertas de bandeiras vermelhas). A aceitação da violência por parte dos operários, numa prática sistemática de seqüestro do patronato e confrontos periféricos com altos funcionários e com a polícia, é outra espécie de novidade. Por fim, a insubordinação operária em relação à CGT, principalmente no que tange à duração e ao controle do movimento, como uma espécie de rebeldia às tentativas de resolver a greve geral com uma negociação clássica.

O terceiro Maio de 68 é o maio libertário, que tem como lugar simbólico o Teatro Odéon, devidamente ocupado (seria o nosso tropicalismo?). Badiou o define como um componente ideológico que, apesar de cair algumas vezes no anarquismo esnobe e festivo, faz parte do tom geral do evento. A questão da mudança dos costumes, das novas relações amorosas, da liberdade individual, do movimento feminista, dos direitos e da emancipação dos homossexuais, faz parte desse terceiro Maio de 68. E associado a isso, a ideia de um novo teatro, uma nova forma de discurso público e um novo estilo de ação coletiva. A promoção do happening, da improvisação, o estado geral do cinema e a força gráfica dos cartazes de Maio 68, fazem parte das novidades atreladas a esse segmento específico.

O quarto Maio de 68, correspondente à hipótese de que a comemoração dos seus quarenta anos afirma a ideia de revolução que perseguiu as pessoas quarenta anos atrás e que continua viva em segredo, por trás do cenário oficial de derrota dessa ideia, foi essencial e ainda determina o futuro. Esse quarto sentido é o menos inteligível porque se manifestou ao longo do tempo e não apenas naquele instante de maio de 68. Seguiu-se ao mês de maio, gerando anos políticos intensos. Dificilmente perceptível, se nos ativermos estritamente às circunstâncias iniciais, esse quarto Maio de 68 domina a sequência que vai de 68-78, depois reprimido e, por fim, absorvido pela vitória da união da esquerda e dos tristes anos de Mitterrand.

Mas nesse quarto sentido evidencia-se o fim de uma velha concepção de política e a busca cega, entre os anos 70 e 80, de uma nova concepção. A velha concepção, ativa entre os anos de 1900 e 1960, tem, como atores principais, o partido e o sindicato. Se o primeiro organiza o agente histórico que traz a possibilidade de emancipação, isto é, a classe operária, transformando esse agente objetivo num ator subjetivo presente em locais possíveis de poder e transportando assim a força e o conteúdo dos movimentos sociais, já o sindicato providencia a organização da massa, aqui compreendida como a realidade social imediata, os movimentos sociais e as reivindicações particulares. Algumas implicações dessa concepção: a política de emancipação está inserida e quase programada na realidade histórica e social; o sólido dispositivo sindical mantém os operários, os jovens e os intelectuais firmemente presos às suas respectivas organizações, o que traz à tona a figura da mediação; o partido se apóia em correspondentes sociais e os combates mais importantes tornam-se os combates eleitorais.

Para Badiou, a política supõe uma questão teórica, daí a importância da ideia ou da hipótese (a tomada da palavra), e uma questão prática ou a política de emancipação. No caso de Maio de 68, essa política de emancipação traduzia-se numa massa de experimentações imediatas nas quais as pessoas se engajavam com entusiasmo, numa busca hesitante de formas de organização – uma busca cega. Mas que partia de uma crítica (daí a questão teórica) em relação à democracia representativa em seu sentido institucional e constitucional – a palavra de ordem de Maio de 68 era: “Eleições, armadilha para imbecil”. É interessante verificarmos que após um mês de mobilização, que foi Maio de 68, o governo organizaria eleições, tendo como resultado uma Câmara das mais reacionárias da história francesa. Estava claro que o dispositivo eleitoral não era só um dispositivo de representação, mas, principalmente, um dispositivo de repressão dos movimentos, do novo e da ruptura.

Quando Badiou descreve o Acontecimento marcante do encontro dos professores, entre os quais ele próprio fez parte, com os operários, cheios de desconfiança, diante da fábrica, ele diz: “o que íamos fazer lá na fábrica? Não sabíamos. Tínhamos a vaga ideia de que a revolta estudantil e a greve operária devia se unir sem intermediação das organizações clássicas”. Esse Acontecimento, de conseqüências incalculáveis, era uma prática da política que não aceitava deixar cada um em seu lugar, que aceitava trajetos inéditos, encontros impossíveis, reuniões entre pessoas que comumente não se falavam. Badiou diz: “Nós compreendemos naquele momento, sem ainda compreender totalmente, ali, na frente da fábrica da Chausson, que se uma política de emancipação nova era possível, ela seria uma reviravolta nas classificações sociais, não consistiria em organizar cada um em seu lugar, mas, ao contrário, organizaria deslocamentos materiais e mentais fulminantes”. Essa reviravolta dos lugares sociais, em última análise, é acabar com os lugares. E fazendo uma analogia com o nosso país tupiniquim, é o pobre no aeroporto.

Daí porque Badiou, em 2008, que foi o ano em que ele produziu seu texto-conferência, diz que somos contemporâneos de 68. Em 2019 também somos contemporâneos de 68 do ponto de vista da política, seja de sua definição, seja de seu futuro organizado.  As categorias certamente mudaram, mas os problemas ainda são os mesmos: um mundo livre da lei do lucro e do interesse privado, que é a própria hipótese comunista.

E se o mesmo problema continua, para Badiou deveríamos manter as palavras da nossa linguagem, que eram de todo mundo em 68. Abdicar dessa linguagem é aceitar o terror que nos proíbe intimamente de pronunciar as palavras que não se encaixam na conveniência dominante. Compete a nós criticar essas palavras, dar a elas um novo sentido, mas não proibi-las (maio de 68 representaria uma indistinção provisória em relação ao léxico usado pela concepção clássica de emancipação, muito embora a verdade secreta é que, mesmo compartilhada, era o começo do fim do uso dessa linguagem).

Da mesma forma, convém fazermos nosso próprio balanço do século XX, de modo a reformular a hipótese da emancipação de acordo com as novas condições da época, assim como novas experiências, novas figuras de organização a serem criadas - há todo um trabalho ideológico e histórico complexo a ser realizado. Mas em contraponto à resignação de viver para si mesmo, para seus interesses, sob o julgo da mercadoria e do dinheiro, o que significa viver sem ideia, a única opção é sustentar uma, que só pode ser a ideia comunista em seu sentido genérico.

Badiou sustenta o velho adágio platônico: é preciso viver com uma ideia; somente a partir dessa convicção começa a verdadeira política.

Para concluirmos, e a título de provocação, no texto “Subjetividade sem Nome”, que publiquei algum tempo atrás, tendo como foco o texto homônimo de Giuseppe Cocco e Márcio Tascheto, sublinho as quatro linhas narrativas, por eles elencadas, a respeito das jornadas de junho de 2013: como evento radical e irrepresentável; como primeiro momento das mobilizações que levaria mais tarde ao impeachment de Dilma Roussef; como uma operação para desequilibrar um governo progressista; e como potência que passa a fazer parte da esquerda e do PT. Quatro narrativas ou quatro junhos de 2013 que ponho em paralelo com as quatro hipóteses, segundo Badiou, para as comemorações dos quarenta anos de maio de 68: como ideia de mudança radical ainda viva; como fonte de inspiração pra recobrar a coragem e reagir; como nostalgia e folclore; como realização do capitalismo pós-moderno. Entre o Acontecimento enquanto uma nova forma de política de emancipação (Badiou) e o Evento radical e irrepresentável (Cocco), existe uma diferença infinita.  

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