"Mamãe" faz cem anos

A despeito das sinergias e das desavenças entre os seus líderes, a experiência mostrou ao mundo, com contundência inigualável, que colocar o combate à fome, à miséria e ao trabalho indigno como a prioridade de um projeto político pode elevar um país da Idade Média para a superpotência

Revolução russa, Lênin
Revolução russa, Lênin (Foto: Leopoldo Vieira)

Nesta semana, pelo menos segundo o antigo calendário juliano, a Revolução Russa completará 100 anos. Na verdade, a virada bolchevique dela.

Em nome de Laika e Yuri Gagarin, celebro a passagem. Sem dúvida, a conquista do espaço (ou do Cosmos) é o grande legado daquela ousadia.

Graças aos dois astronautas - os autênticos "starman waiting in the sky" cantados por David Bowie - perguntas da maior importância para a humanidade puderam realmente começar a ser respondidas: quem somos? De onde viemos? Para aonde vamos? Qual a natureza do nosso mundo?

Outras lições também são bastante significativas para os nossos dias.

A primeira foi a motivação que permitiu, ao mesmo tempo, aos bolcheviques conquistarem a maioria nas principais cidades e fracassar a solução liberal na economia e na política: a aliança que substituiu a monarquia não conseguiu assegurar pão, paz e terra.

Antes, as necessidades mais urgentes da sociedade. Só assim há apoio para mudanças institucionais mais sofisticadas (ou se evita que aventureiros lancem mão). Só assim se consegue exercer o governo por um período duradouro, com estabilidade, mesmo sob um enorme cerco.

O próprio ato revolucionário - aí contabilizando a Duma e o Governo Provisório - demonstrou, de relance, o que ocorre ao se excluir os pobres do orçamento (por longos períodos).

Com inquestionável deficit em democracia, cujos motivos pertencem mais à sociologia do que moram na filosofia, foi um fruto da Revolução a derrota do nazismo, que volta a relinchar, sobre o estábulo do desespero e da ansiedade, no planeta.

Outras batalhas da Segunda Guerra são memoráveis, mas quem libertou Berlim e aprisionou o comando do 3o Reich foi o Exército Vermelho. E o mais curioso: num extraordinário caso de sucesso da aliança entre comunistas, liberais e social-democratas.

A despeito das sinergias e das desavenças entre os seus líderes, a experiência mostrou ao mundo, com contundência inigualável, que colocar o combate à fome, à miséria e ao trabalho indigno como a prioridade de um projeto político pode elevar um país da Idade Média para a superpotência.

E daqui surge um gancho bastante relevante para outra lição: sendo uma ilha ou uma gigantesca faixa territorial englobando dois continentes, uma nação nunca pode deixar de planejar seu futuro.

Embora tenha perdido a oportunidade de maximizar como bônus o alto nível de educação conquistada pela sociedade e a diversidade de nacionalidades para uma planificação eficiente, mas democrática, esta foi uma chave para percorrer séculos em algumas décadas.

A disputa sobre com fazer isto naquele tempo pertence, hoje, somente à História, tal como nomes como Stalin ou Trotsky. As soluções globais e locais demandam mais cidadãos engajados do que imperadores e profetas. Mais dinheiro no bolso e oportunidades do que religiões (inclusive as laicas).

Neste momento em que o mundo supostamente se opõe entre globalismo x nacionalismo, a lembrança da Revolução mostra que há um caminho do meio, pelo qual é possível ser cosmopolita e preservar identidades e interesses nacionais. Pelo qual o desenvolvimento não depende apenas da capacidade de coordenar a força das corporações, mas de fazer da superação das injustiças sociais e da subjugação entre as nações um ativo para desbloquear o desenvolvimento.

Para terminar, uma citação antológica de Lenin, no período da guerra civil: "levai todo o idealismo, mas não esquecei da pólvora enxuta". Para os políticos e ativistas de hoje, pode ser traduzido assim: querido (a), faça muita política, pois não são suas lindas idéias e verdades que decidirão, em última instância, o jogo".

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