Marco Albertim, escritor de hoje e do futuro

Na sua página do Facebook, Breno Albertim publicou em 15 de junho que nesse dia o escritor completaria 69 anos. E com estas palavras saudou o pai: “Viva Marco Albertim! Viva sua paixão pela literatura! Viva a sua literatura! Viva sua luta contra a ditadura militar nos anos 60 e 70! Viva sua militância nos primórdios do PC do B de PE!”

Na sua página do Facebook, Breno Albertim publicou em 15 de junho que nesse dia o escritor completaria 69 anos. E com estas palavras saudou o pai:   

“Viva Marco Albertim! Viva sua paixão pela literatura! Viva a sua literatura! Viva sua luta contra a ditadura militar nos anos 60 e 70! Viva sua militância nos primórdios do PC do B de PE!”

Diante disso, o grande escritor e jornalista José Carlos Ruy me honrou com um convite. Ele me perguntou por email se eu topava escrever um texto de homenagem ao escritor Marco Albertim, falecido em 2015. Emocionado, só lhe pude responder que topava, pois não havia faltado ao reconhecimento literário do escritor em vida, nem podia faltar agora. Assim foi, e assim vai ser a seguir.

Há quatro anos, quando comuniquei a notícia do falecimento de Marco Albertim ao Diário de Pernambuco, falei à repórter que para o magnífico escritor ainda não havia soado a hora da justiça. Eu queria dizer, é claro, que somente para um grupo fraterno de leitores havia o conhecimento do que ele escrevia. Mas ainda assim, em meu juízo, não se percebia o valor e altura do seu texto. Nós, até mesmo os que somos próximos, raro possuímos a dimensão do ouro que passa sob nossos olhos. Nós, até mesmo os amigos, tendemos a valorizar o que é consenso além do nosso convívio. Mas se outros falam que o nosso amigo é muito bom escritor, chegamos a ficar meio incrédulos. E nos perguntamos, em um silêncio envergonhado: “Será que falam da mesma pessoa?”.

No entanto, o escritor Marco Albertim há muito devia ser conhecido e reconhecido em razão da excelência do que deixou escrito e permanece. Entre muitos exemplos, destaco um do seu conto Uma noite no cabaré, do  livro “Ingrid tinha alergia à a lama do Capibaribe”, publicado pela CEPE em 2012:

“Do barulhento bordel restou a sala da frente, alumiada por um candeeiro fumacento. Prateleiras mofadas, furadas por cupins sob uma dezena de garrafas de cachaça, sortindo a vista de três homens e uma mulher. O vendeiro, com a barba desigual, os cabelos soltos, coçava o rosto com força, raiva. Engoliam com tremor convulso nas mãos, na garganta. A mulher, velha, perdera a inquietação de ocultar rugas com ruges inúteis; distraía-se com a bebida, no exame da rua abandonada. Os olhos luziam, corados, a cada gole. Tinha o juízo enfermo, e putas com pó de arroz no rosto dançavam na sua frente... Se houvesse relógio na parede, teria ponteiros desinteressados nas horas”.

E o conto segue, em clima, desenvolvimento e frases que são um presente da escrita para qualquer leitor. Mas é preciso que se fale mais preciso do que realizou e continua a caminhar o escritor além dos dias presentes. Marco Albertim é autor de crônicas marcantes, na fronteira entre o literário e a reportagem, como no texto “Palmares é uma poça de lama”. Para mim, é o melhor quadro da devastação das enchentes em Pernambuco até hoje. Eu pensava em reproduzir apenas o primeiro parágrafo da sua reportagem incomum. Mas seria pouco. É irresistível a citação do texto inteiro, publicado no Vermelho:

“As águas descem. Ficou uma poça de lama grossa, porosa, doentia. Não se ouve o ruído ameaçador das águas subindo, cobrindo casas, pondo abaixo pontes. As pontes caíram há uma semana; o estrondo que se espalhou deu conta de que o mundo, ali, ruiu; de que toda a gente de Palmares nada significara para o resto da humanidade. A ponte caiu! – alguém gritou para afirmar o impossível, visto que as vigas de concreto, ah... as vigas; nem mesmo um milagre de Deus as tiraria dali. Agora, com a trégua das enchentes, inda que o bodum revolvido dos esgotos se misture à crestadura do sol súbito, a vida se reanuncia; tímida, promissora.

Na beira do Rio Una, a casa da professora fora invadida por destroços; uma casa de feitio senhorial, com cinco quartos, terraços na frente, nos dois lados, nos fundos. Os fundos e a cozinha foram levados pela torrente insana. Os móveis, utensílios módicos testemunhando o esforço de, com o salário de professora municipal, ostentar os costumes da classe média. Vista do outro lado da rua, distingue-se uma quantidade nunca contada de eucaliptos em volta. Eucalipto é árvore predadora, apontar sua existência seria estimar a quantidade de outras espécies sufocadas por ele. A casa não fora comprada. O pai da professora, há muito no ofício de chefe de manutenção da usina, ganhara-a do usineiro. Concessão obtida depois de trinta anos de serviço. Nenhum dispêndio sequer para a obtenção do título de proprietário, a não ser o do dia a dia, da mantença do imóvel. Agora... Também a usina tivera o maquinário invadido pelas águas. Prejuízo de 14 milhões! O usineiro, quase apoplético, viu a lama se misturar com o óleo lubrificante nas esteiras. Recuperação só com a ajuda do governo! O pai da professora, 75 anos, nutrira esperança de que sua casa, residência dos anos em que servira à usina, zelando pelo uso da moenda, teria o reforço dos cofres do usineiro.

Os dois, acompanhados do neto de 22 anos, seguem para o alto de Palmares. Ali se veria a cidade semicoberta. No caminho, onde havia um parque de diversões, há ferragens torcidas. Eles andam sobre uma das margens da rua. Usando botas de borracha, só com a roupa do corpo, não se importam de pisar na lama mole, de um pretume nunca visto, ameaçador, inda que atraente como o azeviche. Juntam-se à romaria dos retirantes. Carroças puxadas por cavalos magros levando famílias e móveis velhos, panelas de alumínio, foices, enxadas, pás, tudo útil para o trabalho de remoção da lama. O caminhão-pipa, com a torneira aberta na parte de trás, enchendo latas, panelas de gente com os pés, as pernas, os braços, a roupa do corpo suado sujos. Ninguém lhes censura a aparência porque a penúria os igualara. Os três não têm vasilhas para encher com a água transparente da torneira grossa, água limpa saindo de uma espessa mangueira de borracha. Entram na fila, um atrás do outro. Bebem a água com as mãos em concha, sôfregas, as lágrimas ocultas pela abundância da água. Bebem olhando para a lama, com vingança nos instintos.

Na esquina do quarteirão, uma mocinha e seu irmão, os dois aparentando 13, 14 anos, tomam conta do que restara do choque desigual entre eles e a torrente. O precioso butim distingue-se do amontoado de lixo na superfície da lama, por ainda ostentar o reduzido brilho de meia dúzia de panelas amassadas, com manchas de azinhavre. Tudo em cima de uma estante que nunca vira livros, mas um rádio portátil sumido na correnteza, e algumas plantas em jarros de barro, de estimação. Pai-avô, filha e neto apreciam rendidos à pobreza dos irmãos; flagrados pelos próprios sentidos, redime-os de alguma culpa a escassez de bens ou o fim do que possuíam.

Param atrás de um carro de cujo bagageiro, um homem de cabelos grisalhos distribui pães tirados de um saco. Com a fome estampada nos olhos, a fila dos flagelados põe-se tão disciplinada quanto o costume de comer a minguada refeição diária, velando por si e pela porção de cada um dos parentes. Pai-avô, filha e neto seguram cada um um pão, sobem a ladeira; acomodam-se na casa de outra professora que já os esperava. Há biscoitos na mesa da cozinha, numa cesta de vime descoberta. Os três têm apuro no olfato, mas...

- Não tenho fome – diz o velho, distinguindo dali a sombra do telhado de sua casa”.

Esse final do velho sem fome, ferido pelo que perdera, é narração que vem da leitura dos clássicos, de Tchekhov, um dos escritores cultivados por Marco Albertim. A lição é: não fale que a lua está brilhando, mostre-a no reflexo de um caco de vidro.   

Assim também, penso que  devemos falar da grandeza de um escritor a partir do reflexo do que ele escreveu. Em seu romance “Conspiração no Guadalupe”. vemos o desejo de jovens nos bares da noite de Olinda no tempo da ditadura:

“Ela riu, pressentindo a luxúria nos limites; riu feliz com a possibilidade de se apropriar da fervente luxúria. Ele manteve o corpo com o tórax sobre o ventre dela; sentiu, nas escamas do rosto mal barbeado, a coifa escura dos pentelhos podados nas laterais, com um traço em declive no meio. A felação mútua levou-a ao estupor....

Depois do banho de mar, voltaram para o Maconhão; na mesma mesa, o mesmo garçom. Ovos com presunto, pães fatiados, manteiga, suco de laranja. A celebração não fora interrompida...

- Beije-me.

- Estou com fome.

-  Moqueca?

- Quero peixe cru, descamado, cobertura de coentro.

- Essa agora...

- Essa agora. Estou com desejo.

O garçom trouxe postas de pampo sem cabeça, sem a espinha dorsal, despeladas; ramos de coentro por cima, sal, molho de soja; folhas de hortelã e raspas de gengibre. Queria Chica sentir temperos fortes. Com o gengibre, abriria a boca para a brisa gelada..”.  

E agora, faço uma revelação que é um verdadeiro segredo de polichinelo. No meu romance “A mais longa duração da juventude”, que dedico ao escritor, narro o personagem Luiz do Carmo cujo modelo é Marco Albertim:

“Ali naquela mesa do Peneira, sei, e não posso dizer na hora em que sentido, conversei com o meu amigo Luiz do Carmo antes do seu último dia. À porta do Bar do Peneira passam jovens sorrindo, olham, sorriem e nos acenam. Respondemos num impulso, mas como no filme de Chaplin o aceno era para outra pessoa no bar. E sorrimos do engano. Então, na quinta dose, chegamos não sei como ao que é crucial para Luiz do Carmo, ao que é um valor mais alto que a puberdade tardia de Goethe. E lhe digo, não sei por qual movimento do álcool ou do gelo no álcool:

- Os seus textos são elogiados, Luiz.

Então ele me olha surpreso, curioso, e me faz uma intimação da verdade:

- Por quem?

- Pelas pessoas, pelos intelectuais em quem temos confiança.

- Mas quem? – Luiz do Carmo pergunta com os olhos ainda mais arregalados. E lhe respondo:

- Por Zacarelli, por exemplo. Você sabe, Zacarelli é um grau de competência intelectual entre nós.

- Eu sei, é um amigo – ele me responde, entre a descrença e o crédito.

- E também por José Carlos Ruy, por José Reinaldo, que são intelectuais de valor e comunistas.

- Eu sei. Mas são generosos, são camaradas.

Entendo o que Luiz do Carmo deseja. E o compreendo porque somos da mesma natureza. Ele, como todo escritor, possui uma dúvida absoluta sobre o próprio talento. Não importa em que ponto de reconhecimento universal se encontre, para o escritor sempre haverá a dúvida numa hora da madrugada: 'E se tudo for mentira? E se toda essa louvação for um engano? Passado este momento, este presente, não ficarei esquecido, como tantos medíocres?'. Eu não gosto da fama do meu nome, dizia-se um personagem de Tchekhov. Eu entendo a angústia de Luiz do Carmo, mas não posso deixar de me comover diante da sua ansiedade".

Então me veio dali uma consciência da literatura. Ela é maior que as nossas vidas. E porque somos agentes da duração do tempo, a nossa vida é sempre a resistência ao fugaz. Nós só vivemos enquanto resistimos. Hoje, a resistência do escritor comunista Marco Albertim é a sua literatura. A escrita que nos legou é presente e futuro, a mais longa duração de uma vida.

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