Marighella, um herói brasileiro

O filme também é grandioso ao mostrar cenas comedidas de tortura sem fazer delas o ponto principal. No entanto, são suficientes para mostrar o erro colossal que foi anistiar torturadores. Todos eles cometeram terrorismo de estado e crimes contra a humanidade. Sua impunidade é uma ferida aberta que jamais irá cicatrizar

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‘Marighella’, o filme, ja é sucesso de público com apensa quatro dias de exibição nos cinemas (Foto: divulgação)


Finalmente pude assistir ontem ao filme. Não há como deixar de voltar no tempo e recordar os anos que vivi durante a ditadura. Quando aconteceu o golpe eu tinha apenas 6 anos, minha militância começou a partir dos anos 70.

Minha única lembrança viva do golpe militar é de correr com minha mãe para casa. Por alguma razão, nos encontrávamos na rua e ela agarrou minha mão, entrou em um Bonde. Da janela eu lembro de ver aglomerações de pessoas de um lado para outro. Descemos e fomos direto para casa.

Já na adolescência eu frequentava um movimento juvenil judaico sionista socialista. Todo nosso material didático havia sido escondido depois de informações de que o Dops poderia bater na nossa porta. O material era de pensadores judeus socialistas e sobre os Kibutz, fazendas coletivas socialistas de Israel. Ninguém achava que eles iriam entender, e que bastaria verem a palavra socialismo escrita para levar todo mundo em cana.

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A gente tinha pleno conhecimento do que estava acontecendo, da censura e dos desaparecimentos de militantes. Naquele tempo estas conversas só podiam acontecer entre amigos. Eu frequentava um grupo de resistência secundarista que se reunia em uma sala cedida pelo então MDB na Assembleia Legislativa do RS, o IEPS - Instituto de Estudos Políticos e Sociais do MDB. 

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Naquele tempo a gente se dividia entre porras loucas e alienados. Os porras loucas eram os que achavam preciso combater a ditadura militar e devolver a democracia para o país. Os alienados eram aqueles que não se envolviam com política, viviam e deixavam viver sem se importar com nada. Eu era um daqueles porra loucas.

O filme me trouxe várias lembranças, mas uma em especial. Corria o ano de 1974, o ano do fim da luta armada no Araguaia e da Copa do Mundo. Junto com a copa a maior epidemia de Meningite que a censura procurava esconder da população. Em dias de jogo do Brasil os porras loucas torciam contra, os alienados a favor do Brasil.

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Na minha cabeça era incompreensível que alguém pudesse se importar com um jogo de futebol enquanto dezenas de brasileiros eram torturados até a morte ao som da narração dos jogos. E eles eram a maioria da população.

Quando Marighella morreu eu estava fazendo 11 anos de idade. Só fui saber de sua luta muitos anos depois já na militância contra a ditadura. Sua trajetória era uma inspiração. Eu sabia que a luta armada não tinha a menor chance de dar certo, mas resistir de todas as formas era a minha maneira de humildemente  honrar aquele que foi um herói brasileiro e todos que deram suas vidas para libertar o Brasil da ditadura militar.

O filme também é grandioso ao mostrar cenas comedidas de tortura sem fazer delas o ponto principal. No entanto, são suficientes para mostrar o erro colossal que foi anistiar torturadores. Todos eles cometeram terrorismo de estado e crimes contra a humanidade. Sua impunidade é uma ferida aberta que jamais irá cicatrizar. 

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A cena final do filme é enigmática. Não vou fazer spoiler, mas é uma cena onde a falta de um personagem e o cântico dos demais, entrelaçados e abraçados, do Hino Nacional, nos comove como brasileiros e patriotas. Eu me senti agradecido, como se aqueles que pereceram na luta estivessem dizendo "Muito Obrigado" porras loucas.

Marighella não foi o único herói a enfrentar a ditadura. Ainda precisamos contar a história de tantos outros patriotas que deram suas vidas por um Brasil livre e que diante do quadro atual devem estar dando voltas em suas sepulturas. A história de outro Calos também precisa ser contada, Carlos Lamarca.

A luta continua, Marighella presente!

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