Mais uma vez sobre a frente ampla

Cai a aprovação de Bolsonaro, cresce o descontentamento, aparecem múltiplos sinais de oposição, ocupam-se ruas e redes, acumulam-se casos de corrupção, se degradam a Economia e a Saúde Pública - com milhões de desempregados e milhares de mortos, respectivamente. O #ForaBolsonaro, impensável e impraticável há um ano atrás, hoje é um dado da situação nacional.

Manifestantes protestam contra presidente Jair Bolsonaro em Manaus 02/06/2020
Manifestantes protestam contra presidente Jair Bolsonaro em Manaus 02/06/2020 (Foto: REUTERS/Bruno Kelly)
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A Frente Ampla pode ser muitas coisas: desde um organismo vivo e estruturado, com centro político de comando e ação até uma articulação modesta e delimitada a uma pauta comum e conjunta, passando entre um e outro extremo por situações intermediárias que possam servir para o propósito fundamental: barrar e derrotar o fascismo.

É, portanto, antes uma tática - com utilidade específica e prazo de validade - do que um projeto, embora em tese nada impeça de vir a sê-lo. Requisita ser versátil, flexível, moldável, disforme, heterogênea e adaptada. Seu funcionamento e perspectiva muda de acordo com quem a concebe: se for hegemonizada pela Direita, terá um fim; se a Esquerda a conduzir, outro será seu mote.

Para a última, é agora uma espécie de "guerrilha política", instrumento e meio para fustigar, desgastar e enfraquecer o Governo de feições fascistas, com vistas a inviabilizá-lo em seus objetivos golpistas e ditatoriais. Lembra o foles de gaita: ora se abre e amplia o espectro, acomodando forças e atores díspares; ora se comprime e o arco e ângulo se tornam por óbvio mais estreitos. As vitórias almejadas podem ser de tipo variado: estratégicas, circunstanciais, simbólicas, perenes, fugazes, processuais ou episódicas, de grande repercussão ou corriqueiras.

Tanto faz, pois o que importa é - nas condições de desvantagem, fragilidade, isolamento e defensiva - manter um ritmo contínuo de ataques relâmpagos que dificultem a marcha do inimigo, o obrigue a paradas e recuos, o desnorteie ou o confunda, crie empecilhos e obstáculos para ocupar e reinar sobre determinado terreno político e lhe impeça de assumir posições privilegiadas no campo de batalha.

Nesse aspecto, os aliados são essenciais e é necessário conhecê-los em sua natureza, limites, disposições e possibilidades. O parceiro de hoje nem sempre o será amanhã. Talvez até se torne adversário, nos trairá ou frustrará causas mais avançadas, porém pode voltar a ser contabilizado em escaramuças futuras. Na fração à Direita o STF, o Congresso Nacional, a Mídia ou Partidos Conservadores serão úteis quando servirem de algum modo para derrotar Bolsonaro, mas não nos acompanharão quando as lutas tiverem acento popular mais agudo.

Essa simbiose é consciente, ousada, destemida, principalmente livre de qualquer ilusão ou ingenuidade. O outro lado também sabe disso, portanto o que está na mesa é um complexo e intrincado jogo de forças e interesses de caráter eminentemente político.

Ao leito ideológico originário, de Esquerda, socialista, vale dizer que não se abdicou das premissas e prerrogativas revolucionárias. Se procede de tal forma rigorosamente por conta da análise da correlação de forças, do quadro histórico tendencial ao fascismo, da urgência em salvar o Povo e a Nação e da prioridade de uma agenda política de salvaguarda da Democracia, das Liberdades e dos Direitos. Nem por hipótese se cogita renegar o papel de vanguarda, muito menos declinar quanto ao Socialismo.

Trata-se tão somente e apenas de uma abordagem metodológica da luta política que compreende que num quadro adverso e potencialmente perigoso, cabe a quem tem acúmulo e vislumbre histórico fazer a luta responsável, consequente, objetiva e realista.

Cai a aprovação de Bolsonaro, cresce o descontentamento, aparecem múltiplos sinais de oposição, ocupam-se ruas e redes, acumulam-se casos de corrupção, se degradam a Economia e a Saúde Pública - com milhões de desempregados e milhares de mortos, respectivamente. O #ForaBolsonaro, impensável e impraticável há um ano atrás, hoje é um dado da situação nacional.

Saber esgrimar nesse quadro conturbado baseado em tarefas práticas é um desafio, ensinamento e exigência. A Frente Ampla corresponde a essas questões e os comunistas perseverarão por suas convicções e caminhos sem titubear, tampouco temer o debate.

O conhecimento liberta. Saiba mais

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