Manifesto Estamos Juntos: uma súplica ao torturador

Além de não ter clareza sobre a quem se dirige, o tom do manifesto é um problema. Ao não se arriscar a ser contundente, torna-se quase uma súplica. Alguém acredita que o torturador se deterá diante de uma súplica?

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A assinatura do manifesto Estamos Juntos tem dado o que falar. Ou melhor, a não assinatura de Lula, que se negou a fazer parte da proposta. A imprensa corporativa, que ainda está com os punhos doendo de tanto bater no PT, aproveitou para retomar a balada de chamá-lo de sectário, arrogante, egocêntrico, etc. Mesmo na imprensa alternativa, os debates estão acalorados, com o questionamento sobre se era correto assiná-lo ou não. Talvez o problema esteja aí, no tipo de pergunta que estamos fazendo. Os tempos atuais, realmente incendiários, colocam a paixão na frente do raciocínio, mas vamos pensar a respeito do que diz o tal manifesto...

O “ Estamos Juntos” declara-se a favor “da vida, da liberdade e da democracia” – mais de trinta mil brasileiros já morreram de coronavírus, sob a batuta animada da marcha fúnebre do desgoverno Bolsonaro – aliás, ele não disse que deveriam ter matado trinta mil na época da ditadura? Outra parte de brasileiros ainda não saiu da escravidão – isso ficou evidente, pois se encontra espremida entre a decisão de ganhar o pão nas ruas, arriscando a vida, ou ficar em casa morrendo de fome. De democracia, precisamos admitir, sabemos bem pouco, pois a bonita “vitória” das Diretas Já se desmanchou como um picolé ao sol nessa esteira de golpe contínuo, que nunca termina...

Lula, que foi preso como líder sindical na época da ditadura e, depois disso, respeitando as regras do jogo imposto pela direita, tornou-se o melhor presidente que já tivemos, para ainda vir a ser injustamente acusado, condenado e preso – aprendeu muito neste caminho. E não está mais disposto a distribuir flores para a direita raivosa, dissimulada, hipócrita e manipuladora.

Qual a criança que se lamenta pelo picolé perdido, o texto continua em tom quase etéreo, como se “vida, liberdade e democracia” fossem uma aquarela na parede, e não valores imprescindíveis sendo espancados diariamente pelo desgoverno eleito através do silêncio conivente de muitos (alguns assinantes do tal manifesto) sobre um candidato que fazia apologia ao estupro, defendia a liberação de armas e vociferava contra a maioria – sim, porque a soma das “minorias” é a maioria do povo brasileiro: negros, homossexuais, mulheres e petistas.                                          

E é preciso mais uma vez lembrar a tudo que foi preciso fazer vistas grossas para tentar “legitimar” uma eleição fraudulenta: a retirada ilegal de direitos de Lula, a festa das fake news, a ausência injustificada de debates que pudessem expor ideias e qualificação dos candidatos – a facada fake e o “desconforto” com a bolsa de colostomia não impediram Bolsonaro de levantar uma taça de 18 kg em vitória futebolística, ou de passear entre torcedores e jogadores nas comemorações. E a grande mídia nunca questionou isso como deveria, e ainda tentou mostrar Bolsonaro e Haddad como dois lados da mesma moeda...

Claro que podemos considerar que, hoje, para derrubar o fascismo vale tudo. Será!? É bem compreensível a necessidade urgente de sair do ponto em que estamos. As propostas de união utópica que conseguem furar a barreira da mídia corporativista são, porém, apenas as que seguem os seus termos. Foi assim com as Diretas Já... e vejam só aonde viemos parar. O principal problema é que o texto carece até de direcionamento. Alguém pode garantir para onde se dirige este ônibus, afinal? Será mesmo para o fim do fascismo, ou talvez uma versão mais tolerável dele? Se não fosse a menção a uma crise sanitária, e as citações ao Brasil, e aos brasileiros, a redação poderia servir para muitos outros povos e épocas diferentes. Isso diz alguma coisa. E, se a proposta é colocar-se contra o fascismo, é preciso mostrar coragem, posicionar-se decididamente, coisa que os parlamentares de esquerda têm feito, dia após dia (então é injusto colocar esquerda e direita como iguais no mesmo barco, percebem?). Não houve a coragem sequer de um “Fora Bolsonaro”, de apontar o dedo para o projeto de ditador que, com sua incompetência e insensibilidade, acelera e promove a morte de tantos brasileiros.

O texto quase diz algo que realmente importa ao declarar a exigência “que nossos representantes e lideranças políticas exerçam com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país”. Mas, ao não direcionar a mensagem a quem de fato a merece, a tornam vazia. A que lideranças se refere? Não cabia a Lula assinar isso, como legítimo líder político. Não ele, que tem colocado sua vida, sua liberdade e de sua família em risco,  dirigir-se de forma quase chorosa aos artífices de nossa desgraça diária. Portanto, além de não ter clareza sobre a quem se dirige, o tom do manifesto é um problema. Ao não se arriscar a ser contundente, torna-se quase uma súplica. Alguém acredita que o torturador se deterá diante de uma súplica? Pois é neste ponto em que estamos, sendo alvo de uma tortura coletiva. Nada que a homenagem a Brilhante Ustra na votação do golpe contra Dilma já não tenha anunciado...

Os que assinaram o manifesto, porém, não merecem nenhuma condenação. Entre seus signatários há algumas personalidades que já declararam amplamente sua vontade autêntica de mudar o que aí está, e têm feito, com suas histórias de vida e declarações pessoais, participações valorosas na busca de resgate da democracia. A questão é que cada um que assina deve ter consciência da sua identidade e da sua responsabilidade com o que defende. Lula, justo por ser quem é, não se permitiu a um ato que o tornaria, como disse em momento de indignação, “maria vai com as outras”. Ele, Lula, não seria correto com todos que acompanharam e acompanham a luta ao seu lado, ou com o Partido dos Trabalhadores, se colocasse sua assinatura ali.

Mas com isso acusam Lula de privilegiar um projeto de poder, ou de não perceber que o PT teria perdido forças para, sozinho, ser a proposta de futuro para o país. Além de retomarem, claro, aquele blablablá de corrupção, que já está escancarado com a simples evidência de quase nenhuma  investigação ou punição que envolva outros partidos (Aécio e Temer são as principais testemunhas disso), e do posicionamento pouco imparcial de muitos que participaram de processos legais (principalmente promotores e juízes) contra petistas...

Talvez o PT não tenha conseguido, ainda, liderar a derrubada do tabuleiro, mas sem ele não haverá um somatório de forças que determine a imediata restituição da democracia. O partido, é certo, nunca teve projeto de poder, mas sim de governar para o povo brasileiro, caso contrário teria aparelhado a Polícia Federal (como está fazendo Bolsonaro) e não dado a ela mais autonomia. Até mesmo a forma extremamente republicana de Lula escolher novos ministros para o STF, altamente criticada por todos aliados, que ratificava o primeiro da lista de indicações, demonstrou isso. Ingenuamente, Lula, o PT e quase toda a esquerda (me incluo nisso) acreditaram que as “regras do jogo democrático” serviam para todos. Mas agora Lula mostra que mudou, que não aceitará mais se submeter (e aos seus apoiadores) a estas regras, como peça no jogo alheio... 

Por mais que a mídia corporativa tenha tentado destruir o PT – com a ajuda das fake news-, ele é ainda o maior e mais respeitado partido de esquerda brasileiro. Falta, à direita limpinha e cheirosa, e até a muita gente da esquerda, fazer o seu mea culpa. O PT, que foi e é a esperança do Brasil, como disse a Presidenta do partido Gleisi Hoffmann na reunião digital recente, precisa ser reconhecido como uma das principais forças contra o fascismo. Quem acredita que devemos buscar a mais profunda união social para sairmos do imenso buraco em que estamos devia começar a luta por aí... Não adianta falar sobre maturidade política, ou exigi-la dos outros, se não formos capazes de encarar – e curar – as feridas infringidas nas camadas mais profundas do tecido social. Não é com um band aid bonitinho de um texto supostamente bem-intencionado que se vai curar as pernas fraturadas de nossa democracia.

Por fim, um manifesto que pretenda ter a força de unir esquerda e direita – e respeite a política - deveria ter sido articulado através de um debate com representantes dos principais partidos políticos. Do contrário, não passa de uma peça publicitária, que pode servir mais tarde para glorificar alguém. 

A polêmica levantada por Lula é muito saudável, e mostra que faltou consistência, honestidade e maturidade à proposta, feita em modelo um tanto “global” ou, para ser mais clara, superficial – por isso está sendo amplamente aceita pela mídia golpista. A pergunta que fica no ar é: a que intenções ela serve, além de fazer uma defesa pífia do estado democrático? Quero lembrar, em especial, que o respeito à política envolve o respeito por um dos mais importantes partidos trabalhistas  do mundo – e por seu líder. Nossa democracia está – e estará – incapaz de se recuperar enquanto não for restituído o respeito devido ao PT e a Lula.

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